{"id":483,"date":"2019-02-15T13:18:15","date_gmt":"2019-02-15T13:18:15","guid":{"rendered":"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=483"},"modified":"2019-02-20T12:26:25","modified_gmt":"2019-02-20T12:26:25","slug":"amar-e-ser-amado-e-um-direito-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/?p=483","title":{"rendered":"Amar e ser amado \u00e9 um direito de todos"},"content":{"rendered":"<p>Numa esp\u00e9cie de \u201crescaldo\u201d do Dia dos Namorados, celebrado anualmente a 14 de fevereiro, vamos falar sobre amor. O amor sem r\u00f3tulos. Falar sobre a afetividade, o toque, os gestos, as palavras, os pensamentos, os sentimentos, as a\u00e7\u00f5es e as intera\u00e7\u00f5es. Nada mais interessa.<\/p>\n<p><!--more-->\u201c\u00c9 simp\u00e1tico, carinhoso e muito meigo. D\u00e1-me os abra\u00e7os que os namorados d\u00e3o e \u00e0s vezes beijinhos\u201d, resume Patr\u00edcia Oliveira. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 simp\u00e1tica e meiga, \u00e9 especial para mim\u201d, completa Carlos Martins. A seta do Cupido que acertou no cora\u00e7\u00e3o destes dois jovens transformou a amizade, que a conviv\u00eancia no Centro de Atividades Ocupacionais da Cercigui tinha constru\u00eddo, numa paix\u00e3o h\u00e1 algum tempo vivenciada. Conhecem-se h\u00e1 mais de 15 anos. Talvez. N\u00e3o conseguem precisar, mas as contas exatas n\u00e3o interessam porque sabem que est\u00e3o ali para contar a hist\u00f3ria de amor que os une e que motivou esta entrevista. \u201cA minha sala e a dele \u00e9 pegada uma da outra. E foi a\u00ed que come\u00e7amos a falar. Ele disse: \u2018Aceitas namorar comigo?\u2019 E eu disse: \u2018Aceito\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Simples, tal como o amor deve ser. Para complicar basta a sociedade que, nos tempos que correm, ainda tende a considerar que o amor e a defici\u00eancia s\u00e3o duas palavras que representam realidades que n\u00e3o se conjugam. Como se o direito a namorar estivesse associado a um padr\u00e3o de funcionalidade, est\u00e9tica e beleza dominantes. \u201cIsto torna esta associa\u00e7\u00e3o como que descabida: a sexualidade e defici\u00eancia, portanto, s\u00e3o duas palavras que n\u00e3o d\u00e3o as m\u00e3os, pelo contr\u00e1rio, parece que funcionam como um par conflituante\u201d, explicou o psic\u00f3logo cl\u00ednico e sex\u00f3logo, Jorge Cardoso, em tempos para uma reportagem da revista digital Plural&amp;Singular que pode ler <a href=\"https:\/\/issuu.com\/pluralesingular\/docs\/plural_singular_08\/32\">AQUI.<\/a><\/p>\n<p>Mas este casal de pessoas com trissomia 21, por muitos chamado o cromossoma do amor, sem terem consci\u00eancia disso, est\u00e3o a provar precisamente o contr\u00e1rio. \u201cO meu pr\u00edncipe \u00e9 lindo, quando estou em baixo apoia-me. Est\u00e1 sempre pronto para ajudar. Chega \u00e0 minha beira abra\u00e7a-me e d\u00e1-me um beijo\u201d, conta Patr\u00edcia Oliveira.<\/p>\n<p>Entrevistada pelo F\u00f3rum Municipal das Pessoas com Defici\u00eancia de Guimar\u00e3es a psic\u00f3loga da Cooperativa de Educa\u00e7\u00e3o e Reabilita\u00e7\u00e3o de Cidad\u00e3os Com Incapacidades de Guimar\u00e3es, Crl (Cercigui), Carla Fran\u00e7a, diz que a tem\u00e1tica da sexualidade e dos afetos na pessoa com defici\u00eancia \u201ctem vindo, progressivamente, a ser aceite na sociedade em geral\u201d. \u201cA maior divulga\u00e7\u00e3o dos direitos e as partilhas das pessoas com defici\u00eancia das suas viv\u00eancias pessoais t\u00eam contribu\u00eddo