{"id":2070,"date":"2021-12-15T16:36:46","date_gmt":"2021-12-15T16:36:46","guid":{"rendered":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2070"},"modified":"2021-12-19T11:21:20","modified_gmt":"2021-12-19T11:21:20","slug":"ana-araujo-sobre-a-alimentacao-na-paralisia-cerebral-o-maior-reconhecimento-da-importancia-da-nutricao-e-o-facto-de-procurarem-o-servico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2070","title":{"rendered":"Ana Ara\u00fajo sobre a alimenta\u00e7\u00e3o na paralisia cerebral: &#8220;o maior reconhecimento da import\u00e2ncia da nutri\u00e7\u00e3o \u00e9 o facto de procurarem o servi\u00e7o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ana Ara\u00fajo \u00e9 nutricionista da Associa\u00e7\u00e3o de Paralisia Cerebral de Guimar\u00e3es h\u00e1 12 anos. Esta institui\u00e7\u00e3o vimaranense \u00e9 das poucas no pa\u00eds que apostam na nutri\u00e7\u00e3o enquanto ferramenta para aumentar o bem estar e a qualidade de vida dos respetivos clientes. Em conversa com o F\u00f3rum Municipal das Pessoas com Defici\u00eancia a t\u00e9cnica em nutri\u00e7\u00e3o explicou quais as quest\u00f5es alimentares mais importantes e os benef\u00edcios a considerar na abordagem nutricional \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de paralisia cerebral.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum Municipal (FM) \u2013 Qual era a realidade desta \u00e1rea da nutri\u00e7\u00e3o em 2009?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Ara\u00fajo (AA) \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o havia aqui nutricionista e no pa\u00eds havia uma colega que trabalhava com pessoas com paralisia cerebral. E esse foi o maior desafio. Eu n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o nenhuma nesta \u00e1rea, tinha a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de qualquer nutricionista, at\u00e9 muito espec\u00edfica para v\u00e1rias \u00e1reas, mas nunca tinha abordado nem a paralisia cerebral, nem o impacto ou a necessidade da nutri\u00e7\u00e3o na paralisia cerebral. Recebi o convite para vir c\u00e1 terminar o est\u00e1gio curricular e deparei-me com uma realidade que n\u00e3o fazia sequer ideia que existia. Muito menos sabia em que \u00e9 que o nutricionista podia ajudar. Na altura fiz uma pesquisa para saber quem \u00e9 que trabalhava na \u00e1rea. Encontrei uma colega no Porto que era a \u00fanica que trabalhava com paralisia cerebral e entrei em contacto com ela e sem a conhecer de lado nenhum: \u201cOlhe deixe-me passar a\u00ed dois tr\u00eas dias consigo para perceber com que linhas me coso\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Esse apoio foi importante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Basicamente o que ela me fez foi quase como um guia de procura de informa\u00e7\u00e3o, forneceu-me as linhas b\u00e1sicas da interven\u00e7\u00e3o e os autores que escreviam sobre o tema e a seguir foi muito auto-estudo, auto-pesquisa e forma\u00e7\u00e3o. Ao fim de pouco tempo j\u00e1 estava a fazer o primeiro e-book \u2013 com o apoio da, na altura, Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Nutricionistas agora Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Nutri\u00e7\u00e3o \u2013que apresentava algumas receitas mais tradicionais na consist\u00eancia pastosa. Passado outro ano t\u00ednhamos outro e-book lan\u00e7ado com a mesma tem\u00e1tica, a\u00ed j\u00e1 em colabora\u00e7\u00e3o com a Dr\u00aa Ant\u00f3nia (colega da APPC do Porto).