{"id":1112,"date":"2020-01-15T21:46:12","date_gmt":"2020-01-15T21:46:12","guid":{"rendered":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=1112"},"modified":"2020-01-23T11:15:14","modified_gmt":"2020-01-23T11:15:14","slug":"a-vida-por-tras-da-cegueira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=1112","title":{"rendered":"A vida por tr\u00e1s da cegueira"},"content":{"rendered":"<p>Ler, conduzir e ver futebol s\u00e3o as tr\u00eas coisas de que Jo\u00e3o Artur Fernandes, um vimaranense que aos 50 anos ficou cego devido a uma retinite pigmentosa, mais sente falta. A perda de vis\u00e3o progressiva que esta doen\u00e7a degenerativa provoca n\u00e3o amenizou o choque que sentiu ao ficar completamente cego. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de 10 anos, altura em que descobriu na poesia e na m\u00fasica ref\u00fagios para conseguir libertar-se da m\u00e1goa que sentia e que ainda sente. Mas esta \u00e9 sobretudo uma hist\u00f3ria de amor, de um amor \u00e0 vida e a uma vida inteira partilhada a dois.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Dizem que por tr\u00e1s de um grande homem h\u00e1 sempre uma grande mulher e o F\u00f3rum Municipal das Pessoas com Defici\u00eancia de Guimar\u00e3es esteve \u00e0 conversa com um casal que \u00e9 exemplo disso. Jo\u00e3o Artur Fernandes tem, n\u00e3o por tr\u00e1s, mas ao lado Fernanda Lima. Quem os conhece habituou-se a v\u00ea-los sempre juntos, uma cumplicidade que quatro anos de namoro e 41 de casados t\u00eam vindo a alimentar. \u00c9 uma vida inteira partilhada de quem vai buscar aos votos de casamento as for\u00e7as que precisa para juntos, sempre juntos, ultrapassarem as dificuldades do dia-a-dia.<\/p>\n<p>A 11 de janeiro de 2020 Jo\u00e3o Artur Fernandes e Fernanda Lima fizeram um rewind, que \u00e9 como quem diz, andaram para tr\u00e1s, e contaram desde o in\u00edcio esta hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>Fernanda Lima \u00e9 natural de At\u00e3es e Jo\u00e3o Artur Fernandes de S\u00e3o Torcato e conheceram-se h\u00e1 45 anos. \u201cEu conheci esta pe\u00e7a importante numa vindima do primo que morava ao lado da casa onde ela morava. E ela ia para l\u00e1 carregar cestos de uvas \u00e0 cabe\u00e7a e foi a\u00ed que eu a conheci\u201d, come\u00e7a por contar Jo\u00e3o Artur Fernandes que diz ter sido amor \u00e0 primeira vista. \u201cA partir da\u00ed nunca mais desgrud\u00e1mos\u201d, atira.<\/p>\n<p>Conheceram-se, curiosamente, quando o jovem se esfor\u00e7ava por n\u00e3o fazer fraca figura junto dos primos que tinham \u201cuma rotina de vida que lhes dava uma certa energia, eram mais musculados\u201d e, por isso, \u201cpegavam nos cestos e punham na cabe\u00e7a\u201d, sem grandes dificuldades. \u201cEu era franzino, apesar de medir 1,74 s\u00f3 pesava 55 quilos e armei-me em gringo para fazer igual a eles. Mas tamb\u00e9m reguila, n\u00e3o deixei encher bem o cesto que era para poder com ele e para fazer-me forte. Umas artimanhas que se usa \u00e0s vezes\u201d, lembra Jo\u00e3o Artur Fernandes.<\/p>\n<p>Tinha, na altura, 18 anos e a jovem Fernanda 15 quando se conheceram. Depois de um namoro de quatro anos casaram e viveram 17 anos em Ald\u00e3o. \u201cMas eu tive sempre a ideia e o desejo de voltar para a minha terra\u201d, admite Jo\u00e3o Artur Fernandes.