para uma maior aceita\u00e7\u00e3o\u201d, destaca, acrescentando que, ainda assim, \u201ch\u00e1 um caminho a percorrer\u201d. \u201cAceitar n\u00e3o quer dizer que aquele direito da pessoa seja respeitado e apoiado para uma pr\u00e1tica efetiva\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os de ambos \u2013 Carlos tem um e Patr\u00edcia tem tr\u00eas &#8211; convivem bem com o namoro do casal de clientes da Cercigui. \u201cO meu problema \u00e9 a minha m\u00e3e que n\u00e3o aceita\u201d, avan\u00e7a Patr\u00edcia Oliveira. \u201cEu tenho aqui [no telem\u00f3vel] fotografias e ela diz assim \u2018Quem \u00e9 esse?\u2019 e eu digo \u2018O que \u00e9 que tem?\u2019\u201d, conta. A jovem n\u00e3o sabe porque \u00e9 que a m\u00e3e reage assim, mas o sorriso que faz quando fala do assunto manifesta a naturalidade com que aceita a rea\u00e7\u00e3o da m\u00e3e \u00e0 exist\u00eancia desta paix\u00e3o na vida de Patr\u00edcia. \u201cEu gosto dele, eu amo-o. S\u00f3 quero aos domingos passear com ele. Os pais dele \u00e9 f\u00e1cil, gostam muito de mim. \u2018\u00c9s a minha norinha\u2019. J\u00e1 a minha m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 assim\u201d, lamenta. Mas n\u00e3o perde a esperan\u00e7a que a m\u00e3e um dia aceite o relacionamento. \u201cAt\u00e9 a minha sobrinha diz: \u2018\u00d3 av\u00f3, um beijo, qual \u00e9 o mal? Dantes era \u00e0 janelinha, agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9\u201d [risos].<\/p>\n<blockquote>\n<h2>\u201cOs mitos e preconceitos continuam a existir. O estigma, o comunicar sobre a intimidade, os medos da fam\u00edlia, continuam a persistir. H\u00e1 namoros assumidos na institui\u00e7\u00e3o e nas fam\u00edlias e h\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es em que as fam\u00edlias t\u00eam maiores dificuldades em aceitar. Respeitamos e procuramos que cada jovem viva os seus afetos\u201d. Carla Fran\u00e7a<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Patr\u00edcia Oliveira \u00e9 de Campelos. Carlos Martins \u00e9 de Ronfe. T\u00eam ambos 37 anos. \u201cEu fa\u00e7o a 30 de agosto\u201d, diz a Patr\u00edcia. \u201cEu fa\u00e7o no dia 11 de abril\u201d, atira o Carlos. Ela \u00e9 virgem e ele carneiro, mas n\u00e3o sabem nada sobre signos e nem se preocuparam em procurar compatibilidades no zod\u00edaco quando come\u00e7aram a perceber que o que sentiam ultrapassava as fronteiras da amizade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes ele chateia-me um bocado\u201d, refere Patr\u00edcia. Contou inclusivamente que o Carlitos, como lhe costuma chamar, chegou a namorar \u201cuma menina l\u00e1 de cima [sede da Cercigui]\u201d. Mas Carlos deita por terra a r\u00e9stia de ci\u00fames que Patr\u00edcia vai ainda demonstrando quando diz: \u201cAmor, eu amo-te\u201d. Tamb\u00e9m ele assume ter \u201cum bocadinho\u201d de ci\u00fames e \u201cvai ao ar\u201d com uma amiga de ambos que \u201cse mete no meio\u201d e faz muitos coment\u00e1rios. \u201cE eu n\u00e3o gosto\u201d, admite Carlos. \u201cFora isso ela n\u00e3o faz nada\u201d, garante Patr\u00edcia.