{"id":3103,"date":"2024-08-09T10:39:56","date_gmt":"2024-08-09T10:39:56","guid":{"rendered":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=3103"},"modified":"2024-08-09T14:53:52","modified_gmt":"2024-08-09T14:53:52","slug":"jorge-couto-transformou-a-adversidade-em-oportunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=3103","title":{"rendered":"<strong>Jorge Couto transformou a adversidade em oportunidade<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 natural de Felgueiras mas foi com Guimar\u00e3es que \u201ccasou\u201d quando conheceu a esposa, natural deste concelho. Tem tr\u00eas filhos \u2013 dois rapazes e uma rapariga -, quatro netos e um neg\u00f3cio criado em consequ\u00eancia do acidente de trabalho que o deixou tetrapl\u00e9gico. Comercializa carros adaptados, foi candidato a presidente de junta e, quem o conhece sabe que o dinamismo \u00e9-lhe natural e, por isso, quem sabe o que vir\u00e1 a seguir.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>\u201cEu j\u00e1 fiz quase tudo. Eu comecei no cal\u00e7ado, era trabalhador na ind\u00fastria do cal\u00e7ado. Mas um dos meus sonhos era trabalhar por conta pr\u00f3pria\u201d, come\u00e7a por dizer. \u201cEu sempre dizia que n\u00e3o ia acabar a trabalhar para os outros\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no in\u00edcio dos anos 90 que se estabeleceu nesta atividade industrial, mas o neg\u00f3cio acabou por n\u00e3o correr bem: \u201cCheguei a ter uma ind\u00fastria que fazia mais ou menos 100 pares de sapatos por dia. Entretanto, as coisas correram mal, ficaram a dever-me bastante dinheiro. Eu fechei\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para a Alemanha e para a Madeira para pagar as d\u00edvidas que tinha contra\u00eddo, mas esse per\u00edodo nem um ano durou. Foi um momento dif\u00edcil longe da fam\u00edlia e, por isso, n\u00e3o quis prolongar mais do que o necess\u00e1rio esta jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJuntei o dinheiro para pagar logo e isso ajudou, de alguma maneira, ainda a dar mais valor a Guimar\u00e3es, valor \u00e0 vida, valor a tudo\u201d, admite. Como nesta fase trabalhou na constru\u00e7\u00e3o civil, ao regressar a casa estabeleceu-se como empreiteiro e abriu uma empresa nesta \u00e1rea, atividade que, garante, ainda estaria dedicado se n\u00e3o tivesse tido o acidente.<\/p>\n\n\n\n<p>27 de junho de 2003. Agora fala com mais naturalidade do que aconteceu, mas admite que j\u00e1 chorou muito, que ainda h\u00e1 coisas que o emocionam mas que j\u00e1 fez o luto do antigo Jorge Couto.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a queda de um telhado que lhe provocou esta les\u00e3o. Enquanto os funcion\u00e1rios arrumavam as ferramentas, Jorge Couto foi verificar se o trabalho realizado estava bem feito. &nbsp;\u201cEu ia descer por uma escada de alum\u00ednio que estava segura \u00e0 estrutura, pousei e falso o p\u00e9 direito e ca\u00ed\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Perdeu os sentidos, foi socorrido pelos Bombeiros Volunt\u00e1rios das Taipas que o encaminharam para o Hospital de Guimar\u00e3es. Foi transferido para o Hospital em Braga depois de sentir tonturas e s\u00f3 nessa altura teve no\u00e7\u00e3o de que a respetiva mobilidade estava comprometida. \u201cEm Braga, por volta da meia-noite, quando acordo \u00e9 que dou por mim, que realmente estava nesta situa\u00e7\u00e3o\u201d, relatou ao programa do Goucha. \u201cO choque foi querer mexer os p\u00e9s e as m\u00e3os e n\u00e3o conseguir. A \u00fanica coisa que conseguia mexer era os olhos e a boca, eu acho que