Manuel Mendes: “corre” para Tóquio 2020

PorFórum

Manuel Mendes: “corre” para Tóquio 2020

Aos 46 anos o atleta paralímpico Manuel Mendes é pentacampeão ao vencer o Campeonato Nacional Estrada 2019. Prepara-se agora para a Taça do Mundo de maratona do Comité Paralímpico Internacional, prova integrada no programa da Maratona de Londres que decorre a 28 de abril. Mas, em entrevista ao Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães, o vimaranense revelou, que “o grande propósito” deste percurso é estar em Tóquio em 2020 e, quem sabe, trazer outra medalha para a Cidade Berço.

“O meu foco é fazer um percurso natural, época a época, com o grande propósito que é estar em Tóquio em 2020, sem dúvida nenhuma”.

Manuel Mendes

O encontro estava marcado para a hora do almoço no salão de jogos do Pedral do Salgueiral, em Creixomil, Guimarães. Faltavam quatro dias para Manuel Mendes, que representa o emblema vitoriano, participar no Campeonato Nacional Estrada 2019 e assim sagrar-se pentacampeão. Na conversa que antecedeu a entrevista falou na filha de 14 anos e, por isso, o Fórum decidiu começar justamente por aí.

Fórum – Que imagem acha que a sua filha tem de si?
Manuel Mendes (MM) – Eu tento sempre passar que sou uma pessoa como um cidadão comum e como os pais dos amigos dela. A minha filha ainda há pouco tempo chegou a casa e disse “Ó pai aceitaste o pedido de amizade [no Facebook] de um amigo meu e ele ficou todo contente”. E disse-lhe “Sou como o pai de outro miúdo qualquer”. E é assim que eu quero que ela veja o pai, como via antigamente e quero é estar presente o mais possível e ajudar.

Fórum – Ela também gosta de correr?
MM – Ela já passou pelo atletismo mas tem uma amiga que faz voleibol e passou a ir para os treinos do Vitória de voleibol e acho que está a gostar. Ela está numa idade que deve praticar desporto, ser feliz, estar integrada num grupo em que se sinta útil.

Manuel Mendes é casado há 18 anos e, além da filha de 14 anos, prepara-se agora para ser pai de um menino em junho.

Fórum – O voleibol é um jogo de equipa. O atletismo é uma modalidade mais solitária. Sente isso?
MM – O atletismo à primeira vista é um desporto individual. No dia da competição ficamos entregues a nós próprios e àquilo para que nos preparamos. Mas numa preparação de uma prova existe o grupo de treino em que todos nos ajudamos uns aos outros a treinar. E se há algum dia em que um está mais em baixo a força e a disponibilidade de outros membros do grupo faz-nos fazer um bom treino, enquanto que sozinha uma pessoa podia desanimar e nem concluir o treino. Ter um grupo para treinar é fundamental. Para mim acho que é um dos segredos. Um atleta ter um bom grupo de treino onde esteja inserido e assim desenvolver mais facilmente as capacidades que tem.

Fórum – Isso serve para qualquer atleta, seja de alta competição, seja amador?
MM – Obviamente. Pode haver um caso ou outro de uma pessoa que prefira ir fazer o treino sozinho, mas em geral não. Eu corri muitos anos sozinho e treinava na mesma, não com os resultados que obtenho agora, porque treino melhor e de uma forma mais assertiva. Mas não haja dúvidas que em alta competição o facto de teres alguém com quem treinar a um nível que te possa ajudar, até superior ao teu para que te possa incentivar, sais a ganhar certamente.

Fórum – O Manuel corre há muitos anos, olhando para a realidade de Guimarães, vê mais pessoas a correr agora? Está na moda correr?
MM – Não haja dúvidas que o atletismo é uma modalidade em crescendo. E o maior exemplo é que na primeira edição da Maratona do Porto eu e mais dois amigos do Vitória na linha de partida estávamos colados com os quenianos. Não éramos muito mais do que 100 pessoas, 120 pessoas. Estávamos ali mesmo colados aos melhores que vinham para ganhar a competição. E atualmente são 10 mil, 15 mil pessoas a fazer a Maratona do Porto. Também há mais condições e a próprias pessoas estão a adotar um modo de vida mais saudável. O atletismo acaba por ser um desporto em que tanto podes ir em grupo ou sozinho. Se gostas de jogar futebol só vais jogar se houver mais 10 pessoas ou 20 a jogar, se gostas de correr e não houver gente para correr, pegas nos calções e nas sapatilhas e dá para correr.

Fórum – Quando é que começou a correr?
MM – Eu corro, assim por alto, há 20 anos. Comecei a correr com um tio da minha esposa que praticava atletismo de modo amador e entretanto comecei a ganhar aquele gosto.

Fórum – O tio da sua esposa ainda corre?
MM – Não. Ele já abandonou agora. Teve um problema no joelho e abandonou. Faz caminhadas, está na mesma com aspeto saudável.

