Bodas de Pérola da APCG: 30º anos de crescimento e impacto

PorFórum

Bodas de Pérola da APCG: 30º anos de crescimento e impacto

A celebração dos 30 anos da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães (APCG) é um marco a celebrar e que traduz a notável evolução e impacto desta instituição na comunidade local. Fundada em 1994, a APCG começou de forma humilde, com instalações e uma equipa pequenas, mas com uma missão clara: apoiar pessoas com paralisia cerebral e outras deficiências.

Nos primeiros anos, a APCG funcionou em instalações provisórias, localizadas nas traseiras da Santa Casa da Misericórdia, junto à capela mortuária. Foi um início modesto, com uma equipa que oferecia serviços de reabilitação ambulatória, uma abordagem, embora limitada, que já demonstrava o compromisso da APCG com a melhoria da qualidade de vida dos seus beneficiários.

As instalações em Pencelo

Durante os primeiros 10 anos, as crianças e os jovens participavam nas terapias e voltavam para as respectivas casas ou escolas. Mas, depois de uma década nestas condições, foi possível em 2004 inaugurar as instalações atuais localizadas em Pencelo. 

“Os pedidos começaram a surgir, os jovens que entraram em (19)94 começaram a crescer e as necessidades também”, começa por explicar a diretora técnica, Cláudia Esteves. “Com a vida adulta a aproximar-se, colocou-se então o desafio de crescer em edifício e crescer em número de respostas sociais que abarcassem todas as necessidades que estavam a surgir”, acrescenta.

O atual edifício da APCG tem um design arquitectónico muito específico para a população que esta organização vimaranense atende. Passou de cerca de 20 atendimentos para 122 atendimentos em reabilitação, a Equipa Local de Intervenção (ELI) atende mais de 80 pessoas, existem 30 pessoas com deficiência a frequentar o Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) e estão 18 utentes em Lar Residencial. 

Este crescimento também se refletiu no aumento do número de colaboradores, e agora esta entidade conta com uma equipa robusta e especializada para atender as diversas necessidades dos utentes. 

Há falta de recursos humanos – tanto assistentes operacionais como profissionais especializados – mas o perfil profissional procurado, além da experiência comprovada, dá preferência a pessoas “que gostem de cuidar”. “Que gostem de prestar serviços de cuidados de saúde, cuidados de higiene, cuidados de alimentação e que sejam flexíveis e dedicados”, enumera a diretora técnica.

“São utentes extremamente carinhosos, afetuosos, com as suas necessidades, as suas expectativas e requerem alguma maturidade e humanismo para se conseguir gerir o dia-a-dia”, completa Cláudia Esteves.

Joaquim Oliveira é presidente da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães há 18 anos e é deste período que sente que tem autoridade para falar. Já estava, antes de ser eleito, ligado à instituição enquanto contabilista da mesma e conhecia os desafios que a gestão financeira de uma entidade como esta apresenta. Volta a frisar ao Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência a importância da Segurança Social rever as condições dos protocolos celebrados, nomeadamente, no que diz respeito aos vencimentos dos colaboradores: quer o facto de se pagar os subsídios de férias e de natal, mas também o pagamento de impostos e contribuições obrigatórias que, segundo defende, deviam ser revistos nos casos de instituições sociais. 

A aposta na visibilidade da instituição

Atualmente, a APCG oferece uma ampla gama de serviços, incluindo diversos programas sociais, projetos e atividades pontuais promovidas por uma equipa habituada a fazer “omeletes sem ovos”. 

Os grupos de ajuda mútua pretendem, de 15 em 15 dias, garantir que haja um contacto regular entre a instituição e os respectivos clientes garantindo a manutenção do vínculo mais informal que possa existir com aqueles que não sejam seguidos em nenhuma das valências referidas anteriormente e, desta forma, não deixar ninguém “perdido” e “abandonado”. “Portanto, tentamos encontrar aqui respostas mais híbridas e criativas, de forma a manter este vínculo e alguma supervisão, ajuda e apoio”, revela Cláudia Esteves.