nem o pesco\u00e7o me lembro de conseguir mexer\u201d, frisa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u201cPassei pela fase m\u00e1 e sei que, mais tarde, poderei voltar a essa fase, quando eu estiver sem fazer nada. Nem quero imaginar o que \u00e9 que ser\u00e1, mas isso n\u00e3o vale a pena pensar. N\u00e3o vou sofrer para antecipa\u00e7\u00e3o\u201d. <\/strong><\/p>\n<cite>Jorge Couto<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Instalou-se o p\u00e2nico e ainda demorou uns meses a sair da fase em que a vida parecia que n\u00e3o tinha sentido. Jorge Couto considera que esta rea\u00e7\u00e3o \u00e9 natural. \u201cFui submetido a uma cirurgia para que a les\u00e3o n\u00e3o agravasse e seguiu-se a recupera\u00e7\u00e3o no Hospital em Braga. Estive l\u00e1 oito meses onde ganhei bons amigos. As pessoas que eu l\u00e1 conheci, tanto outros doentes como pessoal m\u00e9dico, etc era tudo boa gente, n\u00e3o tenho raz\u00e3o de queixa,\u201d descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Regressou a casa, enquanto aguardava pela entrada no Centro de Medicina de Reabilita\u00e7\u00e3o da Tocha onde permaneceu cinco meses, apoiado na camaradagem para enganar as saudades da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Andou anos em disputas com o seguro que alegava que a obra n\u00e3o estava em conformidade, embora a Autoridade para as Condi\u00e7\u00f5es do Trabalho tivesse feito as visitas regulares obrigat\u00f3rias. Foi quando percebeu que a peritagem n\u00e3o devia ter acontecido dois meses depois do acidente, que ganhou for\u00e7as e seguiu com o caso em Tribunal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tenho o acidente a 27 de junho e o perito vai vistoriar a obra a 21 de setembro. Quando eu tive o acidente, a ACT visitou a obra e n\u00e3o embargou a obra. Quando o perito vai vistoriar a obra, a obra j\u00e1 tinha telhado\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se fosse agora, tinha pedido ao ACT para enviar o relat\u00f3rio ao seguro mas na altura n\u00e3o estava com disponibilidade mental para entrar nesta \u201cguerra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uns seis anos do acidente decidiu que queria voltar a conduzir e dar mais um passo na respetiva autonomia e independ\u00eancia. Daqui resultou mais uma disputa com o seguro para a atribui\u00e7\u00e3o de um carro. Fez os testes necess\u00e1rios para comprovar que era capaz de conduzir mas em Tribunal acabava por perder porque n\u00e3o estava no mercado de trabalho e o investimento do carro n\u00e3o se justificava apenas para passear.<\/p>\n\n\n\n<p>Os argumentos de Jorge Couto &nbsp;n\u00e3o pareciam suficientes para convencer o juiz que n\u00e3o acreditava que ele era capaz de trabalhar. A mudan\u00e7a de juiz trouxe uma mudan\u00e7a na decis\u00e3o: \u201cComo posso procurar trabalho sem ter como chegar ao trabalho? Transportes p\u00fablicos na minha zona n\u00e3o h\u00e1, vou mandar curr\u00edculos para qu\u00ea? Eu tinha o sexto ano quando tive o acidente e fui tirar o nono, e depois fui tirar o 12\u00ba e apresentei-lhe aquilo tudo\u201d, enumera. Ganhou. Mas os problemas n\u00e3o acabaram aqui. Concretizar a adapta\u00e7\u00e3o da carrinha por parte da seguradora n\u00e3o estava a ser f\u00e1cil, ent\u00e3o depois de mais uma chamada a Tribunal encontrou-se uma solu\u00e7\u00e3o: \u201cSe me derem o dinheiro eu resolvo. Deram-me o dinheiro e em tr\u00eas meses tinha adaptado. Comprei c\u00e1 em Portugal uma carrinha normal, sem adapta\u00e7\u00e3o, tinha que ser de caixa autom\u00e1tica e depois contratei uma empresa