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Com estes e-books estavam no fundo a criar bases para outros colegas que se debru\u00e7assem nesta \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0O meu objetivo maior era ampliar o conhecimento na \u00e1rea para os pais e interesse na \u00e1rea para os colegas de profiss\u00e3o, isto porque existem in\u00fameras APPCs que n\u00e3o estavam a usufruir deste apoio e que, sem d\u00favida, representaria uma mais valia. Fui diversas vezes convidada a lecionar uma aula na cadeira de Restaura\u00e7\u00e3o Coletiva e Gest\u00e3o na Faculdade de Ci\u00eancias da Nutri\u00e7\u00e3o e Alimenta\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto e aproveitava sempre para falar um bocadinho da import\u00e2ncia do nutricionista nesta popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o espec\u00edfica. Com a equipa t\u00e9cnica do Lar residencial, dinamizamos uma forma\u00e7\u00e3o sobre alimenta\u00e7\u00e3o na consist\u00eancia pastosa. Ao longo destes anos fui participando em diversas forma\u00e7\u00f5es e, penso que, conseguimos sensibilizar muito, n\u00e3o s\u00f3 os nutricionistas, mas tamb\u00e9m profissionais de outras \u00e1reas para o que pode ser potenciado\/ melhorado com a presen\u00e7a de um nutricionista na equipa e o apoio da nutri\u00e7\u00e3o. Em resumo o prato pastoso n\u00e3o tem que ser uma sopa passada com comida passada, onde \u00e9 imposs\u00edvel perceber o sabor individual dos alimentos e com mau aspeto, pode sim ser um prato igualmente apelativo e saboroso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 O que \u00e9 que mudou nestes 12 anos de experi\u00eancia enquanto nutricionista na Associa\u00e7\u00e3o de Paralisia Cerebral de Guimar\u00e3es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Existem, atualmente, mais colegas a trabalhar na \u00e1rea da nutri\u00e7\u00e3o em pessoas com paralisia cerebral e muitos deles passaram por aqui. Portanto, da mesma maneira que a colega do Porto me fez a mim, tive muitos colegas que me disseram \u201cPosso ir a\u00ed passaram um dia?\u201d \u00a0Neste per\u00edodo de interven\u00e7\u00e3o, penso que tamb\u00e9m mudou a consci\u00eancia dos profissionais, que agora conseguem olhar para o nutricionista como algu\u00e9m que pode ajudar em todo o processo. Em equipa, podemos potenciar os ganhos fornecendo o combust\u00edvel essencial e dessa forma, conseguirem-se mais ganhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 A alimenta\u00e7\u00e3o, de uma forma geral, \u00e9 importante para qualquer pessoa\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0E aqui com um objetivo diferente: prevenir deformidades, potenciar aquisi\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Ent\u00e3o em termos de import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o, especificamente, na \u00e1rea da paralisia cerebral h\u00e1 ganhos acrescidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Primeiro porque n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 quadro em paralisia cerebral. Dependendo do grau, do tipo, do local da les\u00e3o, n\u00f3s vamos ter imensos quadros e de acordo com o quadro n\u00f3s vamos ter necessidades diferentes. E ent\u00e3o o nutricionista acaba por ser parte de uma equipa de maestros a considerar o quadro motor, as patologias que adv\u00eam como a obstipa\u00e7\u00e3o, o refluxo, entre outros, sem esquecer de considerar o tempo que o cuidador disp\u00f5e para alimentar, o tempo que a crian\u00e7a demora para se alimentar, o ajuste que a alimenta\u00e7\u00e3o tem que sofrer para estar numa consist\u00eancia segura. Por isso \u00e9 fundamental integrar uma equipa, em que, por exemplo, o(a) fisioterapeuta nos fala do quadro motor e muscular, o (a) terapeuta da fala na consist\u00eancia segura, o (a) terapeuta ocupacional na sensibilidade ao toque e a est\u00edmulos, os (as) psic\u00f3logo (a) e assistente social percebem todo o enquadramento familiar e depois de