<\/p>\n<p>O Centro de Atividades Ocupacionais e Lar Residencial Alecrim da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia tem 17 clientes &#8211; \u201ctr\u00eas deles v\u00e3o dormir a casa, os restantes residem no lar\u201d \u2013 e a maioria tem idade avan\u00e7ada o que explica, segundo a diretora t\u00e9cnica do Alecrim, Lu\u00edsa Rocha, o facto de, no dia-a-dia estas quest\u00f5es parecerem \u201cadormecidas\u201d e n\u00e3o constitu\u00edrem desafios maiores para a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-512 alignleft\" src=\"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa_4.fw_-247x300.png\" alt=\"\" width=\"268\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa_4.fw_-247x300.png 247w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa_4.fw_-768x934.png 768w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa_4.fw_-842x1024.png 842w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa_4.fw_.png 980w\" sizes=\"auto, (max-width: 268px) 100vw, 268px\" \/><br \/>\n\u201cTemos o caso de um utente e de uma utente que dizem que namoram. E a verdade \u00e9 que o utente quando vai a casa traz flores e presentes. Mas n\u00e3o passa disso. Nunca houve necessidade de lhes explicar o que era um relacionamento porque t\u00eam um relacionamento que parece de crian\u00e7a\u201d, refere Lu\u00edsa Rocha. Limitam-se a querer \u201cestar mais pr\u00f3ximos um do outro\u201d nas atividades e assumem-se namorados. Acabam por passar despercebidos porque \u201cde uma forma geral d\u00e3o-se todos muito bem e t\u00eam todos uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima\u201d. \u201cOs mais aut\u00f3nomos protegem os mais dependentes\u201d, acrescenta a diretora t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Rocha diz que \u201ca sociedade ainda precisa de abrir muito a mente, sobre este tema e de uma forma geral sobre a defici\u00eancia\u201d. \u201cA sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho \u00e9 que as pessoas olham para eles como coitadinhos, outras vezes afastam-se. Deve-se lidar com a defici\u00eancia com naturalidade porque faz parte da vida, mas as pessoas n\u00e3o conseguem. Os clientes do Alecrim lidam t\u00e3o bem com o que t\u00eam e s\u00e3o felizes. Eles d\u00e3o-nos mais do que o que pedem\u201d, termina.<\/p>\n<h3>Forma\u00e7\u00e3o em Sexualidade&amp;Afetos<\/h3>\n<blockquote>\n<h2>\u201cA sexualidade n\u00e3o significa o mesmo que coito e n\u00e3o se restringe \u00e0 fase org\u00e1stica: \u00e9 muito mais do que isso, \u00e9 a energia que motiva a procura do amor, \u00e9 o contacto e a intimidade que se expressa no modo de sentir e no modo das pessoas tocarem e serem tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, a\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es, bem como a sa\u00fade f\u00edsica e a sa\u00fade mental\u201d Tese \u201cViv\u00eancia da Sexualidade da Pessoa com Defici\u00eancia Mental Profunda: Perspetiva dos Pais e dos Profissionais\u201d de Filipa Silva<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>Os familiares dos clientes do Alecrim raramente acompanham o dia-a-dia da institui\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o poucos os clientes que t\u00eam pais, por isso, a sexualidade e os afetos nunca chegaram a ser um assunto que tivesse de ser discutido com a fam\u00edlia. \u201cNunca foi um tema muito falado c\u00e1, mas a sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho, \u00e9 que as pessoas t\u00eam sensibilidade para isso aqui dentro\u201d, admite a diretora t\u00e9cnica do Alecrim.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-501 alignleft\" src=\"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa5.fw_-300x202.