{"id":2134,"date":"2022-01-17T18:11:37","date_gmt":"2022-01-17T18:11:37","guid":{"rendered":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2134"},"modified":"2022-01-17T18:13:05","modified_gmt":"2022-01-17T18:13:05","slug":"alison-burrows-sobre-o-design-inclusivo-um-produto-se-calhar-nao-responde-a-todas-as-caracteristicas-humanas-mas-pode-responder-especificamente-a-um-grupo-e-incluir-quem-mais-quiser-usar-e-p","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=2134","title":{"rendered":"Alison Burrows: \u201cUm produto se calhar n\u00e3o responde a todas as caracter\u00edsticas humanas mas pode responder especificamente a um grupo e incluir quem mais quiser usar e puder usar\u201d."},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse o nome, ningu\u00e9m suspeitaria que Alison Burrows \u00e9 inglesa, j\u00e1 que vive em Coimbra desde os dois anos e, por isso, fala portugu\u00eas fluentemente. Foi na cidade dos estudantes que se formou, numa universidade que j\u00e1 n\u00e3o existe. A Escola Universit\u00e1ria das Artes de Coimbra e o curso de Equipamento e Design de Interiores tiveram a oportunidade de ver surgir uma especialista em Design Inclusivo que trabalha agora na Universidade do Minho e recentemente mudou-se de malas e bagagem para Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum Municipal (FM) &#8211; Como foi a experi\u00eancia acad\u00e9mica e como \u00e9 que o design inclusivo entrou na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alison Burrows (AB) &#8211;<\/strong> Isso foi h\u00e1 tanto tempo mas a escola era muito interessante na sua abordagem. Eram, na altura, cursos de cinco anos e o primeiro ano da funda\u00e7\u00e3o reunia toda a gente de todos os cursos, pintura, escultura, todas as artes juntas a experimentar um bocadinho. Depois no segundo ano juntavam-se os dois cursos com mais afinidade portanto design e arquitetura. E no terceiro, quarto e quinto foi mais vocacionado para design de Equipamento e de interiores e nesta metodologia, digamos, assim n\u00e3o tive vontade de sair do curso inicial.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Qual foi a import\u00e2ncia desta experi\u00eancia e do contacto com outras artes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Esta experi\u00eancia em v\u00e1rias artes ensinou-me a import\u00e2ncia de colaborar e tamb\u00e9m o facto de um sonho poder ter v\u00e1rias identidades e vertentes de a\u00e7\u00e3o. No quarto ano t\u00ednhamos uma unidade curricular em que os alunos de todos os cursos traziam j\u00e1 um bocado da sua especializa\u00e7\u00e3o para um projeto de grupo. Isso foi super interessante e era necess\u00e1rio manter esse trabalho interdisciplinar para garantir bons resultados.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 E o que se seguiu \u00e0 licenciatura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> No final da licenciatura eu descobri que n\u00e3o sou tanto uma designer \u201cde fazer\u201d e de desenhar e que sou mais uma designer de investigar, conhecer e trabalhar com pessoas. Portanto fui para Inglaterra e fiz um doutoramento em Design Inclusivo e a experi\u00eancia do utilizador na Universidade de Loughborough. O p\u00fablico-alvo foram as pessoas seniores, a partir dos 50 anos &#8211; eu sei que isto \u00e9 uma idade demasiado jovem para se ser considerado s\u00e9nior e as pessoas a partir dos 50 ou 60 ou 75 s\u00e3o super diversas e n\u00f3s estamos a tentar voltar a agrup\u00e1-las com um termo que muitas vezes n\u00e3o reflete a experi\u00eancia de vida e torna-se mais dif\u00edcil de uniformizar.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Encontrou logo \u00e0 partida um desafio\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Vi muitos estudos que tentavam agrupar e generalizar as pessoas mais velhas e a prescrever a tecnologia que precisam e, em certa medida, isso foi necess\u00e1rio. Mas sei que esta popula\u00e7\u00e3o tem mais complexidade e h\u00e1 fatores que n\u00f3s, designers, n\u00e3o temos necessariamente que intervir e solucionar. Essas pessoas podem contribuir para a nossa investiga\u00e7\u00e3o porque t\u00eam uma experi\u00eancia de vida muito mais vasta.