A Caminhada da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães “Pessoas Diferentes, Direitos Iguais” tem vindo a dar a conhecer a instituição e a permitir a criação de laços com a comunidade vimaranense que, cada vez mais, se mobiliza para participar neste evento.

Esta iniciativa anual desdobra-se numa caminhada de cinco quilómetros, uma mini-maratona de onze e um percurso de cadeira de rodas de 600 metros. A prova costuma percorrer a cidade até à Pista de Atletismo Gémeos Castro, onde os três primeiros classificados recebem os prémios de classificação.

Esta iniciativa, que habitualmente acontece em setembro, engloba uma caminhada, mini-maratona e um percurso de cadeira de rodas que se realiza há 14 anos com o objetivo de sensibilizar a opinião pública para o direito à igualdade e à não-discriminação, dando também alguma notoriedade ao desporto adaptado em Guimarães. “É sempre no domingo depois da procissão à Penha. A procissão à Penha é no segundo domingo do mês [de setembro], a nossa caminhada é no terceiro”, diz o presidente da direção da APCG, Joaquim Oliveira. 

“Esta foi uma das iniciativas que sentimos que projetou muito a instituição na comunidade. Sentíamos que a APCG, muitas vezes, não era (re)conhecida, que as pessoas não sabiam muito bem o que éramos, o que fazíamos, que população atendíamos e, portanto, encontrámos na caminhada e com a projeção que ela nos traz, uma forma de dar visibilidade à APCG”, diz Cláudia Esteves.

Iniciada em 2007, esta atividade não só aumentou a visibilidade da APCG, mas também promoveu um maior entendimento e apoio por parte da população local. Essas ações foram fundamentais para desmistificar o trabalho da APCG e mostrar o impacto positivo que a associação tem na vida das pessoas com deficiência.

A integração da APCG na comunidade foi impulsionada por várias iniciativas de sensibilização e eventos, mas a celebração do Dia Nacional da Paralisia Cerebral ganhou uma importância especial. 

A saga da prescrição dos produtos de apoio

Um dos principais desafios mencionados foi a gestão do centro prescritor de produtos de apoio e a falta de condições efetivas para o respetivo funcionamento. Embora a APCG ofereça este serviço essencial de forma gratuita, enfrenta limitações devido à falta de financiamento específico e à necessidade de alocar recursos internos para estas atividades. “Porque também acaba por ser uma ‘resposta social’ que não é financiada”, aponta a diretora técnica. “Não há protocolos de cooperação, nada. As instituições organizam-se internamente com a equipa que já está alocada a uma resposta social para, em determinados dias, fazer esse tipo de de avaliações”, explica Cláudia Esteves.

A equipa da APCG, apesar de não receber financiamento direto da Segurança Social para este serviço, continua a prestar apoio com dedicação e profissionalismo.

“Já falámos com a Segurança Social. Existem alguns grupos de discussão que já vão apresentando algumas alternativas ao Governo, porque, de facto, a dificuldade que a APCG sente, todas as instituições que são centro prescritores, também sentem. E, portanto, estamos a tentar chegar a quem de direito para tentar mudar ou alterar o processo e modus operandi”, analisa.

“Sabemos que o processo de análise, na Segurança Social é, por si, complexo. Se os centros prescritores também tiverem tempos de espera elevados para a avaliação, quando o produto de apoio é aprovado, podemos deparar-nos com um utente com mais necessidades, e o produto estar já desajustado”, avalia Cláudia Esteves.