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa5.fw_-300x202.png 300w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa5.fw_-768x517.png 768w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa5.fw_-1024x689.png 1024w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/alecrim_sa5.fw_.png 1492w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Lu\u00edsa Rocha acredita que \u00e9 um tema que continua a ser tabu, n\u00e3o \u00e9 muito falado pela sociedade, nem pelas institui\u00e7\u00f5es. \u201c\u00c9 importante haver forma\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea para se refletir sobre esse assunto\u201d, defende.<\/p>\n<p>Na Cercigui, Carla Fran\u00e7a garante que \u201cos t\u00e9cnicos t\u00eam forma\u00e7\u00e3o e d\u00e3o forma\u00e7\u00e3o aos seus clientes em fun\u00e7\u00e3o das suas caracter\u00edsticas\u201d. Mas tamb\u00e9m assume que os desafios di\u00e1rios variam, porque \u201cas caracter\u00edsticas dos jovens s\u00e3o muito distintas\u201d. Se os jovens do Centro de Forma\u00e7\u00e3o e Reabilita\u00e7\u00e3o Profissional (CRFP) \u201ct\u00eam carater\u00edsticas mais aut\u00f3nomas e viv\u00eancias mais independentes\u201d, j\u00e1 os jovens do Centro de Atividades Ocupacionais \u201cexigem uma forma\u00e7\u00e3o, um apoio e uma aten\u00e7\u00e3o diferentes\u201d. \u201cOs maiores desafios surgem quando os jovens querem ter uma maior intimidade. H\u00e1 um caminho a percorrer na aceita\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias ao n\u00edvel de uma maior intimidade\u201d, confessa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a psic\u00f3loga da Cercigui considera importante \u201ccontinuar a assegurar e a promover a capacidade de escolha como sendo fundamental para o desenvolvimento de cada pessoa\u201d. Quer seja ao n\u00edvel daquilo que veste, a atividade que quer desenvolver, a institui\u00e7\u00e3o onde quer estar, em quem quer votar e com quem quer namorar. \u201cTodos os t\u00e9cnicos, procuram ser um facilitador na comunica\u00e7\u00e3o, na partilha de d\u00favidas, na informa\u00e7\u00e3o, no adotar de uma atitude de maior aceita\u00e7\u00e3o e de respeito pelas escolhas e decis\u00f5es de cada jovem\u201d, garante Carla Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>O N\u00facleo de Inclus\u00e3o, Comunica\u00e7\u00e3o e Media que tem uma sec\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre este tema no site da revista digital Plural&amp;Singular promoveu em setembro do ano passado uma a\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o e de sensibiliza\u00e7\u00e3o sobre as especificidades da sexualidade e dos afetos vivenciados por pessoas com defici\u00eancia e seniores, dirigida a t\u00e9cnicos e familiares.<\/p>\n<p>V\u00e1rios representantes de institui\u00e7\u00f5es de Guimar\u00e3es, incluindo da Cercigui e do Alecrim, participaram nesta a\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o e de sensibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A iniciativa aconteceu no \u00e2mbito do projeto \u201cN\u00f3s, os cuidadores\u201d da Plural&amp;Singular, e por isso contou tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o dos cuidadores que integram as sess\u00f5es de apoio psicol\u00f3gico orientadas pela psic\u00f3loga cl\u00ednica Marta Freitas. Foi um momento em que todos os participantes tiveram a oportunidade de refletir em conjunto sobre o tema, ao mesmo tempo que se desconstru\u00edam os estere\u00f3tipos e os tabus associados \u00e0s pessoas com defici\u00eancia e ao envelhecimento.