obter todos os dados fornecer uma ajuda que v\u00e3o muito mais de encontro \u00e0s reais necessidades de cada crian\u00e7a\/ fam\u00edlia. Como em qualquer outra patologia tem que se gerar um plano que seja ajustado \u00e0 vida e \u00e0s necessidades da pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ingest\u00e3o energ\u00e9tica e nutricional o que \u00e9 preciso considerar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Temos muitos fatores a serem considerados. Por exemplo, se temos volume pequenino, tem que se arranjar uma forma de conseguir concentrar a energia e os nutrientes que a crian\u00e7a precisa nesse volume e forma a que a m\u00e3e\/cuidador consiga administrar. N\u00e3o esquecendo se a mesma vai necessitar de transportar, se vai endurecer e o que pode usar para a liquidificar. A arte n\u00e3o \u00e9 fazer a conta e fazer o plano, a arte \u00e9 tornar aquilo faz\u00edvel e comest\u00edvel. Um come totalmente inteiro, outro tem que ser triturado, outro precisa de fazer uma sonda, outro reage a sabores mais intensos outro rejeita tudo o que entra na boca, o segredo \u00e9 organizar todas as informa\u00e7\u00f5es e tornar a alimenta\u00e7\u00e3o uma coisa que se consiga fazer em casa ou fora dela de acordo com os h\u00e1bitos daquela fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Em termos pr\u00e1ticos, o trabalho na APCG n\u00e3o passa apenas por tratar da nutri\u00e7\u00e3o dos clientes que c\u00e1 vivem no lar residencial e os que passam o dia no Centro de Atividades e Capacita\u00e7\u00e3o para a Inclus\u00e3o (CACI)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Plane\u00e1mos a alimenta\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dos que c\u00e1 vivem, de segunda a segunda: que ela deve contemplar, n\u00e3o s\u00f3 aquilo que s\u00e3o as necessidades espec\u00edficas tendo em conta a patologia, mas tamb\u00e9m se vai a casa, n\u00e3o vai a casa, dias festivos, dias de anivers\u00e1rio, o prato preferido, entre outros aspetos. Temos que pensar no conceito \u201ccasa\u201d, cada vez mais e sobretudo neste per\u00edodo em que as idas a casa est\u00e3o mais condicionadas. No centro de reabilita\u00e7\u00e3o faz-se a consulta e \u00e9 facultada a informa\u00e7\u00e3o ajustada aquilo que o pai e a m\u00e3e precisam. Se \u00e9 uma ajuda nos lanches, se \u00e9 uma ajuda em receitas porque n\u00e3o sabem ajustar a alimenta\u00e7\u00e3o tradicional da fam\u00edlia \u00e0 consist\u00eancia. Portanto \u00e9 responder um bocadinho \u00e0quilo que s\u00e3o as necessidades. No CACI \u00e9 um bocadinho tamb\u00e9m ir controlando em termos de peso e de altura e ir ajustando a alimenta\u00e7\u00e3o que vai para l\u00e1. Basicamente \u00e9 um trabalho de retaguarda nestas tr\u00eas frentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Os pais t\u00eam consci\u00eancia da import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o e do trabalho da nutricionista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Muito poucos. Se falarmos dos que j\u00e1 s\u00e3o seguidos sim, j\u00e1 t\u00eam consci\u00eancia que \u00e9 importante aquilo que o nutricionista vai dizer e que o objetivo \u00e9 sempre ajudar. \u00c1 12 anos atr\u00e1s eram muitos aqueles que n\u00e3o sabiam o que nutricionista fazia e para o que \u00e9 que ele servia. Era s\u00f3 mais uma consulta. O importante \u00e9 mesmo que a equipa perceba aquilo que tu podes trazer de mais-valia enquanto nutricionista para o bem-estar e para a qualidade de vida da crian\u00e7a e passarem esta informa\u00e7\u00e3o aos pais. Porque os pais quando v\u00eam t\u00eam objetivos muito claros: \u201ceu quero que meu filho ande\u201d, \u201ceu quero que meu filho fale\u201d. Portanto, na sua \u00f3tica, a