Agora vamos falar de um calendário de advento. Nada de novo. Mas este não é um calendário de advento qualquer. Este projeto, por um lado, aquece qualquer coração, mas por outro, também o faz bater mais depressa só de pensar no tamanho do desafio. No Centro e Lar Inclusivos do Polo do Paraíso do Centro Social de Brito (CLIPP) está em marcha, há meses, uma verdadeira maratona criativa e solidária: a construção de um calendário do advento megalómano, que promete encantar e unir toda a comunidade neste Natal.
Trata-se de um livro gigante a imitar a versão tradicional de capa vermelha e grafia dourada que, depois de aberto, revela 24 caixinhas com desenhos a ilustrar a história criada pelos utentes da instituição. Mas, além da versão escrita desta história, existe na zona central do livro 24 botões que acionam a versão audiobook deste conto de Natal.
O plano é ambicioso: mil calendários artesanais, com histórias narradas e escritas, bombons, e um sem-fim de pequenos pormenores que fazem toda a diferença. No total, o projeto envolve: mil sistemas de áudio para ouvir a história gravada, 24 mil caixas para as versões em papel das histórias e para os chocolates, que sublinhe-se, são também 24 mil bombons. A isto somam-se duas mil fitas para fechar esta doce e gigante história, cerca de 50 mil números para assinalar a contagem regressiva até a Véspera de Natal e, claro, muita cola, tinta, paciência e dedicação.
Entre pincéis, tintas e pedaços de cartão, uma das histórias mais surpreendentes deste projeto é a do Diogo Leite, que no início não conseguia sequer entrar na sala de pintura.
Tinha aversão à tinta, ao toque pegajoso, ao cheiro, não queria sujar as mãos. “Ele não queria usar tinta, nem luvas — e mesmo com luvas não se sentia bem”, recorda a técnica Elsa Castro, entre um sorriso orgulhoso e emocionado. “Não é, Diogo? Tu não querias, pois não? O que é que te chateava?”, comenta a monitora. “Era a tinta. Eu gosto muito”, responde Diogo. “Agora gostas, mas antes, o que é que te chateava? O cheiro?”, interroga Elsa Castro. “Não, não, as luvas”, responde novamente Diogo. “É que ele não queria sujar as mãos e tinha que calçar luvas”, contextualiza a técnica.
Mas, com o tempo, o Diogo começou a arriscar e, hoje, é um dos mais empenhados da equipa, dominando já a técnica de segunda mão, responsável pelos acabamentos de pintura dos calendários. “Ele ultrapassou várias barreiras. E nós fizemos questão de o parabenizar e falar com a família. E dizer-lhe que ele está mesmo a ser a revolução do calendário deste ano”, afirma Elsa Castro.
Os participantes do CLIPP, pessoas com diferentes perfis de incapacidades, estão no centro de todo o processo: pintam, colam e montam, e dão mostras de que a criatividade e o talento não têm limites.
A Mariana Gomes é a mais dedicada e, por ela, não trocava esta atividade por nenhuma outra. O João Silva é um dos participantes neste projeto que já passou pelas várias tarefas que têm que ser executadas: primeira e segunda demãos, corte das fitas, colocação das pilhas nos dispositivos de áudio, por sinal a que mais gosta. Garante que não se sente cansado, embora esteja ansioso por ver o calendário pronto para se vender.
Além do trabalho manual, há também uma dimensão tecnológica: o sistema de áudio permite que as histórias possam ser ouvidas, tornando o calendário acessível a pessoas com deficiência visual ou dificuldades de leitura. Esta solução representa uma forma de garantir que todas as pessoas possam sentir o encanto da contagem decrescente até ao Natal.
“O nosso calendário é muito bonito, sempre foi, mas numa conversa entre todos, e também entrou aí muito o grupo de Autorrepresentantes, achámos que o calendário não era inclusivo”, admitiu Elsa Castro. “Ou seja, era feito por eles, aí incluíamos na construção, e depois, para ser visto e usado, não estava a ser inclusivo”, confessa a monitora.
