Guia-intérprete acompanha clientes da Cercigui em visita ao Museu de Alberto Sampaio

PorFórum

Guia-intérprete acompanha clientes da Cercigui em visita ao Museu de Alberto Sampaio

A vimaranense Ana Patrícia Silva é uma das mais recentes guias intérpretes a frequentar o Curso de T-Guide (Tourist Guides for people with intellectual & learning difficulties in Europe), organizado pela Federação Europeia das Associações de Guias Intérpretes e pela Rede Europeia de Turismo Acessível. A guia-intérprete está agora mais habilitada para acompanhar turistas com incapacidades intelectuais em viagens e visitas a locais de interesse turístico.

A 25 de março realizou uma visita ao Museu de Alberto Sampaio com um grupo de clientes da Cercigui para a avaliação final do curso que espera conseguir completar para “de alguma forma contribuir para que se alcance o desejado turismo para todos”.

Fórum Municipal (FM) – Esta entrevista é motivada pelo facto de estar a tirar um curso enquanto guia inclusiva. Pode explicar melhor os contornos deste curso e como é que chegou a ele?

Ana Patrícia Silva (APS) – Foi promovido pelo Sindicato Nacional de Guias intérpretes Nacionais, Correios de Turismo e Motoristas de Turismo (SNATTI), do qual sou sócia. Este curso representa o desfecho final do Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida da União Europeia, “Leonardo Da Vinci” subsidiado pela Comunidade Europeia tendo a FEG como o seu núcleo principal, de forma a desenvolver a formação contínua (CPD – Continuing Professional Development) para guias qualificados. Melhorar as suas competências e ter acesso a um crescente mercado para os guias podendo eficazmente e de forma consciente contactar com este específico tipo de cliente guiando visitas aos mais diversos locais, é o objetivo primordial. Quando soube que se ia realizar uma nova edição deste curso, decidi inscrever-me, pois achei que seria uma mais-valia para a minha formação.

 

FM – Quando é que a sua relação com a área do turismo começou?

APS – Após uma licenciatura inicial em Línguas e Literaturas Modernas, Ramo Educacional, trabalhei alguns anos na área do ensino, mas logo percebi que não me sentia realizada nessa vertente e decidi fazer um novo curso, desta vez de Turismo. Trabalhei algum tempo numa agência de viagens/operador turístico e fiz também uma pós-graduação em Informação Turística Especializada e obtive a carteira profissional de Guia intérprete. Trabalho como guia certificada desde 2007, hoje em dia, como trabalhadora independente.

 

FM – O que veio mudar na maneira de trabalhar ao fazer esta formação?

APS – Desde que trabalho como guia, tive já vários contactos com pessoas com deficiências físicas e intelectuais e sempre achei que o setor do turismo está ainda longe do turismo verdadeiramente inclusivo e que seria importante investir mais nessa questão.  Esta formação é para mim uma forma de melhorar a qualidade dos meus serviços e uma forma de contribuir para esse objetivo global de um turismo acessível e socialmente sustentável para todos. O curso procura ajudar o guia a compreender a importância de preparar minuciosamente a visita, a aprender a trabalhar com os cuidadores, a compreender as dificuldades de aprendizagem, a avaliar e ajustar a performance do guia a um público especial, a desenvolver o uso de uma linguagem simples e compreensível, a lidar com situações complicadas e a trabalhar e melhorar a linguagem corporal.

 

FM – Que balanço faz do impacto desta formação?

APS – Vai permitir-me obter a certificação de T-Guide e poder passar a trabalhar mais com pessoas com dificuldades intelectuais ou de aprendizagem, já que neste momento o SNATTI tem já um departamento focado nesse mercado – o Guias de Portugal 4 All.

 

FM – Como correu a visita do dia 25 de março?

APS – Correu muito bem, excedeu as minhas expectativas. O grupo era bastante interessado, comunicativo e participativo. Penso que foi uma experiência enriquecedora para eles e para mim também.

 

FM – Qual a importância da aposta no turismo acessível e inclusivo, na sua perspetiva?

APS – É muito importante, pois segundo as estatísticas, há um bilião de pessoas que vive com algum tipo de deficiência, sendo que serão 80 milhões na União Europeia e um milhão e 700 mil em Portugal. No Turismo, os vários intervenientes têm de tomar medidas para prestarem serviços cada vez mais inclusivos, seguindo as diretivas do Código Mundial de Ética do Turismo.

 

FM – Como se consegue estimular a sensibilização dos operadores turísticos para esta aposta?

APS – Todos têm de perceber que se trata de uma questão de ética, de responsabilidade social e de respeito pelos direitos das pessoas com deficiência. Todos podemos, em algum momento, ficar com uma deficiência, seja ela temporária ou permanente, e todos merecemos ter acesso a um turismo de qualidade.

 

FM – O que é mais difícil de mudar, na sua opinião?

APS – Penso que o mais difícil de mudar são as barreiras físicas, que prejudicam a acessibilidade a restaurantes, museus, restaurantes, lojas…Temos ainda muitos espaços intervenientes no mundo do Turismo que não estão preparados para receber turistas com deficiências físicas ou dificuldades de mobilidade. Isso implica, muitas vezes, obras ou adaptações estruturais que nem sempre são fáceis de realizar ou nem sempre serão possíveis. A parte da formação, sensibilização é mais fácil, basta haver vontade a nível do sector público e privado.

 

 

 

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