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 E como foi a experi\u00eancia de fazer o doutoramento com este p\u00fablico-alvo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Estamos n\u00f3s com vinte e tal anos a fazer o doutoramento com esse p\u00fablico e a primeira coisa que eu senti foi humildade: eu com 20 anos n\u00e3o podia compreender o que \u00e9 ter 60 ou 70 ou 80 e aquelas transi\u00e7\u00f5es definidas pelas quais essas pessoas passam, al\u00e9m das capacidades f\u00edsicas e doen\u00e7as, a reforma, a viuvez, certas coisas que transformam. Ent\u00e3o passou muito por ouvir e incorporar as perspetivas das pessoas que participaram no estudo e que n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, representativas de todas as pessoas naquela faixa et\u00e1ria. Voltando atr\u00e1s, eu inclui pessoas a partir dos 50 porque, geracionalmente, fazia sentido. Porque se tratava da gera\u00e7\u00e3o seguinte que iria fazer parte dessa gera\u00e7\u00e3o mais velha, ent\u00e3o eu queria ouvi-los.<\/p>\n<p><strong>E qual era o tema do doutoramento? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> O foco era a tecnologia, mas aquela fase inicial antes das pessoas come\u00e7arem a usar a tecnologia &#8211; em ingl\u00eas chama-se out of box experience &#8211; que \u00e9 a fase em que eu preciso de comprar um telem\u00f3vel, at\u00e9 ao momento em que j\u00e1 estou a usar o telem\u00f3vel portanto a decis\u00e3o de comprar, como comprar, desempacotar, fazer o setup, programar o que \u00e9 preciso ter.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Essa fase \u00e9 diferente nas pessoas mais velhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mais novas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Uma coisa interessante que eu descobri foi que os familiares e amigos s\u00e3o um fator importante nesta fase. Portanto este fator social foi o que eu achei interessante mas n\u00e3o quero dizer que seja a \u00fanica forma.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Ent\u00e3o os participantes demonstraram desconhecimento acerca das tecnologias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211; <\/strong>Isso tamb\u00e9m \u00e9 interessante porque o estere\u00f3tipo at\u00e9 ent\u00e3o \u00e9 que as pessoas seniores n\u00e3o gostam e t\u00eam dificuldade e n\u00e3o querem. Eu tinha uma diversidade de participantes e havia participantes super ligados e na vanguarda da tecnologia e tinham coisas que eu pr\u00f3pria n\u00e3o tinha. E isso tamb\u00e9m ajudava na din\u00e2mica investigador-participante.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E quando \u00e9 que o conceito de \u201cdesign inclusivo\u201d entra na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>AB &#8211; O primeiro contacto foi no quarto ano da licenciatura, a professora Paula Trigueiros foi minha professora de projeto, uma presen\u00e7a duradoura na minha vida, agora somos colegas. Foi tamb\u00e9m a Paula que me ajudou a identificar a oportunidade de uma carreira de investiga\u00e7\u00e3o em design porque aquilo que est\u00e1vamos a receber na licenciatura era muito design para ir trabalhar na ind\u00fastria e empresas. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de que eu podia ser uma designer que n\u00e3o estava a fazer desenhos no computador, o que eu sei fazer, mas para a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. O tipo de investiga\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o \u00e9 mais sobre conhecer pessoas, ouvir pessoas e equacionar os problemas para depois um outro ou uma outra designer trabalhar sobre isso.