Endless, o que é bom não tem fim

PorFórum

Endless, o que é bom não tem fim

Parecia uma festa, assistia-se ao êxtase de quem está eufórico perante o cantor favorito. A música dos Muse “Neutron Star Collision (Love Is Forever)” colocou logo no início do espetáculo mais de 150 pessoas no palco do Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural de Vila Flor. Foi a 29 e a 30 de abril que este espetáculo de dança estreou em Guimarães, para celebrar em grande o Dia Mundial da Dança. Falamos de Endless, uma apresentação desenvolvida pelo +Inclusão Fora de Portas, um projeto da companhia de dança madeirense Dançando com a Diferença.

Mas a música parou e as cenas que retratam o Holocausto começaram a surgir. Tanto os intérpretes – balarinos profissionais, gentes locais, pessoas com e sem deficiência, num contexto em que “há uma valorização da capacidade de cada uma” e em que todas as pessoas vão dar “o melhor que podem dentro do espetáculo” – como as imagens que passavam em vídeo começaram a ilustrar o tema do genocídio do regime Nazi que orienta este espetáculo.

Qualquer tentativa de distanciar os acontecimentos retratados de uma guerra terminada há mais de 80 anos foram em vão. Tudo o que se viu parece presente, embora longe, está cada vez mais perto e entra todos os dias pela casa das pessoas adentro através das televisões. A guerra na Ucrânia foi uma infeliz coincidência que trouxe ao espetáculo mais intensidade porque todas as pessoas que nele participaram estão com as emoções à flor da pele.

“O espetáculo começaria com muitas pessoas deitadas no chão do auditório como se tivessem sido chacinadas, uma cena que se vê nos telejornais todos os dias. Chegamos a testar isso, mas decidimos não levar [a palco] porque achamos que era reforçar uma imagem que já aparece muito e que não era necessário”, começa por enquadrar o diretor artístico da Dançando com a Diferença, Henrique Amoedo.

E esta é talvez a maior virtude de Endless, um espetáculo plástico que se nutre das pessoas que participam nele, da atualidade e se permite reescrever, adaptar para que, desta forma, a inclusão seja a protagonista, mesmo sem aparecer em cena porque é algo que se respira tanto no palco, como nos bastidores.

Esta peça já foi reposta em diferentes contextos e países, com adaptações que nunca deixam de fora a realidade local e o momento presente que se vivencia. O processo é longo e é graças a este prolongamento no tempo que todas estas adaptações nascem e fazem sentido. Em Guimarães começou em setembro do ano passado altura em que, durante uma semana, o diretor artístico desta companhia de dança madeirense formou professores, monitores e pessoas que trabalham com alunos com necessidades específicas ou deficiência.

“Foi importante participarmos para entender melhor este projeto e depois junto dos utentes e familiares explicarmos o sentido e o significado que este espetáculo podia transmitir, para não ferir suscetibilidades e não ser uma novidade para quem participava ou assistia”, refere Cátia Bastos, animadora social no lar residencial e centro de atividades ocupacionais do Alecrim, a resposta social da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães às pessoas com deficiência.

O regresso aconteceu em fevereiro para continuar a preparar a peça Endless com a comunidade vimaranense. Começaram os ensaios com os coreógrafos José Gregório Rojas e o Milton Branco. Estes bailarinos do Dançando com a Diferença percorreram cada entidade envolvida – Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda, Cercigui, a Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães, o Lar Residencial Alecrim e Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) da Santa Casa da Misericórdia, o Lar Residencial e CAO Paraíso do Centro Social de Brito e os Agrupamentos de Escolas de Abação e João de Meira – em dois ensaios semanais individuais. Em abril chegou a hora de começar a ensaiar em grupos maiores na sala de ensaios do CCVF e na semana anterior ao espetáculo finalmente se conseguiu juntar toda a gente em palco.

Henrique Amoedo pôde perceber que “na hora de encaixar todas as peças do puzzle que foram trabalhadas separadamente tudo funcionou”. “Uma das coisas que mais me impressionou era perceber o silêncio nos bastidores. Ter 160 pessoas caladas, quietas nos momentos em que tinham que estar quietas, super atentas ao espetáculo, prontas para reagir, prontas para entrar. Foi uma coisa que me emocionou muito porque eu estava nos bastidores com eles”, lembra o diretor artístico.