Fórum – Ele fica contente pelas suas conquistas?
MM – Eu costumo dizer que isto acontece porque ele me meteu no atletismo e ele diz: “Não, o mérito é teu porque tu é que tens as capacidades e se não tivesses as capacidades não podia fazer nada por ti”. Eu sei que ele fica contente, não só porque me meteu no atletismo, mas porque é um tio que eu estimo e tenho uma grande admiração até pelo modo de vida dele. É uma referência também para mim.

Fórum – A sua esposa também corre?
MM – A minha esposa começou a praticar também porque eu dizia que se ela gostasse de correr ficava mais fácil quando vamos a uma competição ela estar lá a divertir-se do que não estar a fazer nada no tempo em que estou ocupado. Estava longe de imaginar que passado algum tempo ia fazer meias maratonas. E vai fazendo, ao ritmo dela e vai-se divertindo. Ela costuma dizer que o desporto dela é com a balança e o que interessa é que esteja feliz.

Fórum – Isto é um vício saudável. O Manuel corre todos os dias?
MM – Neste momento estou a preparar o campeonato do mundo que decorrer a 28 de abril em Londres e já demos início à preparação e treino todos os dias – alguns dias até de manhã e à tarde. Tento dar o meu melhor.

Fórum – Como é a sua rotina?
MM – Acordo três vezes por semana às 06h30 porque vou ao ginásio fazer reforço muscular e nos outros dias acordo normalmente às 07h30. Se vou ao ginásio vou a casa tomo banho e o pequeno-almoço, levo a minha filha à escola e venho trabalhar. Depois almoço em casa e volto ao trabalho. O meu patrão dá-me flexibilidade para sair mais cedo, meia hora ou uma hora, desde que eu utilize o tempo necessário para treinar e tento, naquilo que é o meu trabalho, adiantar serviço e ter tudo mais ou menos orientado para minimizar as coisas. Penso que consigo conciliar.

Fórum – O seu patrão também é um fã?
MM – Ele costuma dar-me um bocado na cabeça dizer que a carreira já deve estar mesmo a acabar mas eu sei que ele quer que eu a prolongue até onde puder.

Fórum – É difícil conciliar o trabalho com o atletismo?
MM – Eu sinto-me um privilegiado porque sou apoiado e é público que saiu uma lei agora que os atletas paralímpicos estão a ser equiparados aos olímpicos e as coisas têm vindo a melhorar. Se calhar eu entrei na altura certa porque se eu andasse aqui há 20 anos se calhar já estava saturado e nessa altura se calhar as coisas não funcionavam tão bem. Agora funcionam bem, o Comité [Paralímpico de Portugal] apoia-nos bem, a Federação [Portuguesa de Atletismo] apoia-nos bem, a própria autarquia. Depois de uma conversa com o meu patrão quando regressei do Brasil e havia a hipótese se eu sair, ele não queria perder-me como funcionário e eu só queria saber se ele estava contente ou não e disse-lhe que não me ia perder. Fiquei e trabalho porque gosto do faço e também para ser grato pelo apoio que me deu.

Fórum – Mas conseguia viver do atletismo?
MM – Se eu tivesse 20 anos e quisesse fazer do atletismo vida, o atletismo paga o suficiente para ter uma vida, não é de estrela de futebol, mas paga para teres um ordenado. Há muita gente que não ganha tanto a trabalhar, por isso… Isto é uma realidade, mas obviamente tem que se estar no programa de alto rendimento e apresentar resultados. A equiparação tem-se feito ano após ano, e, em 2020 vão ganhar todos por igual.

Fórum – Considera importante esta decisão de equiparar os prémios de atletas olímpicos e paraolímpicos para garantir a igualdade de oportunidade para ambos?
MM – Eu posso ser mal interpretado e não quero de todo arranjar confusões. Se me disser que um atleta paralímpico merece ganhar tanto como um atleta paralímpico – até por uma questão de integração social, porque alguns podem não ter possibilidade de trabalhar – eu concordo porque a pessoa tem direito a estar inserida na sociedade, a levar uma vida com conforto e dignidade. Se formos a ver pela vertente desportiva pura, independentemente de eu estar a falar contra mim próprio: um atleta olímpico numa maratona parte com 200 atletas, por aí. São 200 pessoas atrás de três medalhas, certo? Nos paralímpicos há classes que só têm cinco atletas. É mais fácil, à priori ter a possibilidade de sucesso quando partes com cinco, do que quando partes com 150.

Fórum – A ausência do braço influencia muito a sua prestação?
MM – É daquelas coisas que nunca lhe vou saber responder porque eu não sei o tipo de atleta que era no caso de não ter perdido o braço. É óbvio que dizem que a sincronização de movimentos é diferente. No meu caso tenho atletas que só lhe faltam a mão, a sincronização de movimentos é praticamente igual à de uma pessoa que tem as duas mãos e ele tira vantagens em relação a mim. A justiça pura não é possível.