import\u00e2ncia deste apoio \u00e9 nula exceto se a crian\u00e7a tiver, claramente, um problema de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Mas a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante na retaguarda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Exatamente. Ent\u00e3o aqui o papel dos meus colegas \u00e9 mesmo esse, dizer assim \u201cele at\u00e9 tem capacidade para andar mas vai ser ajudado se tiver o combust\u00edvel adequado para o fazer\u201d. Sinto ainda muita desinforma\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel da paralisia cerebral. O nutricionista \u00e9 um profissional ainda muito associado \u00e0 perda de peso, o que \u00e9 uma vis\u00e3o redutora tendo em conta a amplitude da sua interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Em rela\u00e7\u00e3o aos problemas que podem existir na paralisia cerebral que obrigam a estes cuidados: quais s\u00e3o as condicionantes mais espec\u00edficas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Depende de muitos fatores, por exemplo, uma altera\u00e7\u00e3o no normal funcionamento muscular, considerando o nosso corpo \u00e9 revestido por m\u00fasculos, pode conduzir a uma altera\u00e7\u00e3o nos movimentos perist\u00e1lticos e como consequ\u00eancia apresentar digest\u00f5es mais demoradas, ou uma altera\u00e7\u00e3o no encerramento do esf\u00edncter esof\u00e1gico inferior e, portanto, existir uma predisposi\u00e7\u00e3o para refluxo gastroesof\u00e1gico. Uma das situa\u00e7\u00f5es mais frequentes e ainda no decorrer das altera\u00e7\u00f5es nos movimentos perist\u00e1lticos, \u00e9 no funcionamento do intestino e tem-se muita obstipa\u00e7\u00e3o associada. Assim como altera\u00e7\u00f5es ao padr\u00e3o normal de degluti\u00e7\u00e3o que podem conduzir a disfagia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Em situa\u00e7\u00f5es mais graves pode existir a necessidade de recorrer \u00e0 sonda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0As recusas alimentares severas motivam a coloca\u00e7\u00e3o da [sonda] PEG [Gastrostomia Percut\u00e2nea Endosc\u00f3pica] porque estamos a falar de baixo peso quase sempre ou com a aus\u00eancia na seguran\u00e7a da alimenta\u00e7\u00e3o. Uma crian\u00e7a que fa\u00e7a internamentos recorrentes por aspira\u00e7\u00e3o de alimentos ou que fa\u00e7a microaspira\u00e7\u00f5es que a terapeuta da fala se aperceba ou suspeite ao fazer a ausculta\u00e7\u00e3o cervical, \u00e9 motivo para encaminhamento. Por norma \u00e9\u00a0 \u00a0pedido um exame de confirma\u00e7\u00e3o e \u00e9 em equipa m\u00e9dica decidida a coloca\u00e7\u00e3o da PEG porque est\u00e1 em risco a vida da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Estamos a falar de consequ\u00eancias graves, mesmo fatais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Podem ser fatais. Estamos a falar de um foco infeccioso num local que \u00e9 fundamental para a sobrevida que \u00e9 o pulm\u00e3o. Aquele foco infeccioso que vai aumentar com o conte\u00fado bacteriano, n\u00e3o s\u00f3 deteriora o seu estado de sa\u00fade como aumenta os gastos energ\u00e9ticos da crian\u00e7a, portanto, sim pode ser fatal. E a coloca\u00e7\u00e3o da PEG n\u00e3o \u00e9, necessariamente, uma senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Mas os pais, muitas vezes, reagem mal, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Mas isso tamb\u00e9m tem que ser trabalhado. A alimenta\u00e7\u00e3o por via ent\u00e9rica, por exemplo com a coloca\u00e7\u00e3o da PEG, n\u00e3o \u00e9 uma senten\u00e7a, pode n\u00e3o ser definitiva e pode n\u00e3o ser exclusiva. Ou seja, quando a sua coloca\u00e7\u00e3o se prende com um aporte energ\u00e9tico\/nutricional insuficiente e n\u00e3o