<\/p>\n<p>A falta de informa\u00e7\u00e3o deu sempre azo a imensos preconceitos, quer a n\u00edvel familiar, quer das pessoas sem defici\u00eancia e dos profissionais. Num pre\u00e2mbulo sobre os clich\u00e9s associados \u00e0s pessoas com defici\u00eancia facilmente se detetam dois grupos: ou s\u00e3o hiperssexualizadas ou s\u00e3o assexuais. Por um lado, julga-se que as pessoas com defici\u00eancia, normalmente f\u00edsica, n\u00e3o s\u00e3o capazes de ter e de viver rela\u00e7\u00f5es sexuais, que n\u00e3o t\u00eam libido e por outro, normalmente as pessoas com defici\u00eancia intelectual est\u00e3o excessivamente interessadas no sexo e n\u00e3o s\u00e3o capazes de controlar o seu comportamento sexual.<\/p>\n<p>Segundo o sex\u00f3logo Jorge Cardoso estes preconceitos t\u00eam s\u00e9culos de ra\u00edzes que se foram consolidando e remetem a defici\u00eancia para uma dimens\u00e3o inferior que tende a ser alvo de desqualifica\u00e7\u00e3o. \u201cEnt\u00e3o a sexualidade que n\u00f3s, a matriz social, tendemos a percecionar como apan\u00e1gio de quem? De pessoas saud\u00e1veis, de pessoas novas e, preferencialmente, do ponto de vista est\u00e9tico, bonitas, com bons atributos de corpos trabalhados no gin\u00e1sio e afins, com restri\u00e7\u00f5es alimentares que permitam depois essa exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica do corpo\u201d, descreve o sex\u00f3logo.<\/p>\n<blockquote>\n<h2>\u201cDa mesma maneira que se falam de outros assuntos tamb\u00e9m se deve falar de coisas t\u00e3o b\u00e1sicas como o corpo, as diferentes partes do corpo, as diferen\u00e7as do corpo do rapaz e da rapariga, a exist\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os genitais e para que servem. A masturba\u00e7\u00e3o como qualquer coisa normal mas que tem requisitos pr\u00f3prios, como, por exemplo, o espa\u00e7o privado, como, por exemplo, a higiene. E se tiverem aptid\u00f5es cognitivas para mais, vamos explicar mais. Que a sexualidade deve ter uma base relacional que implica respeitar a vontade do outro, que implica o desenvolvimento de todo um conjunto de afetos\u2026\u201d Sex\u00f3logo Jorge Cardoso<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h3>Dia dos Namorados<\/h3>\n<p>S\u00e3o os dois cegos e ambos t\u00eam 19 anos. Eduarda Azevedo e Duarte Sousa conheceram-se nas atividades promovidas pela ACAPO a n\u00edvel nacional. Ele \u00e9 de Viseu e estuda Direito no Porto. Ela \u00e9 de Guimar\u00e3es e estuda M\u00fasica em Aveiro. \u201cNas Olimp\u00edadas do Braille, no nosso escal\u00e3o, a luta era sempre entre mim e ele, por isso come\u00e7ou por ser um rival, de uma forma saud\u00e1vel. J\u00e1 nos conhecemos h\u00e1 bastantes anos, sempre fomos amigos\u201d, come\u00e7a por situar Eduarda Azevedo.<\/p>\n<p>Em jeito de brincadeira, a jovem vimaranense acabou por dizer que o facto de serem os dois cegos faz com que consigam ver \u201cmais facilmente o lado humano da pessoa sem qualquer tipo de obje\u00e7\u00f5es f\u00edsicas\u201d. \u201cSe calhar quando se sai, v\u00ea-se uma pessoa e diz-se: \u2018Este \u00e9 bonito, vou meter conversa\u2019. No nosso caso isso n\u00e3o \u00e9 assim. Acaba por ser mais genu\u00edna a primeira abordagem porque n\u00e3o \u00e9 pelas caracter\u00edsticas f\u00edsicas\u201d, considera.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s redes sociais come\u00e7aram a falar cada vez mais e a conhecerem-se melhor. \u201cE fomo-nos aproximando e criando cada vez mais liga\u00e7\u00e3o\u201d, conta.