O passado e o futuro: A Pandemia de Covid-19 e as valências sonhadas

Usando as palavras de Cláudia Esteves, “a pandemia do Covid-19 foi “um desafio brutal para a instituição” porque implicou uma mudança radical em termos de procedimentos, regras e horários dos recursos humanos. “Tivemos que nos organizar até em termos espaciais, porque não queríamos estar sem ter o apoio de CACI tantos meses seguidos”, lembra. Muitas instituições, infelizmente, não tiveram alternativa e tiveram que fechar. Mas a APCG, graças à colaboração da Junta de Freguesia de Pencelo, conseguiu com um espaço extra manter o CACI aberto fazendo exatamente o mesmo atendimento. “Obviamente que não tínhamos uma piscina a funcionar, não tínhamos os cavalos, não tínhamos a musicoterapia, não tínhamos o yoga porque tínhamos essas restrições, mas pelo menos aquele apoio das 9h às 5h da tarde, com as refeições, com as dinâmicas, com as rotinas, isso continuou a acontecer”, recorda.

Houve um investimento elevado também em produtos de proteção individual e, em termos de lar residencial, também foi um esforço económico para a direção, porque os salários tiveram que ser ajustados às horas que as colegas faziam. “Por conta dos horários em espelho, das 12 horas consecutivas e dos sete dias consecutivos”, acrescenta Joaquim Oliveira. “Primeiro fomos elogiados pela saúde pública, pela forma exemplar com que gerimos esta situação nova, porque realmente conseguimos estar até abril de 2022 sem casos”, refere orgulhoso. “Graças também aos colaboradores que foram sempre exímios cumpridores daquilo que eram as regras básicas”, acrescenta Cláudia Esteves.

Ao longo dos anos, a APCG enfrentou vários desafios, especialmente em relação à gestão dos serviços de apoio e à adequação às mudanças verificadas nas necessidades dos utentes e respectivas famílias que têm vindo a passar por um processo de envelhecimento. 

Em termos de respostas sociais, a APCG não deixa de lado o interesse em apostar na constituição de um Centro de Apoio à Vida Independente que, inclusivamente, já teve oportunidade de se candidatar duas vezes mas com respostas indeferidas. 

Inspirados pelo exemplo da Villa Urbana da Associação do Porto de Paralisia Cerebral, Joaquim Oliveira e Cláudia Esteves partilham também o sonho de construir residências autónomas, para clientes que possam ser mais autónomos, mesmo precisando de uma retaguarda de apoio permanente. 

“É muito interessante, as pessoas entram e saem conforme pretendem, com todas as necessidades garantidas, quase como se fosse um condomínio fechado”, refere. “Não digo que seja para já, mas gostávamos bastante de concretizar o projeto das residências autónomas”, idealiza.

Novo espaço da APCG já foi inaugurado

As obras de ampliação da Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães estão, finalmente, concluídas, e o novo espaço físico desta instituição foi inaugurado no dia 24 de maio, num evento que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança e da Secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes.

Com a ampliação da estrutura, a APCG regista um aumento de 30 lugares tanto no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) como na valência de lar, duplicando a atual capacidade de resposta.

A obra contou com o apoio do programa Norte 2020 mas o atraso de execução teve uma derrapagem orçamental colmatada também pela solidariedade dos vimaranenses que foram manifestando disponibilidade para ajudar sempre que a instituição fez apelos nesse sentido.

“A obra que estava projetada para um milhão e meio de euros”, começa por explicar Joaquim Oliveira. A recuperação pós-pandemia e a guerra na Ucrânia, entre outros fatores, motivaram uma espiral de inflação que afetou a área da construção civil e o aumento dos custos de materiais fez com que o custo da obra aumentasse em um milhão e 400 mil euros.  

As obras de ampliação da APCG deveriam estar concluídas em dezembro de 2023, no entanto, devido à falta de mão-de-obra e de materiais, estava previsto que o novo espaço físico desta instituição ficasse pronto no final do ano passado.

Em ano de aniversário, há um motivo extra para celebrar os 30 anos desta instituição vimaranense instalada em Pencelo. E foi o presidente da APCG, Joaquim Oliveira, que fez as honras da casa, enquanto anfitrião, de orientar os convidados durante a visita às novas instalações desta organização social que, em três décadas, tem vindo a prestar serviços e a apoiar muitas pessoas com deficiência deste concelho.