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Porque \u00e9 que o design n\u00e3o \u00e9 de todo inclusivo porque tem que ser especificado dessa forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu quando eu ainda estava no doutoramento fui a uma confer\u00eancia de Design Inclusivo e algu\u00e9m disse \u201cUm dia vamos chamar s\u00f3 design e n\u00e3o vamos ter que chamar design inclusivo\u201d. Mas eu n\u00e3o sei se esse dia vir\u00e1, \u00e9 um bocado ut\u00f3pico porque o design \u00e9 t\u00e3o vasto e responde a tantas coisas e \u00e0s vezes temos que chamar as coisas pelo nome para real\u00e7ar a import\u00e2ncia do nosso foco. Porque o Design Inclusivo pode tamb\u00e9m ter outras vertentes do projeto, a \u00e1rea de foco, mas aquilo que importa real\u00e7ar \u00e9 essa quest\u00e3o de n\u00f3s tentarmos ouvir e envolver e responder ao m\u00e1ximo n\u00famero de pessoas diferentes poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Em termos de exemplos pr\u00e1ticos pr\u00e1tico, do que falamos em rela\u00e7\u00e3o ao Design Inclusivo? O design inclusivo podia estar em muitos produtos do dia-a-dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB \u2013<\/strong> Podia e devia. Especialmente no mercado capitalista que n\u00f3s temos em que h\u00e1 10, 20, 30 vers\u00f5es de tudo, ent\u00e3o \u00e9 sempre poss\u00edvel n\u00f3s termos uma vers\u00e3o adaptada a pessoas com problemas de mobilidade e a quem mais quiser usar, uma adaptada especialmente a pessoas cegas e a quem mais quiser usar. Eu acho que um produto se calhar n\u00e3o responde a todas as caracter\u00edsticas humanas mas pode responder especificamente a um grupo e incluir quem mais quiser usar e puder usar.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E os atuais alunos de design continuam a sair nas universidades sem saber qual \u00e9 o potencial do design inclusivo ou j\u00e1 mudou essa realidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu acho que o design atrai muitas pessoas interessadas em pessoas e, naturalmente, processos focados em pessoas, em utilizadores, conduzem a pensamentos mais inclusivos.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Por exemplo, se olharmos para as op\u00e7\u00f5es inclusivas elas podem ser consideradas como uma vantagem competitiva, quer do ponto de vista do produto quer da pessoa enquanto designer conseguir dar este tipo de resposta, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Sim por exemplo, j\u00e1 se sabe a import\u00e2ncia de desenhar para pessoas s\u00e9nior porque, vou falar da literatura inglesa e americana, essa \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o com mais dinheiro e portanto esse argumento de mercado j\u00e1 est\u00e1 muito bem feito para pessoas mais velhas. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no design mas no turismo, por exemplo. \u00c9 pena porque acho que n\u00e3o devia ser a motiva\u00e7\u00e3o principal para faz\u00ea-lo mas eu compreendo que s\u00e3o as leis de mercado. Eu acho que o designer que faz o design para um nicho tem que demonstrar que \u00e9 us\u00e1vel e interessante e desej\u00e1vel para outras pessoas enquanto considera o nicho como alvo principal.<\/p>\n<p>Mas acho que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para n\u00f3s n\u00e3o fazermos, mais via servi\u00e7o, adapta\u00e7\u00e3o a casos \u00fanicos ou grupos mais pequenos. A tecnologia permite isso e, por isso, o telem\u00f3vel, o computador e o tablet tendem a ser inclusivos porque nos permitem mudar o contraste, o tipo de letra, a forma de intera\u00e7\u00e3o. Portanto a tecnologia j\u00e1 \u00e9 um ve\u00edculo para inclus\u00e3o, \u00e9 mais dif\u00edcil quando falamos de produtos anal\u00f3gicos. Mas \u00e9 uma quest\u00e3o do designer torn\u00e1-los desej\u00e1veis e n\u00e3o redutores, estereotipados. N\u00f3s temos muitas no\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia do utilizador, sobre materiais desagrad\u00e1veis, mesmo o facto de se poder personalizar a cor\u2026<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; O design tem tudo a ver com inova\u00e7\u00e3o e criatividade, se associarmos o fator inclusivo esse universo agiganta-se n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Exatamente. O nosso trabalho nunca acaba. Mas \u00e0s vezes as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o resultam\u2026E o pr\u00f3prio designer n\u00e3o experimenta as suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es. E esse \u00e9 o problema. Eu acho que estou a desenhar para um p\u00fablico. Mas n\u00e3o conhecendo o p\u00fablico e n\u00e3o tendo essas caracter\u00edsticas. Quem somos n\u00f3s para faz\u00ea-lo? Somos, mas n\u00e3o podemos faz\u00ea-lo sozinhos no nosso gabinete.