<\/p>\n<p>O problema de vis\u00e3o sempre existiu, mas nunca imaginou que estivesse em causa a perda completa da vis\u00e3o. \u201cSegundo a teoria dos oftalmologistas \u00e9 um problema heredit\u00e1rio, s\u00f3 que \u00e9 progressivo. J\u00e1 vinha com a doen\u00e7a e aos poucos fui perdendo a vis\u00e3o\u201d, sintetiza. Foi a muitos m\u00e9dicos \u00e0 procura de um sopro de esperan\u00e7a mas a resposta era sempre a mesma: mais cedo ou mais tarde ia ficar cego. \u201cComo \u00e9 que vivia com isto? Nunca me adaptei muito bem. Eu procurei oftalmologista atr\u00e1s de oftalmologista e n\u00e3o me importava de gastar dinheiro, mas a resposta era sempre a mesma. De cada consulta eu sa\u00eda com a sensa\u00e7\u00e3o de estrangulamento. Mas nunca me conformei com isto. Procuro viver, mas a m\u00e1goa est\u00e1 c\u00e1 dentro\u201d, admite Jo\u00e3o Artur Fernandes.<\/p>\n<p>No papel de esposa Fernanda Lima vivenciava a ang\u00fastia de assistir impotente ao desgosto que o marido sentia e partilhava o sofrimento que isso representava na vida de ambos. \u201cN\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil. Tive que me adaptar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e tentar dar-lhe o m\u00e1ximo de apoio. Pensava muitas vezes: \u2018se fosse eu gostava que me ajudasse\u2019. Ent\u00e3o tentei fazer tudo para ele se sentir bem\u201d, refere. \u201cResumindo e concluindo, esteve sempre do meu lado sem condi\u00e7\u00f5es. De certeza que n\u00e3o foi f\u00e1cil para ela e para mim muito menos\u201d, garante Jo\u00e3o Artur Fernandes.<\/p>\n<p>\u201cConduzir, ler e ver, principalmente, futebol na televis\u00e3o\u201d, s\u00e3o as tr\u00eas coisas de que sente mais falta. Fernanda era telefonista numa empresa de pl\u00e1sticos e Jo\u00e3o Artur trabalhou a vida toda na empresa t\u00eaxtil Herculano &amp; Pimenta. \u201cPor volta dos 40 anos reformei-me mas n\u00e3o deixei de trabalhar. Enquanto a vis\u00e3o deu, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima, eu trabalhei\u201d. Gostava do que fazia e, em casa, continuou a cortar cal\u00e7as. \u201cSe precisava de moldes era eu que os fazia, alagava umas cal\u00e7as, descosia-as todas e fazia os moldes. E tenho saudades disso\u201d, confessa. \u201cAt\u00e9 cortar um dedo\u201d, revela a esposa. \u201cE a\u00ed decidi parar\u201d, acrescenta o marido.<\/p>\n<p>A \u00faltima consulta da especialidade a que Jo\u00e3o Artur Fernandes foi deixou-o \u201cde rastos\u201d. \u201cSa\u00edmos de l\u00e1 os dois a chorar\u201d, confirma a esposa. \u201cPodia amenizar a coisa, mas foi radical, frio, disse \u2018esque\u00e7a\u2019 e al\u00e9m disso levou-me o dinheiro que me fazia falta\u201d, lamenta. \u201cDez minutos\u201d, diz Fernanda. \u201c100 euros\u201d, completa Jo\u00e3o Artur.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis frequentar aulas de orienta\u00e7\u00e3o e mobilidade, nem aprender como utilizar uma bengala ou fazer-se acompanhar de um c\u00e3o-guia. \u201cNa rua ando sempre acompanhado seja pela esposa, um familiar ou um amigo. Em casa ando sozinho\u201d, descreve. \u201cEle \u00e9 muito despachadinho, mas de vez em quando ainda d\u00e1 umas cabe\u00e7aditas\u201d, comenta a esposa. \u201cMas isso \u00e9 quando facilito, \u00e0s vezes encontro uma barreira\u201d, desculpa-se o marido.