A vistoria ao novo equipamento foi realizada, o alvará já foi aprovado, só falta formalizar o protocolo de funcionamento com a Segurança Social para começarem a trabalhar.

No futuro, além da concretização das novas valências, também se prevê, quando existir uma folga orçamental, investir em obras de manutenção da “velha obra”, cujo edifício apresenta “problemas muito sérios”.

As comemorações dos 30 anos de existência

A Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães completa, este ano, 30 anos. Uma data incontornável, e, por esse motivo, as comemorações já começaram. 

A programação divide-se entrecoisas mais sérias e coisas mais festivas” tendo sido a inauguração do novo equipamento o pontapé de saída para as iniciativas programadas que culminam na celebração do Dia Nacional da Paralisia Cerebral.

A 28 de maio, realizou-se a conferência “Diferentes Olhares sobre a Inclusão”, cujos palestrantes abordaram diferentes temáticas, tendo sido um evento dedicado à apresentação do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio e Acessibilidades e à divulgação de projetos artísticos que envolvem pessoas com deficiência, nomeadamente o “Era uma vez…Teatro” da APPC e a “Cromossoma X” que resulta da parceria da APCG com a companhia de dança Flávia Pontes. 

“Pareceu-nos muito interessante trazer a contribuição dos palestrantes e eu fiquei muito satisfeita com o resultado final. Tivemos muita felicidade em ver aquilo cheio. Mais cadeiras houvesse, se calhar também conseguimos ter mais gente”, avalia.

Este evento foi coorganizado com a Câmara Municipal de Guimarães e realizou-se no Instituto de Design de Guimarães.

No dia 15 de junho realizou-se o jantar de aniversário mais intimista e dirigido aos fornecedores, mecenas, colaboradores, clientes, familiares e amigos. “No fundo a quem nos patrocina, a quem nos ajuda durante todos estes anos.

“Com um momento de animação pronto, mas uma coisa assim mais comedida”, avalia Cláudia Esteves.

Mas o auge destas festividades acontece na Gala de Aniversário, que se realiza no dia 20 de Julho, mas cujo alinhamento ainda está “no segredo dos deuses” . “Vamos mostrar o que valemos,vão ficar surpreendidos com o que estamos a preparar e não posso dizer muito mais”, comenta Cláudia Esteves.

O futuro da APCG parece promissor, com planos para continuar a expandir e melhorar os seus serviços. A associação está comprometida em continuar a lutar por melhores condições e apoio para as pessoas com deficiência, trabalhando em estreita colaboração com a comunidade para garantir que as necessidades dos utentes sejam atendidas de forma eficiente e eficaz. A gestão não é fácil quando os recursos são limitados e é o próprio presidente que o sublinha: Nós queríamos era dar mais resposta a todos”. “Uma pessoa precisar de fisioterapia cinco vezes por semana e só ter duas porque não há hipótese, porque há outras que também precisam”, começa por referir. “Isso é que é mau. Nós deveríamos ter possibilidades de lhes dar os cuidados todos necessários e se for preciso cinco vezes por semana ter a possibilidade de dar cinco vezes por semana. Mas nós para darmos cinco vezes por semana vamos estar a tirar a outra pessoa que já só tem uma vez ou duas”, termina. 

“Nós não queremos mandar ninguém embora. Nós queríamos era dar mais resposta a todos. Não era abandonar ninguém. E é evidente que os pais muitas vezes não compreendem. Eu se tivesse no lugar deles também não compreendia. Porque o que eu queria é que o meu filho, se precisasse de cinco sessões, tivesse cinco sessões. Mas nós também não somos imensos. Vontade temos nós”. Joaquim Oliveira

Os 30 anos da APCG representam uma jornada de dedicação, crescimento e transformação. Desde os seus primeiros passos até se tornar uma instituição respeitada e vital para a comunidade de Guimarães, a APCG demonstrou que, com perseverança, visão e trabalho, é possível fazer a diferença na vida das pessoas com paralisia cerebral e outras deficiências. 

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