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E desde 2013, altura em que iniciou o doutoramento e a carreira de investiga\u00e7\u00e3o, com que projetos se tem envolvido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Quase tudo me interessa desde que haja um impacto humano ou social comunit\u00e1rio. Portanto depois do doutoramento fui trabalhar cinco anos num projeto bastante grande, na Universidade Bristol, que ambicionava criar um sistema de sensores para a casa. E eu era a \u00fanica designer que estava l\u00e1 para fazer investiga\u00e7\u00e3o em design. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era criar sensores novos, era pegar em sensores que existiam para integr\u00e1-los numa plataforma e us\u00e1-los para monitorizar a atividade das pessoas em casa para criar um padr\u00e3o para que depois os desvios do padr\u00e3o ou mudan\u00e7as graduais ao longo do tempo pudessem indicar quest\u00f5es de sa\u00fade e bem-estar. E tamb\u00e9m que, por exemplo, se eu tivesse um evento, partir uma perna ou algo do g\u00e9nero que o sistema tamb\u00e9m pudesse monitorizar o meu progresso ap\u00f3s esse evento, se eu estava a melhorar, se estava dentro dos par\u00e2metros desej\u00e1veis. Era uma tecnologia gen\u00e9rica que ali\u00e1s estaria nas nossas casas desde crian\u00e7a para poder ter hist\u00f3rico: A Alison com cinco anos, a Alison com 20, a Alison com 40.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E como foi aceite?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu concordo que \u00e9 super assustador. Estas plataformas de sensores eram para ser instaladas at\u00e9 100 casas reais em Bristol. Acho que n\u00e3o chegaram a 100, eram 60 ou 70. Mas esse trabalho de recrutar as pessoas interessadas em ter esta tecnologia em casa foi um trabalho consider\u00e1vel e no qual eu estive envolvida. O p\u00fablico era diverso: desde pessoas jovens e saud\u00e1veis, pessoas seniores, pessoas em fam\u00edlias com diferentes gera\u00e7\u00f5es, a pessoas com problemas de sa\u00fade diagnosticados, de tudo um pouco.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; O que resultou deste projeto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB \u2013<\/strong> Ele continua. Em cinco anos aquela tecnologia n\u00e3o ficou muito amadurecida. Serviu para provar que \u00e9 poss\u00edvel. Aquilo \u00e9 um projeto universit\u00e1rio e portanto tem uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es. H\u00e1 outras empresas maiores \u2013 a Google e a Aple &#8211; que est\u00e3o a fazer isto de forma completamente desinibida em termos financeiros e \u00e9ticos.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; A \u00e9tica neste projeto \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Uma \u00e1rea que eu tamb\u00e9m trabalhei no projeto foram as quest\u00f5es \u00e9ticas. Como \u00edamos instalar sensores, al\u00e9m de sa\u00fade, podemos ver muitas outras coisas. Ser\u00e1 que vemos? E o que \u00e9 que fazemos com essa informa\u00e7\u00e3o? N\u00f3s tivemos muitas preocupa\u00e7\u00f5es se surgisse, por exemplo, um caso de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Qual \u00e9 o nosso papel como investigadores?<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; A liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o de \u00c9tica da Universidade de Bristol come\u00e7ou a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB \u2013<\/strong> Sim, eu nessa altura fui convidada para integrar a comiss\u00e3o de \u00e9tica da Faculdade de Engenharia na Universidade Bristol. O Departamento de Engenharia queria uma pessoa mais interessada nos fatores humanos e sendo mulher ajudava na diversidade de g\u00e9nero no grupo e ainda estou ligada como membro externo.<\/p>\n<p>Uma coisa engra\u00e7ada \u00e9 que aquele projeto era dinamizado por engenheiros de computadores e afins, mas a perspetiva da engenharia \u00e9 muito diferente da perspetiva de design e de design inclusivo e de design centrado nos humanos. Os engenheiros, segundo a minha experi\u00eancia, est\u00e3o muito entusiasmados com o que eles podem fazer tecnologicamente. E eu entrava a dizer \u201cMas devemos faz\u00ea-lo?