h\u00e1 risco de aspira\u00e7\u00e3o pulmonar a crian\u00e7a pode continuar a fazer pequenos volumes pela boca. Ou seja, conseguimos fazer parte da alimenta\u00e7\u00e3o pela boca e terminar o volume previsto para a crian\u00e7a pela PEG. Assim conseguimos que ela tenha um bom estado de sa\u00fade porque asseguramos que consumiu o que era preciso. N\u00e3o fica aborrecida, n\u00e3o fica chateada, n\u00e3o puxa o v\u00f3mito e n\u00e3o traz para os pais aquela preocupa\u00e7\u00e3o adicional de que n\u00e3o comeu o que precisava. Pode ser um aux\u00edlio para in\u00fameros fatores. Uma crian\u00e7a que faz \u00falceras de press\u00e3o recorrentemente porque est\u00e1 malnutrida e n\u00e3o \u00e9 porque o pai n\u00e3o tenha disponibilidade para a alimentar mas sim porque a crian\u00e7a n\u00e3o consome o que necessita, poder\u00e1 ser \u201crealimentada\u201d por via ent\u00e9rica, pela sonda. Quando a via oral n\u00e3o \u00e9 segura, a alimenta\u00e7\u00e3o passa a ser apenas pela via ent\u00e9rica, mas \u00e0 partida o n\u00famero de internamentos diminu\u00ed e as complica\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias podem reduzir, o que para os cuidadores ser\u00e1 um cen\u00e1rio muito mais favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Dando exemplos concretos: o que est\u00e1 em causa\u00a0nestas adapta\u00e7\u00f5es da alimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Uma das bases da alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 assegurar uma hidrata\u00e7\u00e3o suficiente. Assim sendo um dos primeiros passos \u00e9 perceber se conseguem ou n\u00e3o ingerir a \u00e1gua da forma que n\u00f3s habitualmente conhecemos a \u00e1gua e se n\u00e3o, sugerir produtos que possam alterar a sua consist\u00eancia e permitam assegurar uma boa hidrata\u00e7\u00e3o. Em grande parte dos casos s\u00f3 isso \u00e9 suficiente para, por exemplo, melhorar a obstipa\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o adianta aumentar a quantidade de fibra que se oferece, se n\u00e3o dermos, em simult\u00e2neo, a quantidade de \u00e1gua individual necess\u00e1ria. Ainda como forma de melhorar o funcionamento intestinal, n\u00e3o tendo sido, esse ajuste, suficiente, aumentamos a fibra. Portanto, vamos usar frutas que tenham um efeito mais ben\u00e9fico e que t\u00eam um teor maior de fibra, por exemplo, o laranja e inclu\u00ed-la na nossa ementa semanal. Vamos alternar cereais com maior teor de fibra e outros com menor para criar um equil\u00edbrio. Podemos ainda dosear a quantidade de legumes da sopa, para que seja poss\u00edvel alternar sabores diferentes e garantir, tamb\u00e9m que n\u00e3o se excede o teor de fibra necess\u00e1rio por dia. O que me apercebo em consulta \u00e9 que a preocupa\u00e7\u00e3o dos cuidadores leva a que coloquem cerca de 50 legumes diferentes numa sopa para potenciar os benef\u00edcios. A recomenda\u00e7\u00e3o passa por colocar uma m\u00e9dia de cinco seis legumes por sopa, aproveitar nos legumes mais folhoso os caules, incluir algumas sementes e frutos oleaginosos (nozes, avel\u00e3s) inteiros ou na forma de farinhas no dia alimentar e trocar o p\u00e3o branco por um p\u00e3o com mais interesse nutricional, como o centeio ou mistura. Verdades estas que se aplicam a toda a popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 nesta popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 \u00c9 importante o nosso intestino estar bem\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0At\u00e9 porque n\u00f3s sabemos, hoje em dia, que o intestino \u00e9 quase um segundo c\u00e9rebro, grande parte das nossas defesas est\u00e3o aqui alojadas e a flora intestinal \u00e9 respons\u00e1vel pela forma mais ou menos eficaz com