Brito: Parabéns ao CAO e ao lar residencial do Centro Social

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Brito: Parabéns ao CAO e ao lar residencial do Centro Social

Daqui a 15 dias o centro de atividades ocupacionais (CAO) e o lar residencial do Centro Social de Brito completam um ano de atividade. Estas duas valências dirigidas à população com deficiência vieram colmatar necessidades há muito identificadas por esta instituição com mais de 20 anos de existência.

O balanço dos primeiros 365 dias destas respostas sociais teve lugar numa sala do Polo Paraíso do Centro Social de Brito e foi realizado pelas diretoras técnicas de cada uma das valências, Ângela Dias e Adelaide Silva. A grande janela envidraçada antevia o espaço exterior frequentado pelos clientes da instituição depois da habitual sesta após o almoço. Foi a hora ideal para poder observar esta rotina já que, devido à pandemia por covid-19, não foi possível conhecer os cantos à instituição, falar com quem nela trabalha, com os que passam os dias em atividades ocupacionais e os que fazem dela a respetiva casa.

Ângela Dias e Adelaide Silva ao falarem com o Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência, revelaram que estão em causa 30 clientes que residem no lar e 13 pessoas a frequentar o centro de atividades ocupacionais. “O nosso lar ficou logo sem vagas passado umas semanas de abrir”, revelou a diretora-técnica do lar residencial, Ângela Dias, referindo que o Instituto da Segurança Social recorreu ao Centro Social de Brito para dar resposta a algumas emergências sociais que há um ano atrás precisavam de resolução.

Depois de anos a confirmar a procura por estas valências, o Centro Social de Brito decidiu não adiar mais a criação destas respostas sociais e a 01 de julho de 2019 inaugurou o centro de atividades ocupacionais e o lar residencial no polo Paraíso. “Sem dúvida tivemos sempre muita procura. Tivemos jovens que estavam connosco no jardim-de-infância desde pequeninos, acabavam depois por passar para o ATL [Atividades de Tempos Livres] e já depois da idade em que devem ficar no ATL eles ficavam connosco”, confirmou a diretora-técnica.

Está em causa um grupo de clientes bastante heterogéneo, em que o mais novo tem 19 anos e o mais velho 92 anos – cujos pais já faleceram, outros têm pais idosos que já não conseguem garantir os cuidados necessários e outros, a grande maioria, vem de contextos familiares negligentes. “Temos casos de algumas pessoas que nunca comeram com talhares e que a primeira vez que lhes colocámos os talheres nas mãos não sabiam o que fazer. Temos histórias de vidas muito difíceis aqui, que só agora acabaram por ter uma resposta adequada porque estavam ainda com familiares que lhes davam maus-tratos”, confirma Ângela Dias.

“A maior parte estão aqui por terem uma família negligente, nota-se que há muita falta de amor. Mas nós aqui cuidámos com o dobro do amor. Temos aqui jovens que nos abraçam como se nunca tivessem abraçado na vida”. Ângela Dias

Esta falta de retaguarda familiar acabou por facilitar a gestão das videochamadas e das visitas nesta crise epidemiológica por covid-19. “Nós aqui temos pouquíssimas famílias. Mesmo agora com as visitas, no lar de idosos nota-se que as visitas são sempre preenchidas, aqui no lar residencial não”, compara a diretora-técnica do lar residencial.

Por mais que as relações familiares da maioria dos clientes do lar residencial esteja comprometida, não foi fácil gerir as saudades daqueles que ainda “têm ligação com os irmãos, com os primos e gostam de a sentir e gostam de a ter”. “Os que têm a família presente sentem-se abandonados: ‘Mas porque é que ela não vem cá?’. E quando explicámos, passados dois minutos já estão a perguntar: ‘Mas quando é que ele vem?’. Mas abandonados é muito forte porque fomos tentando sempre manter o contacto”, sublinha Ângela Dias.

O cuidado em “sincronizar” a forma como os colaboradores da instituição e os familiares falam com os clientes destas valências do Centro Social de Brito foi essencial para amenizar a ansiedade e o stress causados por este inimigo invisível. “Fazíamos questão que o familiar falasse na mesma linguagem que nós porque quanto mais coesa fosse a informação para eles e numa quantidade maior eles acabavam por aceitá-la melhor”, explica a diretora-técnica do lar residencial.

Foi preciso explicar aos clientes do lar residencial porque é que não podiam sair, porque é que as colaboradoras trabalhavam de máscara e porque é que não podiam estar com os colegas do centro de atividades ocupacionais.

“O CAO esteve dois meses e meio fechado o que acaba por condicionar um trabalho mais efetivo que foi iniciado em setembro. Embora algumas coisas estejam adquiridas, há comportamentos, formas de estar que já estavam a ser perdidas e hoje temos que retomar esse serviço”, acrescenta a diretora técnica do CAO, Adelaide Silva.