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que aceita, neste processo de adapta\u00e7\u00e3o, \u00e9 o acompanhamento psicol\u00f3gico. Conseguir partilhar o que sente \u00e9 muito importante, mesmo o contacto com pessoas que passaram pelo mesmo tem muito impacto, mas, mesmo a psic\u00f3loga o assume, a escrita teve um efeito cat\u00e1rtico na vida de Jo\u00e3o Artur Fernandes. \u201cEu quis libertar o que ia dentro de mim e ajudou-me a acalmar porque eu fui obrigado a reaprender a viver. Se eu tivesse nascido cego s\u00f3 conhecia aquele mundo, mas depois de ver tudo a revolta ainda \u00e9 maior\u201d, declara. Passar para o papel tudo o que sente foi melhor do que \u201cficar fechado em casa a chorar pelos cantos\u201d, admite.<\/p>\n<p>A veia de escritor descobriu-a por acaso para participar numa noite de poesia organizada pela Associa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (<em>ADCL<\/em>). \u201cFiquei a matutar naquilo, fui para a cama e por causa de uma a ins\u00f3nia de manh\u00e3 tinha um poema feito na cabe\u00e7a. \u201cEspet\u00e1culo\u201d, adjetiva a esposa entusiasmada. \u201cNa noite do evento at\u00e9 a minha cara aqueceu porque fui para o palco e comecei a desenrolar, cheguei ao fim e quando ouvi os aplausos e as pessoas a dizerem \u2018bravo, bravo\u2019. Eu pensei: \u2018Isto \u00e9 para mim?\u2019. E afinal era. Eu senti-me pequenino. A partir da\u00ed comecei a ganhar gosto\u201d, explica.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Artur Fernandes memoriza o poema, quadra a quadra, vai falando para o gravador digital e ouve. \u201cMudo uma frase, mudo uma palavra e o que n\u00e3o me agrada volto a gravar\u201d. \u00c9 assim que se desenvolve o processo criativo deste poeta vimaranense. Porque embora n\u00e3o tenha perdido a capacidade de escrever n\u00e3o se consegue orientar numa folha de papel e o Braille n\u00e3o lhe faz sentido aprender.<\/p>\n<p>A Cristina [da ADCL] foi passando ao computador, um, dois, tr\u00eas, quatro\u2026 Quando dei por mim j\u00e1 l\u00e1 tinha 109 poemas\u201d, contou. Foi assim que nasceu o primeiro livro \u201cL\u00e1grimas, Revolta, Amor e Fantasia\u201d, lan\u00e7ado em mar\u00e7o de 2017. \u201cDecidi fazer 300 exemplares e num m\u00eas e meio fiquei sem livros\u201d, lembra. \u201cTamb\u00e9m tinha uma boa vendedora ao lado dele\u201d, brinca Fernanda Lima. \u201cO livro tem esse t\u00edtulo \u2018L\u00e1grimas\u2019 porque eu chorei muito, \u2018Revolta\u2019 por ter que ficar de bra\u00e7os cruzados \u00e0 espera que as coisas aconte\u00e7am sem poder fazer nada. Depois o \u2018Amor\u2019 que eu senti por parte da minha esposa que estava ali para tudo. E a \u2018Fantasia\u2019 de poemas que surgiram como a outra pessoa qualquer\u201d, explica.<\/p>\n<p>O ano passado lan\u00e7ou o segundo livro intitulado \u201cAvan\u00e7os e Recuos e\u2026\u201d. \u201cContinuo a fazer poemas quando a mente funciona, mas a coisa tem andado fraquita. Ainda me vejo muito a explorar a revolta, mas eu n\u00e3o queria ser repetitivo. Estou a tentar chegar ao terceiro\u201d, revela.