A inovação ao serviço da inclusão

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A inovação ao serviço da inclusão

O Projeto I9 com a Diferença, promovido pela Cercigui com o apoio do município de Guimarães, não é uma atividade ocupacional permanente, mas também não tem como objetivo a inclusão efetiva no mercado de trabalho. Esta proposta inovadora vai ao encontro das Ritas, dos Leoneis e dos Antónios que precisam de identificar as respetivas competências e de orientação para soluções à medida das necessidades e capacidades de cada um e cada uma.

À chegada à sala multifunções, onde se realizam pequenas produções, fica-se logo a perceber a divisão do trabalho realizado, para esta semana, no âmbito do projeto i9 com a Diferença, uma solução inovadora para dar resposta à população desprotegida com doença mental ou deficiência intelectual para, no fundo, evitar os contextos de exclusão social a que estariam destinadas.

Rita Gonçalves tem 21 anos e gosta da ideia de estar a dobrar os envelopes de botões que acompanham as etiquetas de roupa. Gosta também de imaginar que o trabalho que realiza acaba nas lojas e na casa das pessoas que compram vestuário com envelopes de botões sobressalentes. A jovem vimaranense vem trabalhar às segundas, quartas e quintas. “Gosto de conviver com as pessoas e de trabalhar. Gosto deste trabalho, já meti o fio em sacos com uma agulha”, explica.

Feitas as dobras dos envelopes, o trabalho segue para outros tarefeiros responsáveis por as colar. Leonel Ribeiro é uma das pessoas que desempenha essa tarefa. O jovem frequenta o i9 com a Diferença há cerca de um mês. Antes disso, costumava estar por casa, aliás, como a grande maioria dos participantes deste projeto. “Tenho amigos, ocupo o meu tempo e acho que é o melhor para mim. Na sexta-feira fui para um centro de equitação e estive a ajudar a limpar as boxes e gostei”, conta em jeito de quem compara o “antes e o depois” de conhecer este projeto.

António Fernandes, que se considera “o pai deles todos” por ser o mais velho, não resiste e também faz o mesmo exercício: “Para coisas tristes basta a minha vida”, atira assumindo que a participação no i9 com a Diferença, além de representar uma alegria, ensinou-lhe muita coisa. “Ensinou-me a ter mais calma e mais responsabilidade. Tenho aprendido todos os dias, com a vida, com as pessoas e até com as diferenças. Não gosto de ser comodista”, confessa.

Prestes a completar 50 anos, é no Centro de Reabilitação e Formação Profissional que vai prosseguir com o desenvolvimento das respetivas competências pessoais, profissionais, sociais e relacionais. Esta mudança é uma espécie de upgrade para todos os beneficiários que poderão equacionar um processo de empregabilidade em modelos mais tipificados.

No i9 com a Diferença ficam aqueles que mais sentem a exclusão de um mercado laboral pouco flexível e que ainda estão num processo de descoberta do respetivo potencial individual e interesses e motivações.

“Fazemos esses pequenos trabalhos. Temos a dobragem e a colagem dos envelopes muito pequenos que são os buttons bags, que guardam os botões que estão na etiqueta da roupa, fazemos também artesanato inclusivo para tentar fazer coisas que eles gostem e vamos fazendo aqui uma panela grande de opções para ir de encontro às competências de cada um”, explica a coordenadora deste projeto Patrícia Meireles Graça.

Patrícia Meireles Graça foi terapeuta ocupacional nas escolas durante sete anos através do Centro de Recursos para a Inclusão da Cercigui. Agora está responsável por “casar” as tarefas e os serviços que as empresas entregam ao i9 com a Diferença com as competências de cada pessoa para que o trabalho seja feito. “Independentemente da tarefa que estamos a realizar cá dentro, aqui entra a parte da terapia ocupacional, pode passar por todos, por dois ou três. Há pessoas que não conseguem fazer determinadas coisas, como colar, mas conseguem dobrar. Não conseguem enfiar os fios na rede mas conseguem cortar. Portanto é aqui que está, no fundo, este modelismo de intervenção e de trabalho com cada um deles”, explica a coordenadora do i9 com a Diferença.