Foi preciso explicar de forma “diária e constante”, recorrendo a ilustrações e comparações, a importância da lavagem das mãos e outras informações relacionadas com este novo coronavírus e as medidas de proteção a adotar. “Tínhamos uma jovem que achou que o vírus era um bicho grande e até perceber porque é que ela estava diferente, porque é que estava com medo e porque é que perguntava constantemente se as portas estavam fechadas, ela vivia aterrorizada”, exemplifica. Ângela Dias revela ainda que outros clientes como não se aperceberam bem o que se passava também não sofreram tanto com isso. “Mas temos alguns jovens que não entendiam e ficaram desorientados e até mais agitados”, completa.

O distanciamento social foi o mais difícil de conseguir cumprir. “Eles vêm e abraçam”, atira a diretora-técnica do CAO. “Pisam todos a linha vermelha”, completa a diretora-técnica do lar residencial que lembra que nas primeiras semanas os clientes estavam a ficar demasiado tristes e com muito stress. “Temos uma menina que tem uma necessidade de abraçar diariamente e quando dá um abraço fica iluminada e fica feliz e estava numa tensão enorme e chorava à noite e ninguém sabia o que era, mas houve um dia que a abracei.  Nós tentámos mantê-los distanciados mas tem momentos que não dámos um ‘chega para lá’, abraçamos e seja o que Deus quiser. São maiores as consequências da falta de afeto do que propriamente a possibilidade de virmos a contrair o vírus”, admite Ângela Dias.

Os hábitos mudaram e instalaram-se. A entrega dos colaboradores do Centro Social de Brito foi total, mas o cansaço relacionado com a nova rotina, os cuidados de higienização acrescidos e a ansiedade começou a manifestar-se “mesmo não sendo culpa de ninguém”. “Tivemos uma equipa fantástica, que conseguiu manter-se muito unida, com muita garra para enfrentar isto e socorremos a equipa do lar de idosos”, diz. “O mês de março foi difícil porque tínhamos muitos sustos. Qualquer febre, qualquer tosse, qualquer contacto de alguém que pudesse ter estado com um infetado era motivo para estarmos com medo”, confessa Ângela Dias.

Os resultados dos testes de rastreio à covid-19 realizados a todos os colaboradores e clientes das instituições de apoio às pessoas com deficiência de Guimarães também deram todos negativo no Centro Social de Brito. “Veio trazer muito alívio e ainda mais força à equipa”, acrescenta.

“É sempre difícil estar fora em lay-off, sentir a ansiedade aqui dentro dos colegas, estarmos em casa e sentirmos que queríamos ser úteis, sentir a preocupação de quem cá está, dos meninos que ficam e daqueles que estão em casa. Sentir a preocupação até dos pais, este stress”. Adelaide Silva

A reabertura do centro de atividades ocupacionais é mais um sinal da tentativa de um regresso à nova normalidade ainda que a convivência com os colegas do lar residencial não seja possível e, por isso, as saudades apertem. “Acabam por sentir falta. Eu quero ir vê-los, eu quero cumprimentá-los, eu quero estar com eles e eles sentem este distanciamento. Esta pandemia acaba por atrapalhar todo o trabalho realizado”, comenta Adelaide Silva.

Ainda há clientes em casa porque não se sentem seguros para reiniciar a rotina ou os pais têm receio e consideram este regresso prematuro. “Alguns pais dizem ‘eu sei que estou cansado, eu sei que ele precisava de rotina e de sair de casa mas eu tenho que o proteger’. O grupo está reduzido. Temos um jovem que todos os dias chega lá [ao quadro de presenças] e aponta para umas caras que não estão cá”, observa a diretora-técnica do centro de atividades ocupacionais.

A energia neste momento está concentrada em conseguir ultrapassar esta fase de pandemia, mas mal seja possível a vontade maior é de tirar todos os projetos que estão na gaveta, adiados por esta crise epidemiológica por covid-19. “Nós temos muito espaço verde aqui à volta e pensámos fazer com os jovens uma produção de chás. Fazer todos os processos: fazer a parte da plantação, manutenção e mesmo a parte da embalagem, criando uns saquinhos próprios com a nossa identidade para depois passar para venda ao público”. Este e outros projetos estão neste momento “em stand-by” devido à crise epidemiológica que Portugal enfrenta desde março.

A exceção é mesmo a festa de aniversário que será, obrigatoriamente, singela porque estão proibidos os ajuntamentos. “É uma casa com um ano, um bebé a crescer, uma fase tão boa e foi travada com este vírus. Queremos ver esta casa crescer, que se vá a pandemia embora para nós continuarmos a evoluir”, conclui Ângela Dias.

 

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Fórum editor

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

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