{"id":2897,"date":"2024-04-16T09:58:00","date_gmt":"2024-04-16T09:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2897"},"modified":"2024-04-19T13:54:27","modified_gmt":"2024-04-19T13:54:27","slug":"luis-filipe-silva-nao-ha-idade-para-ter-parkinson-e-ninguem-morre-de-parkinson","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2897","title":{"rendered":"Filipe Silva: \u201cN\u00e3o h\u00e1 idade para ter Parkinson e ningu\u00e9m morre de Parkinson\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>A Orquestra Parkinsound deu um concerto em Braga no dia 11 de abril para assinalar o Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o da Doen\u00e7a de Parkinson. Filipe Silva \u00e9 um dos m\u00fasicos que integra este projeto que surgiu gra\u00e7as \u00e0 neurologista do Hospital de Braga, Margarida Rodrigues, e do m\u00fasico Pedro Santos. O F\u00f3rum Municipal das Pessoas com Defici\u00eancia de Guimar\u00e3es d\u00e1 a conhecer este soldado da paz dos Bombeiros Volunt\u00e1rios das Taipas que tem vindo a fintar os problemas de sa\u00fade que tem tido e que diz, em tom de brincadeira, que deviam estar em promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Filipe Silva nasceu surdo de um ouvido mas foi conseguindo contornar o impacto da surdez unilateral ao longo dos anos. Tem uma vida feliz, conseguindo realizar o sonho de inf\u00e2ncia, igual ao de tantas outras crian\u00e7as, de ser bombeiro. \u201cEra um sonho de crian\u00e7a, eu com tr\u00eas anos j\u00e1 dizia que queria ser bombeiro e lutei para ser bombeiro\u201d, diz com orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escola, \u201cfoi uma luta\u201d, em particular na escola prim\u00e1ria, porque \u201cas crian\u00e7as dizem o que pensam\u201d e n\u00e3o compreendiam porque \u00e9 que Filipe Silva tinha que ficar nas carteiras \u00e0 frente, de prefer\u00eancia \u201csempre com a secret\u00e1ria do professor ao lado direito, para poder ouvir do ouvido bom\u201d. \u201cClaro que havia uma s\u00e9rie de cuidados que tinha de ter porque havia o risco de eu perder o ouvido bom. Estou limitado a n\u00edvel de medica\u00e7\u00e3o, por exemplo uma simples constipa\u00e7\u00e3o podia, na altura, p\u00f4r-me surdo completo\u201d, exemplifica.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi conseguindo superar todas as dificuldades, arranjando estrat\u00e9gias para compensar a perda auditiva: ao inclinar mais a cabe\u00e7a, ao colocar-se \u00e0 esquerda das pessoas para ouvir e tamb\u00e9m sem problemas de perguntar sempre que n\u00e3o percebia o que lhe diziam. \u201cPorque era prefer\u00edvel perguntar do que dizer que \u2018sim\u2019 e n\u00e3o tinha ouvido nada\u201d, considera Filipe Silva.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019 com a coloca\u00e7\u00e3o dos aparelhos auditivos do tipo Cross, a acuidade auditiva melhorou ainda mais, porque estes dispositivos s\u00e3o a melhor solu\u00e7\u00e3o para as pessoas com perda de audi\u00e7\u00e3o unilateral, j\u00e1 que, com este sistema, o som \u00e9 captado pelo microfone do aparelho do lado do ouvido que n\u00e3o ouve e transmitido no imediato para o ouvido bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Queixa-se que o processo de acompanhamento m\u00e9dico \u00e9 centrado em Lisboa, tornando mais complicada a realiza\u00e7\u00e3o de exames e consultas associados a estes produtos de apoio. \u201cA n\u00edvel auditivo, tenho que fazer o pedido em Lisboa e fazer os exames l\u00e1. Exames que fiz \u201cene\u201d de vezes, mas tudo o que eu tenho para tr\u00e1s at\u00e9 hoje n\u00e3o serve\u201d, come\u00e7a por explicar. \u201cTem de ser aquela doutora a fazer uns exames que n\u00e3o s\u00e3o muito agrad\u00e1veis de se fazer, porque sou bombardeado do lado esquerdo com 120 decib\u00e9is e parece que o c\u00e9rebro se desloca de um lado para o outro. \u00c9 a mesma coisa que encostar o ouvido ao motor de um avi\u00e3o\u201d, compara.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi bombeiro profissional nos Bombeiros Volunt\u00e1rios das Taipas, at\u00e9 ser diagnosticado com a doen\u00e7a de Parkinson, condi\u00e7\u00e3o que o obrigou a pedir a pens\u00e3o de invalidez, \u201cporque j\u00e1 n\u00e3o havia forma de alterar o sistema para eu continuar a trabalhar\u201d, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 natural de Famalic\u00e3o e diz que nasceu como bombeiro aos 14 anos ao integrar a Fanfarra dos Bombeiros Volunt\u00e1rios Famalicenses. \u201cInicialmente fui para a fanfarra a convite do meu professor de m\u00fasica porque na altura o falecido comandante An\u00edbal queria p\u00f4r a fanfarra naquilo que se tornou hoje, uma das melhores do pa\u00eds\u201d, lembra. Uma vez nos bombeiros, era s\u00f3 esperar para fazer a instru\u00e7\u00e3o e fazer deste sonho profiss\u00e3o. \u201cAos 19 anos, se n\u00e3o estou enganado, comecei a trabalhar como bombeiro, passei a funcion\u00e1rio da casa na altura, e h\u00e1 12\/13 anos vim para as Taipas\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 realizado tamb\u00e9m na vida pessoal, vivendo h\u00e1 10 anos com a atual companheira que considera \u201cuma grande mulher\u201d. \u201cApoia-me em tudo e tenho uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e feliz\u201d, refere Filipe Silva.