A equipa e os utentes decidiram que este ano o calendário de advento tinha que chegar a mais pessoas: “E através da história, que eles já andavam a pedir há algum tempo, conseguimos torná-lo inclusivo”, começa por explicar a monitora. “Conseguimos criar um dispositivo de áudio para as pessoas invisuais, adaptamos a história a um texto mais simples, as pessoas que não conseguem ouvir ou ler, conseguem perfeitamente idealizar o seguimento de uma história através dos desenhos”, descreve. “Foi tudo pensado para essa parte mais inclusiva, e esperemos que nos próximos anos ainda seja mais”, remata Elsa Castro.
Ao longo dos meses, o projeto transformou-se num verdadeiro laboratório de criatividade e inclusão. Entre mesas cobertas de caixas, tinta e cola, laços, sistemas de áudio e pilhas, sente-se uma energia contagiante e percebe-se um misto de ansiedade e alegria que só quem vê o material a circular e sente o cheiro da cola e tinta no ar compreende.
Todos os calendários de advento criados no CLIPP foram ao encontro das expetativas dos utentes e este não foi exceção. Há muito se sonhava com uma história e, em 2025, finalmente se avançou para a contar. Foi nas reuniões de autorrepresentantes que o conto de natal começou a ganhar forma.
“A história é baseada no apagão”, começa por desvendar Tiago Almeida. “Em que a personagem chamada Simão, escolhida por todos, gostava muito do Natal e achava que os telemóveis já não estavam muito a fazer sentido”, explica.”Então ele queria fazer muitas coisas, mas os pais não ligavam muito ao Simão”. O resto? É esperar que os calendários fiquem prontos e comprar um exemplar desta iniciativa que junta utentes, técnicos, empresários e famílias, todos com este objetivo comum de criar algo especial que simbolize o espírito do Natal e a importância da inclusão.
Quando finalmente os 1000 calendários estiverem prontos, vai-se perceber que cada um deles conta não só uma história de Natal, mas também a própria história de esforço e união do CLIPP do Centro Social de Brito.
E, embora haja um investimento financeiro em materiais que ainda não foi substituído por patrocínios, há um parceiro essencial que todos os anos se junta a este projeto: a empresa Embalcut – Indústria de Embalagens, Lda, onde alguns utentes do CLIPP fazem as respectivas Atividades Socialmente Úteis (ASUs).
“Ou seja, não queremos fazer do calendário uma coisa industrializada a ponto de eles só darem a ideia”, sublinha Elsa Castro. “Nós fazemos sempre o protótipo, tudo à mão, com o cartão que temos. E depois eles estudam também o calendário connosco. O que dá para melhorar, eles até melhoram, sempre em conversa connosco”, descreve a monitora. “Se dá ou não, em termos de produção, não é? Para lhes facilitar”, explica.
“Mas eles têm sempre o cuidado de deixar sempre uma parte do trabalho para os jovens. Ou seja, eles nunca querem, nem nós, que venha um produto feito e seja só a empresa a fazer por nós. Eles preocupam-se que haja sempre uma parte que os jovens conseguem fazer, que é o trabalho deles”. Elsa Castro
E este requisito de garantir que cada participante tem o seu papel e deixa a sua marca foi plenamente cumprido. E, por isso, o Calendário do Advento do CLIPP é muito mais do que um produto: é uma obra coletiva, um testemunho de perseverança e um lembrete de que a magia do Natal acontece quando as pessoas se juntam para criar, algo bonito e inclusivo, juntas.
Vídeo de apresentação do Calendário de advento: https://www.facebook.com/watch/?v=1752541725446167
As encomendas podem ser feitas até 23 de novembro. O Calendário do advento tem um custo de 20 clippinhos
Contactos:
Sede: Rua das Escolas Primárias nº 21, 4805-020 – Brito | Telefone: 253 572 414
Polo Paraíso: Rua do Paraíso nº 812, 4835-612 – São Jorge de Selho | Telefone: 253 772 780
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