que aproveitamos os alimentos. Quando o seu funcionamento \u00e9 comprometido, numa obstipa\u00e7\u00e3o, as fezes ficam retidas muito tempo no seu interior, podendo alterar a constitui\u00e7\u00e3o da flora que a\u00ed habita. Tamb\u00e9m a toma de antibi\u00f3ticos pode afetar a constitui\u00e7\u00e3o desta equipa de defesa e afetar as suas fun\u00e7\u00f5es. \u00a0Por isso interessa muito que esta parte do corpo esteja o mais saud\u00e1vel poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 J\u00e1 falamos um bocadinho do baixo peso, como \u00e9 que se lida com o excesso de peso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0Que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o frequente nesta popula\u00e7\u00e3o e que se associam sobretudo a casos de hipotonia muscular. Nesta popula\u00e7\u00e3o a sobrecarga ponderal \u00e9 trabalhada de duas formas essencialmente. Num individuo aut\u00f3nomo, a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com objetivo de aumentar os seus conhecimentos e dos pais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e escolhas alimentares, num indiv\u00edduo n\u00e3o aut\u00f3nomo este ensino \u00e9 mais orientado para o aumento de conhecimentos dos pais. N\u00e3o s\u00f3 falar de alimenta\u00e7\u00e3o, como dar estrat\u00e9gias, adapt\u00e1-las \u00e0 sua realidade, mas tamb\u00e9m alertar para as consequ\u00eancias como o risco aumentado para Diabetes, Hipertens\u00e3o arterial e Dislipidemia. Nesta popula\u00e7\u00e3o em particular os preju\u00edzos para a sa\u00fade podem ser maiores, uma vez que o aumento ponderal poder\u00e1 condicionar a marcha e comprometer a autonomia. A forma de passar a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 maior, sempre que, conseguimos dinamizar sess\u00f5es de cozinha, onde \u00e9 poss\u00edvel explorar os conceitos te\u00f3ricos passados na consulta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Como \u00e9 que \u00e9 o antes e o depois de uma fam\u00edlia ao perceber a import\u00e2ncia da alimenta\u00e7\u00e3o e do papel da nutricionista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AA \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o sei se 12 anos \u00e9 suficiente para ver o antes e o depois. Quando trabalhamos nesta \u00e1rea, aprendemos a celebrar aquelas pequenas conquistas, se uma crian\u00e7a que n\u00e3o tinha deje\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e isso era uma preocupa\u00e7\u00e3o para os pais que as passa a ter di\u00e1rias j\u00e1 \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o. Uma crian\u00e7a que tem um baixo peso, sem aumento h\u00e1 dois\/ tr\u00eas meses, e que aumenta 200 gramas j\u00e1 \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o. Eu acho que o maior reconhecimento da import\u00e2ncia da nutri\u00e7\u00e3o \u00e9 o facto de procurarem o servi\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Ara\u00fajo \u00e9 nutricionista da Associa\u00e7\u00e3o de Paralisia Cerebral de Guimar\u00e3es h\u00e1 12 anos. Esta institui\u00e7\u00e3o vimaranense \u00e9 das poucas no pa\u00eds que apostam na nutri\u00e7\u00e3o enquanto ferramenta para aumentar o bem estar e a qualidade de vida dos respetivos clientes. Em conversa com o F\u00f3rum Municipal das Pessoas com Defici\u00eancia a t\u00e9cnica em nutri\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2073,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2070"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2070\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2115,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2070\/revisions\/2115"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2073"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}