na Holanda para fazer a adapta\u00e7\u00e3o\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tirar um curso de design gr\u00e1fico na Cercigui, Jorge Couto come\u00e7ou a fazer e a vender brindes nas empresas, neg\u00f3cio que n\u00e3o dava muito dinheiro mas que o mantinha ocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>A certa altura, ao reconhecer a facilidade com o que Jorge Couto utilizava a internet, uma irm\u00e3 pediu-lhe para p\u00f4r o carro \u00e0 venda. Num par de horas, vendeu o carro. O passa-a-palavra foi funcionando e o empreendedor foi vendendo cada vez mais carros. O antigo dono da Auto de S. Tom\u00e9 contratou-o para vender os carros na internet e, mais tarde, tomou conta do neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo meio, continuou a trabalhar por conta pr\u00f3pria e o neg\u00f3cio foi crescendo e foi ganhando experi\u00eancia. O investimento inicial de 100 euros \u00e9 resultado da troca que um cliente fez: um carro por uma hoverboard, o pre\u00e7o que este ve\u00edculo custava na loja. Mais tarde, vendeu uma carrinha adaptada em segunda m\u00e3o e come\u00e7ou a olhar para este nicho de neg\u00f3cio com outros olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi candidato da Coliga\u00e7\u00e3o Juntos por Guimar\u00e3es \u00e0 Uni\u00e3o de Freguesias de Calvos e Serzedo nas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas de 2017. Perdeu e, agora olhando para tr\u00e1s, considera que foi o melhor que lhe aconteceu, caso contr\u00e1rio n\u00e3o tinha avan\u00e7ado com um neg\u00f3cio que o deixa feliz e lhe d\u00e1 estabilidade financeira &#8211; o servi\u00e7o de t\u00e1xis adaptados \u00e9 a mais recente novidade e tem havido muita procura.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019 deu mais um passo importante para ter uma vida independente e contactou o Centro de Apoio \u00e0 Vida Independente da P\u00f3voa de Lanhoso para solicitar os servi\u00e7os de assistente pessoal. \u201cEle p\u00f5e-me a p\u00e9 de manh\u00e3, ajuda-me na higiene pessoal e coloca-me na cadeira. A partir da\u00ed j\u00e1 vou sozinho. Depois \u00e0s tardes de ter\u00e7as, quartas e quintas tenho-o aqui comigo no stand a ajudar no que precisar\u201d, descreve o servi\u00e7o prestado por dois assistentes pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora do stand Jorge Couto identifica-se como \u201co organizador de jantares com os amigos\u201d. \u201cN\u00e3o gosto de solid\u00e3o, mas tamb\u00e9m tenho os meus momentos de solid\u00e3o que eu preciso dela como qualquer outra pessoa, claro, at\u00e9 para sossegar e depois ganha energia para depois mais um conv\u00edvio\u201d, atira quem j\u00e1 conseguiu levar a fam\u00edlia alargada a visitar os A\u00e7ores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta boa disposi\u00e7\u00e3o e otimismo n\u00e3o o fazem esquecer alguma m\u00e1goa por sentir que o acidente comprometeu a proximidade com que acompanhava o crescimento dos filhos nem a import\u00e2ncia do apoio da mulher em todas as fases e o papel que ainda agora desempenha enquanto cuidadora informal. Jorge Couto espera que o orgulho que tem na fam\u00edlia seja rec\u00edproco. Ser\u00e1, certamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 natural de Felgueiras mas foi com Guimar\u00e3es que \u201ccasou\u201d quando conheceu a esposa, natural deste concelho. Tem tr\u00eas filhos \u2013 dois rapazes e uma rapariga -, quatro netos e um neg\u00f3cio criado em consequ\u00eancia do acidente de trabalho que o deixou tetrapl\u00e9gico. 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