“Os Utentes do CAO/Lar Residencial Alecrim vibraram com os dias do espetáculo e só queriam que tudo corresse na perfeição, levaram aquilo mesmo a sério. Foi fantástico”, concordou Cátia Bastos do Alecrim.

Fez-se magia e Henrique Amoedo acredita que todo o elenco comungou dessa sensação: os bailarinos, os intérpretes todos, muito disciplinados e muito conscientes do que tinham que fazer. Estar em palco é sempre muito bom, é sempre mágico. Acho que conseguimos aquele momento mágico do espetáculo e isso reflete-se nos dois espetáculos que foram maravilhosos, com muito público e isso obviamente deixa-nos muito felizes, esta troca com o público e mostrar o que fizemos.

“A sensação de estar em palco é maravilhosa. É um privilégio estar rodeada de pessoas diferentes e ao mesmo tempo tão iguais”. Cátia Bastos

O empenho foi geral, mas também a proximidade e cumplicidade criadas. Foi nos ensaios em grupo que se começaram a criar laços entre todas as pessoas envolvidas. “Foi uma dinâmica interessante e especial pois deu-nos oportunidade de criar novas amizades e a entreajuda foi uma realidade muito positiva nestes ensaios”, admite a animadora social do Alecrim.

Henrique Amoedo diz que esta união criada nada tem a ver com o projeto em si e que subsiste mesmo depois do projeto terminar. “Temos um grupo no Whatsapp que foi criado e a conversa entre todos não pára e é muito bonito perceber-se este contacto que as pessoas mantêm e vão falando do projeto, das suas vidas”, descreve Henrique Amoedo.

“As memórias são as melhores e o que fica é perceber a alegria das pessoas no final deste processo e a grande proximidade entre as pessoas que se mantém até agora. Levamos de Guimarães muita aprendizagem. Acho que deixamos alegria, no fundo”. Henrique Amoedo

Os contactos mantêm-se e o diretor artístico da companhia de dança madeirense diz que também se gerou uma relação muito próxima com a equipa da Oficina a quem tem que agradecer também pelo projeto.

Uma ressalva que Henrique Amoedo faz questão de dar: “Foi o maior elenco, o maior número de pessoas com quem trabalhamos e levamos para cena no mesmo espetáculo”, revela. O diretor artístico diz que isto só foi possível, graças à adesão das instituições, das pessoas da comunidade que se inscreveram, das escolas ao projeto mas também pelas condições do grande auditório do Centro Cultural Vila Flor que tornaram possível ter este número de pessoas.

O público que assistiu ao espetáculo, além de reconhecer o trabalho desenvolvido, também foi tocado pelo espetáculo e não conseguiu conter a emoção que a temática cria e a proximidade existente com as pessoas que estavam em palco e pertencem à comunidade vimaranense. “Do público chega-nos mensagens por email e pelas redes sociais muito tocantes de pais, familiares a dizer o quanto, muitas vezes, é reconfortante e bonito ver o filho, o sobrinho, ver uma pessoa em cena desempenhando um papel dentro do grupo e perceber outras capacidades, perceber a valorização daquela pessoa em cena”.

Cátia Bastos diz que “o feedback do público foi muito mas muito positivo” e a animadora social descreve que os familiares e amigos confessaram ter chorado “por o espetáculo ser forte e tão carregado de cenas infelizmente tão reais e atuais aos nossos olhos”. “Só dizem que adoraram”, remata.

A técnica do Alecrim diz que tanto o público como os intérpretes são uns privilegiados por estarem ligados a este projeto. “Para ser sincera e depois de passar dois dias ainda dou por mim a pensar neste projeto e na importância que ele teve para todos os que participaram. Já tenho saudades”. “Obviamente também temos saudades”, atira Henrique Amoedo. “E a vontade de dar continuidade é de todos e era bom que se arranjasse forma de cumprir isso. O Dançando com a Diferença também tem saudades porque não dá para estar tanto tempo envolvido com as pessoas e achar que estamos a fazer um trabalho que quando acabou, acabou”. O que é bom não nem fim e a magia do Endless é exemplo disso.

Sobre o autor

Fórum administrator

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

Deixar uma resposta