A terapeuta ocupacional descreve o caso de um jovem com 26 anos que, na semana passada, ingressou no Centro de Reabilitação e Formação Profissional mas que quando chegou ao i9 nem os cordões dos sapatos sabia apertar. “Um dia chega aqui com os olhos marejados em lágrimas: ‘Terapeuta, hoje fui eu que apertei as minhas sapatilhas. E ele estava feliz”, lembra Patrícia Meireles Graça.

O sentido de responsabilidade, de pertença, de produtividade, ajuste social e a gestão da frustração são outras competências que esta proposta de intervenção inovadora garante trabalhar.

Esta procura de soluções à medida e de um acompanhamento personalizado implica escolhas. A equipa composta por três pessoas a trabalhar a tempo inteiro e uma a tempo parcial assume que não há recursos suficientes para as atividades que se poderiam realizar fora das instalações do i9 com a Diferença.

Patrícia Meireles Graça foi terapeuta ocupacional de crianças e agora, enquanto coordenadora do i9 com a Diferença, desde abril de 2020, trabalha com a população adulta e experiencia uma realidade diferente mas que a desafia tanto a nível pessoal como profissional.

No entanto, devido ao contexto de pandemia, foi a partir de outubro de 2020 que receberam os primeiros clientes. “Todo o projeto é filho da pandemia, sublinha. O i9 para a Diferença foi pensado por um conjunto de profissionais do Centro de Formação Profissional e é o resultado de uma necessidade identificada no contexto desta instituição vimaranense: “A necessidade de dar uma resposta diferenciada e diferenciadora a um conjunto de pessoas que não se enquadram numa resposta tipificada de CACI [Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão] ou lar ou apoio domiciliário ou centro de formação”, resume.

Neste momento têm 33 clientes e um horizonte temporal de trabalho limitado. O objetivo do projeto é chegar aos 40 participantes. “Isto é um projeto financiado que acaba em dezembro de 2022. Mas as famílias sabem que tem princípio, meio e fim e sentem isso como o pior do i9. É aquela nuvem aqui a pairar”, revela. “Temos dois jovens que utilizam cadeiras de rodas elétricas que não pudemos receber ainda”, admite. “Diariamente temos esse constrangimento em relação ao espaço: é pequeno e tem barreiras arquitetónicas. Fizemos a avaliação da satisfação dos clientes e os pontos negativos do i9 com a Diferença foi ‘as instalações podiam ser maiores’ e ‘vai acabar’, analisa.

Os aspetos mais positivos apontados foram a oportunidade de conviver, estar com amigos e socializar. “Muitas pessoas têm necessidades e é como aqui diz “i9 com a Diferença”, começa por dizer António Fernandes apontando para a parede da sala. “Mas muitas pessoas não sabem lidar com a diferença e é uma tristeza minha existirem muitas pessoas sem apoio. Isso é o que me entristece mais e peço ao presidente da câmara, Domingos Bragança, que pense dar umas instalações ao i9 porque bem merece”, refere.

A diversidade de perfis – há pessoas com trissomia 21, paralisia cerebral, autismo, diagnósticos de doença mental, traumatismos cranioencefálicos – é o grande desafio deste projeto, quer do ponto de vista das dificuldades que são necessárias ultrapassar, quer do ponto de vista da riqueza humana e aprendizagem diária que todos e todas fazem.

A frequentar o curso de serralharia no Centro de Reabilitação e Formação Profissional António Fernandes não desiste de defender o i9 com a Diferença e demonstrar o que representou na orientação do respetivo projeto de vida. “Não há dinheiro que pague o que elas fizeram por mim, isto vai-me ficar para toda a vida e os colegas são como meus filhos, os filhos que eu nunca tive. Considero isto uma família”, conclui.

 

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