\u201d. E logo no in\u00edcio os meus colegas puseram-me um apelido, eu n\u00e3o fiquei ofendida, at\u00e9 achei enternecedor, que era \u201cdream killer\u201d [risos]. Porque eles iam sonhar que iam fazer coisas espetaculares e eu ia chegar e dizer que n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Ent\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o de \u00c9tica tem influenciado de que forma o trabalho da Alison?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu estou sempre a perguntar primeiro se devemos fazer as coisas mas eu acho que muitas vezes devemos, temos \u00e9 que faz\u00ea-lo com o devido respeito das pessoas que est\u00e3o envolvidas e eu acho que quem faz design inclusivo j\u00e1 pensa nas pessoas. \u00c9 uma quest\u00e3o de saber quais s\u00e3o as nossas limita\u00e7\u00f5es e perceber essas pessoas porque n\u00f3s n\u00e3o somos iguais nem temos a mesma experi\u00eancia de vida.<\/p>\n<p>Acho que tamb\u00e9m aprendi muito sobre protocolos e legisla\u00e7\u00e3o e direitos que est\u00e3o protegidos e sobre os nossos deveres como investigadores. Muitas vezes entramos dentro da casa das pessoas para ver a vida delas, vamos fazer uma interven\u00e7\u00e3o e no final vamo-nos embora. E qual \u00e9 o efeito que ir embora tamb\u00e9m tem? Est\u00e1 provado, noutros estudos, que aquilo que os investigadores fazem acrescenta valor \u00e0 vida das pessoas e quando de repente n\u00f3s vamos embora retiramos esse valor e \u00e0s vezes deixamos as pessoas pior. Eu li um [estudo] feito numa casa de repouso e era sobre qualidade de vida e fizeram uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es e houve muita din\u00e2mica e o envolvimento das pessoas que viviam na casa e depois da investiga\u00e7\u00e3o acabar houve um aumento consider\u00e1vel do n\u00famero de mortes nos seis meses seguintes. Justamente porque se acrescentou muito em termos de qualidade de vida e de repente retirou-se e as pessoas viram que j\u00e1 n\u00e3o estavam no patamar em que eles tinham tido um aumento e depois voltar ao patamar anterior j\u00e1 n\u00e3o era igual. N\u00f3s podemos fazer mal com a nossa interven\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 preciso sabermos\u2026<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 Qual foi o maior desafio desse ponto de vista \u00e9tico?<\/strong> <strong>\u00c9 um desafio constante?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu acho que o maior desafio foi fazer parte da comiss\u00e3o e saber que h\u00e1 certas coisas que temos e nque nos comprometemos a fazer um projeto e depois estar no gabinete no dia-a-dia com os meus colegas que viam os procedimentos \u00e9ticos como empecilhos na sua investiga\u00e7\u00e3o. E justamente observ\u00e1-los nas suas pr\u00e1ticas, sendo eu igual a eles tentar convec\u00ea-los\u2026 isso era mais complicado do que propriamente a componente de investiga\u00e7\u00e3o. Eu acho que uma grande parte daquilo que eu fiz foi tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais no meu local de trabalho. Tinha que escolher as batalhas que queria travar e n\u00e3o o fiz sozinha, tinha as minhas orientadoras, apoio da comiss\u00e3o de \u00e9tica. Eu acho que se fizermos um \u201cantes e depois\u201d as pessoas que trabalharam no projeto sa\u00edram muito mais sensibilizadas.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Ao longo desta entrevista j\u00e1 se percebeu que para a Alison \u00e9 essencial trabalhar no terreno, com as pessoas, de prefer\u00eancia para quem se est\u00e1 a trabalhar, ouvi-las, quer seja investigador quer seja designer. <\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> \u00c0s vezes os investigadores t\u00eam o \u201cluxo\u201d do tempo e os designers que trabalham nas empresas se calhar n\u00e3o t\u00eam mas, por isso, \u00e9 que tamb\u00e9m tem que haver essa parceria com a ind\u00fastria ou ent\u00e3o os investigadores partilharem os seus resultados de forma consum\u00edvel, para n\u00e3o-acad\u00e9micos.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da Alison?