<\/p>\n<p>Os que julgam que o facto de terem ambos defici\u00eancia visual torna tudo mais dif\u00edcil est\u00e3o enganados: \u201cAt\u00e9 ajuda a criar mais liga\u00e7\u00e3o. Passamos os dois pelos mesmos problemas, pelos mesmos obst\u00e1culos, pelos mesmos desafios pelo que vamos enfrent\u00e1-los juntos, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Acaba por ser, no fundo, um fator de liga\u00e7\u00e3o, ultrapassar isso juntos\u201d, reflete.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-495 alignleft\" src=\"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/eduarda.fw_-300x225.png\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/eduarda.fw_-300x225.png 300w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/eduarda.fw_-768x576.png 768w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/eduarda.fw_.png 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/p>\n<p>Para Eduarda Azevedo a cegueira \u00e9 como outra caracter\u00edstica qualquer, como ser alto, baixo, gordo ou magro, louro ou moreno. Mas admite que n\u00e3o escapam \u00e0 curiosidade das pessoas: \u201cOlha dois cegos juntos\u201d. Mas lidam com as potenciais abordagens na rua \u201ccom tranquilidade\u201d.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias j\u00e1 se conhecem e \u201cnunca houve qualquer tipo de problema\u201d por ambos serem cegos. Do futuro da rela\u00e7\u00e3o, pouco se falou. Est\u00e3o focados nos estudos e, por isso, n\u00e3o se imaginam t\u00e3o cedo a ter filhos. Os desafios de serem dois pais cegos de filhos normovisuais ainda n\u00e3o \u00e9 algo que os preocupe para j\u00e1. \u201cN\u00f3s nascemos assim estamos habituados a esta realidade, este \u00e9 o nosso mundo. Conhe\u00e7o casais cegos com filhos. Os filhos adaptam-se, n\u00e3o s\u00e3o cegos e habituam-se a essa realidade e, possivelmente, at\u00e9 tem esse lado bom de aprendizagem por terem os pais cegos\u201d, constata a jovem vimaranense.<\/p>\n<p>Ah, no dia 14 de fevereiro Eduarda Azevedo vai estar no hospital a preparar-se para uma opera\u00e7\u00e3o ao ouvido para reparar uma perfura\u00e7\u00e3o do t\u00edmpano. \u201cVai ser um dia diferente\u201d, refere divertida.<\/p>\n<blockquote>\n<h2>\u201cTenho imagem mental f\u00edsica, mas mais importante do que isso s\u00e3o as caracter\u00edsticas dele e quando penso nele, s\u00f3 penso mesmo nessas caracter\u00edsticas\u201d. Eduarda Azevedo<\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>Patr\u00edcia Oliveira e Carlos Martins almo\u00e7am sempre juntos no Dia de S\u00e3o Valentim. \u201cO ano passado fomos ao Espa\u00e7o Guimar\u00e3es, quem pagou a comida foi ele. E eu paguei os gelados. Ele \u00e9 chocolate, eu \u00e9 morango\u201d, lembra Patr\u00edcia Oliveira.<\/p>\n<p>O dia 14 de fevereiro \u00e9 um dia especial e muito importante para ambos. Patr\u00edcia est\u00e1 a pensar levar um vestido e quem sabe pintar-se. \u201cVamos comer fora. H\u00e1 duas senhoras que est\u00e3o a tramar alguma coisa, agora, o que \u00e9 n\u00e3o sei\u201d, acrescenta a jovem vimaranense.<\/p>\n<div id=\"attachment_489\" style=\"width: 342px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-489\" class=\"wp-image-489\" src=\"http:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/carlos-e-patricia.fw_-206x300.png\" alt=\"\" width=\"332\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/carlos-e-patricia.fw_-206x300.png 206w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/carlos-e-patricia.fw_-768x1120.png 768w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/carlos-e-patricia.fw_-702x1024.png 702w, https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/carlos-e-patricia.fw_.png 899w\" sizes=\"auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><p id=\"caption-attachment-489\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Martins trabalha um dia por semana na empresa Guimanos a dobrar a roupa e Patr\u00edcia Oliveira na Alfa como ajudante de cozinha.