<\/p>\n<p>Outro dos dotes de Jo\u00e3o Artur Fernandes \u00e9 tocar viola. \u201cS\u00f3 depois de j\u00e1 n\u00e3o ver \u00e9 que fui aprender, o b\u00e1sico, n\u00e3o tenho aquele arcaboi\u00e7o de um m\u00fasico\u201d. Mas isso n\u00e3o o impede de compor algumas can\u00e7\u00f5es. Sempre teve o \u201cbichinho\u201d de um dia aprender a tocar algum instrumento musical. \u201cEu gostava de tocar piano, mas n\u00e3o deu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEle est\u00e1 inserido no projeto \u2018Ent\u00e3o vamos\u2019 e tamb\u00e9m faz umas m\u00fasicas para ele\u201d, revela a esposa. Refere-se a um projeto desenvolvido pela <em>ADCL<\/em> que nasceu no \u00e2mbito do Or\u00e7amento Participativo da C\u00e2mara Municipal de Guimar\u00e3es \u201ch\u00e1 cinco ou seis anos\u201d para ajudar a \u201camenizar a solid\u00e3o das pessoas com mais de 65 anos que vivem s\u00f3s\u201d e as que querem participar ou assistir ao espet\u00e1culo que resulta dos encontros mensais realizados. \u201c\u00c9 teatro, \u00e0s vezes mete uma can\u00e7\u00e3o ou outra e eu componho a melodia ou utilizo as m\u00fasicas existentes para encaixar a letra\u201d, explica Jo\u00e3o Artur Fernandes.<\/p>\n<p>Diz que a camaradagem no \u00e2mbito deste projeto \u00e9 muito boa. \u201cEu n\u00e3o tenho raz\u00e3o de queixa, est\u00e3o todos atentos a ver se eu dou um passo em falso e preocupados para eu n\u00e3o cair\u201d, exemplifica. Os elogios \u00e0 mem\u00f3ria s\u00e3o constantes, mas a verdade \u00e9 que por tr\u00e1s da capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u201cmuito trabalho de casa\u201d. Em casa ela [Fernanda Fernandes] diz-me o que est\u00e1 no papel e eu gravo com a minha voz e ao faz\u00ea-lo j\u00e1 estou a memorizar e depois oi\u00e7o aquilo vezes sem conta. \u00c9 treino, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mem\u00f3ria\u201d, explica. \u201cE o papel dele \u00e9 sempre muito grande. \u00c0s vezes fico uma tarde de domingo a ler-lhe aquilo tudo para ele meter no gravador\u201d, comenta a esposa.<\/p>\n<p>No dia-a-dia divide o tempo dedicado \u00e0 escrita, \u00e0 viola ou ao teclado e ao projeto da ADCL com os passeios que faz juntamente com a esposa. \u201cEncontramos sempre amigos, duas de treta e o tempo vai-se passando\u201d, acrescenta Fernanda Lima que diz dedicar o restante tempo livre \u201c\u00e0 lida da casa\u201d. \u201cGosto de ter as coisas direitinhas e se saio sei que elas n\u00e3o est\u00e3o direitas. Como ele tamb\u00e9m me ocupa tempo quando tenho que sair com ele, tenho que ter tudo sempre em ordem\u201d, revela.<\/p>\n<p>O escritor torcatense faz parte de um grupo chamado \u201cPoetas de Selho\u201d, que re\u00fane, uma vez por m\u00eas, cerca de 14 pessoas para declamar poesia, \u00e0s vezes originais, outras vezes de outros autores. \u201cFa\u00e7o uma vida que, de certa forma, me ajuda a relaxar um bocadinho, embora nos momentos mais solit\u00e1rios vem\u2026\u201d, hesita. \u201cVem a revolta\u201d, completa a esposa. \u201cPassar de um mundo para o outro \u00e9 dif\u00edcil\u201d, remata Jo\u00e3o Artur Fernandes. \u201cN\u00e3o poder fazer nada, isso custou\u201d, confessa. A esperan\u00e7a de encontrar uma inova\u00e7\u00e3o na medicina que o consiga ajudar est\u00e1 adormecida, mas n\u00e3o morreu: \u201cEu gostava que surgisse alguma coisa que desse pelo menos para poder caminhar e andar sozinho\u201d, termina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ler, conduzir e ver futebol s\u00e3o as tr\u00eas coisas de que Jo\u00e3o Artur Fernandes, um vimaranense que aos 50 anos ficou cego devido a uma retinite pigmentosa, mais sente falta. A perda de vis\u00e3o progressiva que esta doen\u00e7a degenerativa provoca n\u00e3o amenizou o choque que sentiu ao ficar completamente cego. 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