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> \u00c9 uma coisa que faz\u00edamos muito no projeto em Bristol porque t\u00ednhamos que, n\u00e3o s\u00f3 dar a conhecer o nosso projeto, ouvir o p\u00fablico uma vez que \u00edamos criar estes sensores para a casa deles e interess\u00e1-los e dar-lhes tamb\u00e9m uma forma de influenciar a investiga\u00e7\u00e3o porque \u00e0s vezes o que n\u00f3s queremos fazer n\u00e3o \u00e9 o que o p\u00fablico quer e eu acho que at\u00e9 esse ouvir preliminar antes de avan\u00e7ar \u00e9 importante. Uma plataforma de sensores\u2026Isso nunca foi um problema que algu\u00e9m tenha sentido.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; Mas tamb\u00e9m h\u00e1 esse risco das pessoas n\u00e3o identificarem as necessidades\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> E a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o parte s\u00f3 da necessidade. Temos tecnologia que tem potencial e vamos explorar o potencial. N\u00e3o estou a criticar essa abordagem, estou a dizer que h\u00e1 v\u00e1rias abordagens e ouvir o p\u00fablico \u00e9, para mim, fundamental.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E esta maneira de trabalhar sempre fez sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Sim faz sentido desde que comecei a trabalhar o design para pessoas reais e n\u00e3o pessoas abstratas. Esse encorajamento que a professora Paula fez de falar com pessoas e entrevista-las, toda a minha carreira acad\u00e9mica e profissional at\u00e9 agora foi consolidar essa perspetiva e aprender novas formas de faz\u00ea-lo. Um dos desafios \u00e9: As pessoas n\u00e3o sabem o que \u00e9 que elas querem. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que ter m\u00e9todos e ferramentas que ajudam a escavar as primeiras camadas. \u201cEu n\u00e3o preciso de nada\u201d. Mas vamos observar como \u00e9 que as pessoas vivem, como \u00e9 que usam os objetos, como usam os servi\u00e7os e come\u00e7ar a descobrir.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E que descobertas guarda neste percurso enquanto investigadora?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Foi muito emocionante no doutoramento descobrir esta componente social que as pessoas mais velhas t\u00eam com a aquisi\u00e7\u00e3o e o primeiro uso da tecnologia porque na altura eu falava e as pessoas identificavam-se com aquilo que eu estava a descobrir. Na investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito aceite porque at\u00e9 ent\u00e3o o discurso era muito sobre empoderar as pessoas para fazerem tudo sozinhas e a quest\u00e3o da autonomia era muito importante at\u00e9 2008. At\u00e9 l\u00e1, era: temos \u00e9 que encorajar e empoderar as pessoas para fazer o que t\u00eam a fazer sozinhas. E este facto de que as pessoas n\u00e3o faziam, necessariamente, sozinhas ou n\u00e3o faziam tudo sozinhas e gostavam dessa intera\u00e7\u00e3o social, ela era valiosa e motivadora para o processo. Isto era verdade quando eu falava com as pessoas e n\u00e3o era no meio acad\u00e9mico. Mas eu acho que tamb\u00e9m \u00e9 preciso saber que nem toda a gente tem a oportunidade de envolver outra pessoa porque t\u00eam que fazer mesmo sozinhas e enquanto designers temos que lhes facilitar esse processo. Mas podem haver servi\u00e7os que proporcionem esta intera\u00e7\u00e3o social n\u00e3o tem que vir desenhado dentro do objeto, na embalagem mas pode fazer parte do processo de compra.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E ao falar de design inclusivo, tendencialmente, se pensa nas pessoas com defici\u00eancia e na popula\u00e7\u00e3o s\u00e9nior, mas podem englobar quest\u00f5es relacionadas com o g\u00e9nero, por exemplo, que outros aspetos \u00e9 necess\u00e1rio considerar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> No projeto dos sensores era tamb\u00e9m uma quest\u00e3o importante porque \u00e9 uma cidade multicultural e foi preciso dar resposta \u00e0s diferen\u00e7as culturais. \u00c0s vezes n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 os resultados da investiga\u00e7\u00e3o mas o processo e o respeito pelos participantes tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E quando \u00e9 que regressou a Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu acho que foi em 2018.