<\/p><\/div>\n<p>A Cercigui, todos os anos, proporciona aos respetivos casais a possibilidade de celebrarem o Dia dos Namorados a dois. \u00c9 por isso que a Patr\u00edcia e o Carlos conseguem almo\u00e7ar juntos fora da institui\u00e7\u00e3o. \u201cNa Cercigui procura-se ter uma atitude de aceita\u00e7\u00e3o e respeito pelas din\u00e2micas de cada jovem\u201d, revela Carla Fran\u00e7a. A psic\u00f3loga acrescenta ainda que \u201c\u00e9 preciso promover a sexualidade e os afetos enquanto parte integrante da vida de cada um\u201d porque \u00e9 um importante contributo \u201cpara o equil\u00edbrio f\u00edsico e psicol\u00f3gico\u201d de todos.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o procura ir de encontro \u00e0s necessidades dos clientes e das fam\u00edlias, embora as fam\u00edlias tenham uma maior dificuldade em \u201ccomunicar\u201d sobre este tema. \u201cAinda h\u00e1 sil\u00eancios\u201d, resume a psic\u00f3loga da Cercigui.<br \/>\nCarla Fran\u00e7a descreve que as fam\u00edlias continuam a revelar atitudes super protetoras face aos seus filhos. \u201cAceitam e exprimem atitudes de toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos direitos mas quando se trata do seu filho ou filha os medos voltam a surgir\u201d, explica. \u201cQuase todos, aceitam que os seus filhos v\u00e3o almo\u00e7ar no dia dos namorados, fora da institui\u00e7\u00e3o, num almo\u00e7o a dois, mas se fosse um fim-de-semana a dois, tenho s\u00e9rias duvidas que tal fosse poss\u00edvel para a maioria dos nossos casais\u201d, continua.<\/p>\n<p>\u201cAgora \u00e9 casar\u201d. Refere o Carlos, um desejo que a Patr\u00edcia tamb\u00e9m partilha. \u201cUma noiva mais bonita, a entrar numa igreja\u201d, refere. Imagina-se com v\u00e9u e um vestido comprido. \u201cBege ou branco, tanto faz\u201d, acrescenta. \u201cEu de fato cinzento. J\u00e1 tenho as cal\u00e7as e tenho o casaco\u201d. A verdade \u00e9 que o Carlos j\u00e1 pediu a Patr\u00edcia v\u00e1rias vezes em casamento. \u201cEle chega \u00e0 minha beira. \u2018\u00d3 d\u00e1-me a m\u00e3o\u201d, eu dou-lhe a m\u00e3o. \u2018Aceitas casar comigo?\u2019 E eu aceito\u201d. \u201cPrimeiro eu ajoelho-me\u201d, completa Carlos. \u201cCasar, ter uma casa s\u00f3 para n\u00f3s\u201d, continua a sonhar Patr\u00edcia. \u201cGostava de ter f\u00e9rias eu e ele\u201d. E sabe onde gostava de ir. \u201cAo Brasil\u201d, responde Patr\u00edcia. \u201cEu vou com ela\u201d, atira Carlos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa esp\u00e9cie de \u201crescaldo\u201d do Dia dos Namorados, celebrado anualmente a 14 de fevereiro, vamos falar sobre amor. O amor sem r\u00f3tulos. Falar sobre a afetividade, o toque, os gestos, as palavras, os pensamentos, os sentimentos, as a\u00e7\u00f5es e as intera\u00e7\u00f5es. Nada mais interessa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":493,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-483","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=483"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/483\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":524,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/483\/revisions\/524"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/forumdeficiencia.guimaraes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}