Endless assinala o Dia Mundial da Dança em Guimarães

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Endless assinala o Dia Mundial da Dança em Guimarães

Uma feliz coincidência vai permitir que o culminar do +Inclusão / Fora de Portas, um projeto da companhia de dança Dançando com a Diferença, aconteça no Dia Mundial da Dança, em Guimarães. É a 29 de abril que o espetáculo Endless sobe, às 15h00, ao palco do Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural de Vila Flor.

Mas a estreia de Endless acontece em dose dupla e no sábado, às 19h00, pode também assistir a este espetáculo em que, segunda a descrição oficial, “a dança, a música e o vídeo interagem questionando a condição humana, a vida, a degradação do corpo e a nossa única certeza, a morte”.

Endless aborda o tema do Holocausto. Esta peça é o resultado de um projeto europeu que uniu a Alemanha, a Lituânia, a Estónia, a Polónia e Portugal e desde 2012 integra o repertório de criações da “Dançando com a Diferença”. Este espetáculo da companhia de dança madeirense é feito com as gentes locais, com pessoas com e sem deficiência, num contexto em que “há uma valorização da capacidade de cada uma” e em que todas as pessoas vão dar “o melhor que podem dentro do espetáculo”.

Esta peça já foi reposta em diferentes contextos e países, com adaptações que nunca deixam de fora a realidade local e o momento presente que se vivencia. É por isso a resposta à questão “O que é que este Endless vimaranense tem de diferente dos outros?” é antecipada desde 24 de fevereiro, o dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia: “A maio diferença que existe neste momento é que realmente estamos em guerra. Não é uma guerra em Portugal, ainda, mas é uma guerra na Europa. Ou seja, se antes recorríamos à história e ao que estava mais longe, as pessoas que estão a participar neste momento têm acesso a isso todos os dias nos telejornais”, contextualiza o diretor artístico da Dançando com a Diferença, Henrique Amoedo.

 

Henrique Amoedo considera que este acontecimento atual tem transformado este projeto “em algo mais palpável”, porque está tudo “mais próximo”. “Temos imagens fortíssimas desta guerra a todo o momento. A sensibilidade está à flor da pele e nota-se na maneira de estar, nos comentários, quando abordamos cada questão. A aproximação a esta realidade é inevitável e as pessoas estão mais emotivas”, confessa.

 

Filipa Boído da Costa é professora de educação especial do Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda e considera que os ensaios têm demonstrado que este espetáculo “tem um peso ainda maior” devido à guerra na Ucrânia. “Na sexta-feira tivemos um ensaio com uma parte do espetáculo que seria o pelotão de fuzilamento e isso é muito intenso. E é mais intenso ainda porque estamos a recriar esta situação com uma guerra às portas e isto mexe connosco”, admite.

“Poucos clientes têm alguma noção do Holocausto, do que foi e dos sentimentos que provoca”, começa por acrescentar Ana Rocha da Cercigui. “Mas quando se fala da guerra da Ucrânia já é mais presente”,remata. “Torna-se mais fácil a associação com o que está a acontecer agora”, completa a terapeuta ocupacional da instituição vimaranense, Ofélia Lestre.

Tudo começou no final de setembro do ano passado quando, durante uma semana, o diretor artístico desta companhia de dança madeirense, Henrique Amoedo, esteve em Guimarães para formar professores, monitores e pessoas que trabalhem com alunos com necessidades específicas ou deficiência.

O regresso aconteceu em fevereiro para continuar a preparar a peça Endless com a comunidade vimaranense e começar os ensaios deste espetáculo que pretende juntar em palco diferentes pessoas, com diferentes experiências de vida, num espetáculo cuja envolvência levará o público e os participantes a um momento único e imersivo.

“Os ensaios são sempre um desafio porque levamos uma linguagem nova, uma maneira de trabalhar diferente para dentro das instituições e temos que adaptar à realidade delas, mas ao mesmo tempo que é um desafio, é o que é interessante e correu super bem e houve trocas importantes”, apreciou Henrique Amoedo.

Além do Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda e da Cercigui, para esta produção foram envolvidas outras cinco instituições do concelho – a Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães, o Lar Residencial Alecrim e Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) da Santa Casa da Misericórdia, o Lar Residencial e CAO Paraíso do Centro Social de Brito e os Agrupamentos de Escolas de Abação e João de Meira.

José Gregório Rojas e o Milton Branco são duas das pessoas da equipa do Dançando com a Diferença que acompanharam todo o processo de ensaios nas instituições. Para o espetáculo vêm mais sete bailarinos da Madeira e de Viseu, do Teatro Viriato onde a companhia de dança tem um núcleo, e de Lisboa e Viana do Castelo, por exemplo, outras pessoas que se inscreveram para participar no projeto.

Em palco estarão cerca de 150 bailarinos e para a execução logística desta empreitada são inevitáveis os agradecimentos à cooperativa Oficina pelo apoio na difícil gestão deste projeto da Dançando com a Diferença: “Gerirmos 150 pessoas, pensando quase que individualmente para não deixar as pessoas de fora dá muito trabalho, mas também é essa a riqueza do trabalho, tentar incluir as pessoas e fazer com que elas estejam em cena da melhor forma possível”, avalia Henrique Amoedo.

Ana Rocha considera que as cenas estão muito bem adaptadas à população da Cercigui e que, por isso, a experiência está a ser muito interessante: “É diferente do que temos vindo a fazer, os nossos jovens têm experiência artística mas é um projeto novo. Alguns jovens que temos aqui ainda não tinham feito parte de uma produção tão grande e estão a gostar imenso”, conta.

Os elogios à beleza da peça e aos responsáveis pela produção da mesma estendem-se às dinâmicas criadas entre instituições, dentro e fora do palco: “Tem sido uma experiência muito boa. Temos miúdos da escola que de uma forma espontânea apoiam os colegas com mobilidade reduzida porque entendem que, para que o espetáculo resulte, todos temos que estar unidos e isso é muito bom”, analisa Filipa Boído da Costa. “A essência do projeto é conhecermos outras pessoas e não estarmos colados ao local de onde vimos. Estamos todos juntos a trabalhar para criar um espetáculo e esta dinâmica está agora a ser construída”, conclui a professora de educação especial.

A apresentação de “Endless”, em Guimarães, conta com audiodescrição. Pode consultar mais informações sobre o espetáculo AQUI

 

 

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