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 O que motivou o seu regresso a Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB \u2013<\/strong> Eu voltei para Portugal sem um plano. O que motivou o meu regresso foi, foi mesmo desilus\u00e3o. Em 2018, para mim, aquilo j\u00e1 estava muito mal por causa dos dez anos de governos conservadores. Eles destru\u00edram tanto. Eu n\u00e3o conseguia viver l\u00e1 nem mais um minuto. E agora com a pandemia todos os dias penso \u201cAinda bem que n\u00e3o estou l\u00e1\u201d. A minha qualidade de vida n\u00e3o estava m\u00e1 e em termos de oportunidade eu estaria l\u00e1 melhor mas, em termos da minha pessoa e daquilo que eu via, eu n\u00e3o conseguia viver l\u00e1 mais. Tem-se erodido tanto, valores, direitos\u2026n\u00e3o sei. \u00c9 uma cidade bastante din\u00e2mica e rica e eu via a quantidade de pessoas sem-abrigo a aumentar diariamente sem apoios, pessoas com dois empregos, tr\u00eas empregos e a viver como sem abrigo. N\u00e3o havia interven\u00e7\u00e3o do Governo, a interven\u00e7\u00e3o que existia chegava de organiza\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias. Uma sociedade como a inglesa ou a brit\u00e2nica que se gosta de demonstrar como um superpoder e tratar as pessoas assim\u2026 Quando eu falo \u00e0s pessoas elas n\u00e3o acreditam.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E o regresso a Portugal o que lhe reservou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB \u2013<\/strong> Fui convidada para dar, na Universidade do Minho, algumas unidades curriculares no Estado<\/p>\n<p><strong>FM -\u2026mas sempre a morar em Coimbra. No entanto agora o envolvimento ser\u00e1 mais intenso e vai-se mudar para Guimar\u00e3es. O que motiva esta mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Sou investigadora principal no grupo de investiga\u00e7\u00e3o da Escola de Arquitetura Arte e Design da Universidade do Minho que se chama Lab2PT e eu sou investigadora principal do grupo DTec, que \u00e9 um grupo especializado em design e tecnologia. O que eu fa\u00e7o como investigadora principal \u00e9 mesmo dinamizar projetos e procurar angariar financiamento mas tamb\u00e9m estabelecer parcerias, construir alguma colabora\u00e7\u00e3o dentro do laborat\u00f3rio mas tamb\u00e9m dentro da universidade, com outras universidades e tamb\u00e9m com a comunidade porque aquilo que me interessa \u00e9 investiga\u00e7\u00e3o com impacto real na vida real e para isso temos que sair da universidade.<\/p>\n<p><strong>FM \u2013 E quais s\u00e3o as expectativas para esta fase?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu estou muito entusiasmada porque o que eu gosto de fazer \u00e9 investiga\u00e7\u00e3o, acima de tudo, e ent\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio ter uma oportunidade de fazer investiga\u00e7\u00e3o pura e acho que em Portugal \u00e9 uma coisa rara. E este cargo vai-me permitir fazer isso sem distra\u00e7\u00f5es ou outras responsabilidades e o grupo em si \u00e9 excelente e tem v\u00e1rias \u00e1reas, a de design e tecnologia, arquitetura, patrim\u00f3nio, territ\u00f3rio, geografia. H\u00e1 muitas oportunidades para eu tamb\u00e9m sair da minha bolha, que at\u00e9 agora tem sido diversa, mas diversificar mais com pessoas tamb\u00e9m super bem posicionadas nas suas \u00e1reas.<\/p>\n<p><strong>FM &#8211; E como est\u00e1 a encarar o facto de vir morar em Guimar\u00e3es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AB &#8211;<\/strong> Eu estou entusiasmada porque conhe\u00e7o pouco \u2013 venho e vou \u2013 passo uma noite por semana c\u00e1. Vou da esta\u00e7\u00e3o [de comboios] at\u00e9 aqui [IDEGUI], um bocadinho at\u00e9 ao centro hist\u00f3rico Vai ser uma oportunidade de me imergir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse o nome, ningu\u00e9m suspeitaria que Alison Burrows \u00e9 inglesa, j\u00e1 que vive em Coimbra desde os dois anos e, por isso, fala portugu\u00eas fluentemente. Foi na cidade dos estudantes que se formou, numa universidade que j\u00e1 n\u00e3o existe. 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