<\/p>\n\n\n\n<p>Toca v\u00e1rios instrumentos. O primeiro que aprendeu na escola de m\u00fasica foi o \u00f3rg\u00e3o de dois teclados e pedaleira, parecido com os que se tocam nas igrejas, mas depois optou pelo saxofone. \u201cCom 10 anos dei o primeiro concerto de saxofone no dia 1 de junho de 1986. Esta data nunca mais vou esquecer, no Dia Mundial da Crian\u00e7a foi a minha estreia em palco, muito envergonhado, tinha a minha turma tamb\u00e9m l\u00e1, n\u00e3o sei quantas pessoas tinha porque passei o concerto todo a olhar para o teto\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aos 16 anos foi-se dedicando \u00e0 m\u00fasica, mas na adolesc\u00eancia a vontade de sair com os amigos falou mais alto e tornou-se dif\u00edcil conciliar a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 aprendizagem da m\u00fasica, com a fanfarra, os bombeiros e a vida social. \u201cPus a m\u00fasica um bocado de lado, mas nunca deixei de ter paix\u00e3o pela m\u00fasica, mas a aprendizagem estava de lado. Continuei dentro da fanfarra at\u00e9 \u00e0 grava\u00e7\u00e3o do primeiro CD da fanfarra dos bombeiros famalicenses. Passou anos a tocar apenas em casa, at\u00e9 h\u00e1 tr\u00eas anos, quando integrou a Orquestra Parkinsound, depois de ser diagnosticado com esta doen\u00e7a neurol\u00f3gica que afeta os movimentos da pessoa, causando tremores, lentid\u00e3o, rigidez muscular, desequil\u00edbrio, al\u00e9m de altera\u00e7\u00f5es na fala e na escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNuma das consultas no Hospital de Braga tinha l\u00e1 um cartaz a dizer que iam formar a orquestra com doentes de Parkinson e perguntei \u00e0 Dr.\u00aa Margarida, a minha m\u00e9dica, e ela disse que eu tinha de participar\u201d, lembra. Este projeto, que faz parte de uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tinha como prop\u00f3sito compreender se a m\u00fasica tinha efeitos positivos na Doen\u00e7a de Parkinson. Com a Orquestra Parkinsound pretende-se tamb\u00e9m promover a socializa\u00e7\u00e3o dos doentes: \u201cNo fim a camaradagem \u00e9 gratificante, muitas tomam aquilo como um motivo para estarem ali e crescem. \u00c9 muito gratificante, muitos dizem que se n\u00e3o tivessem a orquestra ficavam em casa e assim saem\u201d, atesta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta iniciativa, aberta a todas as pessoas com esta doen\u00e7a, de qualquer idade, com ou sem experi\u00eancia musical pr\u00e9via e cujos ensaios decorrem em Braga, foi muito importante para Filipe Silva e contribuiu bastante para o processo de aceita\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico. \u201cO pr\u00f3prio conv\u00edvio fez-me bem, conviver com pessoas que t\u00eam Parkinson, trocar ideias de porque \u00e9 que a vida \u00e9 assim, tentar perceber o porqu\u00ea de certos sintomas, o que \u00e9 que eles faziam para atenuar\u201d, admite. \u201cE na altura pensei que ia ser o mais novo porque se associa a doen\u00e7a de Parkinson a pessoas mais velhas e no entanto, eu n\u00e3o era o mais novo, atualmente o mais novo da orquestra tem 27 anos, mas h\u00e1 pessoas mais novas do que eu\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2902\" srcset=\"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1-1024x1024.jpg 1024w, http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1-300x300.jpg 300w, http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1-150x150.jpg 150w, http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1-768x768.jpg 768w, http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/LFS-1.jpg 1213w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u201cN\u00e3o h\u00e1 idade para ter Parkinson e foi uma realidade que tamb\u00e9m me ajudou a ver isto como um sinal de que n\u00e3o estava sozinho. Quando me foi diagnosticado o Parkinson foi como se me tivessem puxado o tapete e o mundo saiu debaixo dos p\u00e9s\u201d. Filipe Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem sintomas h\u00e1 14 anos, mas durante 10 anos andou a tomar magn\u00e9sio, porque a m\u00e9dica insistia que era falta de magn\u00e9sio por causa do stress do trabalho. Foi depois do primeiro confinamento devido \u00e0 pandemia de Covid-19 que, numa caminhada, percebeu que \u201cn\u00e3o conseguia andar, j\u00e1 arrastava os p\u00e9s, sentia as pernas pesadas, cansa\u00e7o e rigidez muscular. Procurou uma neurologista, fez muitos exames e confirmou as suspeitas de que o problema n\u00e3o era apenas stress. Come\u00e7ou o processo de tentar travar o preju\u00edzo do avan\u00e7o da doen\u00e7a mas a primeira medica\u00e7\u00e3o que fez deu-lhe efeitos secund\u00e1rios \u201cnada bons\u201d. Foi ajustando a medica\u00e7\u00e3o e agora j\u00e1 estabilizou e consegue ter qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde foi encaminhado para o ortopedista porque se queixava de dores no joelho, na anca e na parte lombar da coluna. Foi assim que conseguiu somar ainda o diagn\u00f3stico de fibromialgia. \u201c\u00c9 um desafio extra. J\u00e1 n\u00e3o sei o que \u00e9 estar um dia sem dores, mas tamb\u00e9m n\u00e3o penso no assunto, n\u00e3o penso que sou doente de Parkinson, n\u00e3o penso que tenho fibromialgia\u201d, refere. Para lidar com tudo, reconhece que a ajuda psic\u00f3loga a que recorreu foi essencial. \u201cTive essa consci\u00eancia como experi\u00eancia de trabalho, porque sabia que com essa ajuda iria conseguir aceitar a doen\u00e7a e a viver com as minhas limita\u00e7\u00f5es, aprendi a viver com a dor e aprendi que h\u00e1 coisas que eu j\u00e1 n\u00e3o posso fazer\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A ajuda da fam\u00edlia neste processo, refor\u00e7a, foi tamb\u00e9m essencial. O David tem 12 anos e \u00e9 o enteado de Lu\u00eds Filipe Silva e encara este contexto com normalidade. \u201cO David \u00e9 uma crian\u00e7a inteligente e n\u00f3s explicamos-lhe a doen\u00e7a, como ia ser a minha vida e \u00e9 um grande apoio. \u00c0s vezes eu preciso de ajuda e ele oferece-se e ajuda-me\u201d, descreve. \u201cSe o mundo fosse governado por crian\u00e7as, seria tudo mais f\u00e1cil\u201d, atira na hora de falar dos preconceitos de que j\u00e1 foi alvo por parte dos adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo Hospital de Braga, eu ia para uma consulta e estava no elevador uma m\u00e3e, talvez com 65 anos, e um filho com a minha idade talvez, e por causa dos meus tremores deu um toque no filho e deram um passo atr\u00e1s. Eu com calma disse-lhes que n\u00e3o precisavam de ter medo, que o que eu tinha era Parkinson, n\u00e3o era contagioso\u201d. Filipe Silva<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201ccoitado\u201d \u00e9 algo que tamb\u00e9m ouve com frequ\u00eancia mas esfor\u00e7a-se por ignorar porque sabe que estas rea\u00e7\u00f5es mais negativas partem muito do desconhecimento que existe sobre esta patologia. \u201c\u00c0s vezes d\u00e1-me vontade de responder que ningu\u00e9m morre de Parkinson\u201d, confessa. Para quebrar o tabu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a criou um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@Luis_Filipe_daSilva\">canal do Youtube<\/a> onde toca m\u00fasica, mas tamb\u00e9m d\u00e1 algumas palestras nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cA doen\u00e7a tamb\u00e9m me veio ensinar muito, coisas simples do dia-a-dia, porque \u00e0s vezes estamos t\u00e3o absorvidos pelo trabalho que n\u00e3o nos apercebemos de coisas boas que nos rodeiam. Por exemplo eu, praticamente, n\u00e3o conhecia os meus vizinhos e agora conhe\u00e7o-os todos, eu tenho aqui vizinhos que s\u00e3o espetaculares mesmo\u201d. Filipe Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o concerto do dia 11 de abril, fala com alegria sobre o feedback das pessoas que assistiram: \u201cFoi um concerto que correu bem, superou todas as expetativas, n\u00f3s conseguimos o nosso objetivo que era transmitir a mensagem sobre o que \u00e9 a vida do doente de Parkinson, \u00a0temos partes mais mortas e outras com mais energia mas o nosso dia-a-dia \u00e9 mesmo assim, o p\u00fablico gostou e isso \u00e9 \u00f3timo\u201d, refere com satisfa\u00e7\u00e3o. Em outubro deste ano a Orquestra Parkinsound repete a proeza em Braga e em Lisboa mas Filipe Silva assume que tamb\u00e9m gostava de tocar em Guimar\u00e3es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Orquestra Parkinsound deu um concerto em Braga no dia 11 de abril para assinalar o Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o da Doen\u00e7a de Parkinson. 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