Fórum – E mesmo as vitórias, nunca são absolutas, são relativas, certo? A sua prestação na Maratona de Londres em 2017 é prova disso.
MM – Eu sei que no atletismo como em tudo na vida, há dias que dás o máximo e as coisas podem correr mal. Porque eu no dia em que bati o meu record pessoal à maratona fui quarto classificado em Londres e já ganhei duas medalhas com marcas não tão boas como nesse dia. O que quer dizer que nós estamos dependentes do nosso trabalho, dos adversários se estão bem ou não e mesmo do dia. Eu comecei a preparar a Maratona de Londres para o dia 28 de abril e não sei se nesse dia posso estar doente, posso estar lesionado. E o Campeonato do Mundo é naquele dia.

Fórum – Isso é frustrante?
MM – Há-de ser, felizmente ainda não passei por isso. E oxalá que não passe. Mas também eu costumo dizer que eu faço a minha parte. Dedicar-me de corpo e alma e dar o máximo. E depois o atletismo e a vida têm-me dado muito. E quando eu digo dar, ninguém dá nada de mão beijada, eu tenho trabalhado para atingir o que tenho conseguido atingir. Por isso no dia em que alguma coisa corra menos bem, por estar doente ou por ter um problema físico, eu costumo dizer: “Não vou para cima dos telhados quando as coisas correm bem, também não me vou enterrar quando as coisas correrem mal”. Sou mais ou menos tranquilo e o que tiver de acontecer vai acontecer sem problema nenhum, sempre de cabeça erguida.

“Eu sinto-me um privilegiado porque desde que entrei nesta aventura fui sempre muito acarinhado. Aquela medalha não era minha, era dos vimaranenses, era da cidade, dos vitorianos, das pessoas que sempre me acompanharam e incentivaram e me deram força. Eu sou daquelas pessoas que tentam retribuir e se retribuir é dar o máximo, eu dou”.

Manuel Mendes

Fórum – A preparação para os Jogos Paralímpicos no Brasil em 2016 correu bem?
MM – Eu fiz a minha parte, e nisso o meu treinador tem grande mérito. No sábado anterior perguntei-lhe se podia correr de uma determinada forma e ele disse-me “Vai correr desta forma, porque é a forma como deve correr, é o nível que pode desempenhar e não se fala mais nisso”. E se calhar se eu fosse correr como tinha em mente tinha desistido da maratona porque ia correr sem cabeça, sem nexo e ia acabar por me espalhar ao comprido.

Fórum – E a que é que lhe soube ganhar a medalha de bronze?
MM – Na altura eu corri cinco quilómetros com a sensação que ia ganhar a medalha. Porque quando fui para terceiro lugar e fui ganhando vários metros de distância, fui ficando com a sensação que se não me acontecesse nada de extraordinário, se conseguisse manter o ritmo ia ganhar uma medalha. Sempre estive habituado a correr na periferia de Guimarães: ir a Viana, a Aveiro, Cortegaça. E eu ainda não tinha acabado a corrida e já estava a pensar “Logo quando eu chegar a Guimarães”. Depois de dizer aquilo pensei “Eu não vou logo embora, só vou amanhã”. Eu já só queria chegar a Guimarães, à minha cidade, estar com a família e com os amigos e sentir o calor e o carinho dos vimaranenses. Não é dizer por dizer. Eu sinto-me um privilegiado porque desde que entrei nesta aventura fui sempre muito acarinhado. Nesse dia faltavam esses quatro quilómetros, eu só queria terminar porque era uma alegria. Aquela medalha não era minha, era dos vimaranenses, era da cidade, dos vitorianos, das pessoas que sempre me acompanharam e incentivaram e me deram força. Eu sou daquelas pessoas que tentam retribuir e se retribuir é dar o máximo eu dou.

Fórum – O que mudou?
MM – Eu fui amador durante anos e tentei sempre a minha superação pessoal, era uma luta com o meu relógio, tentar fazer o melhor tempo possível de uma forma tranquila. Agora as coisas são diferentes, tenho um plano de treinos para cumprir e faço tudo o que me é dito para fazer, num empenho total, quer o descanso, a alimentação…Junto as pontas todas.

Fórum – Nem sempre as conquistas mais mediáticas são as mais saborosas há alguma vitória que tenha sido importante para si, além dos Jogos Olímpicos?
MM – É claro que quando ganhamos uma medalha é aquela recompensa do esforço e da dedicação, mas no dia em que eu fui o quarto classificado em Londres e que foi o dia em que bati o meu record pessoal, essa maratona deu-me muito gozo, deu-me muito prazer e no entanto eu saí de lá de mãos a abanar. Trabalhei bem e corri bem. Os adversários foram melhores há que lhe dar os parabéns.

Fórum – Nesta próxima Maratona de Londres, o que tem pela frente em termos de adversários?
MM – São atletas da Colômbia, do Japão…Eu tenho feito a minha parte, e também tenho contado com bons atletas mal aconselhados, ou mal orientados de outros países porque eu tenho atletas no meu escalão que correm quase ao nível dos atletas olímpicos portugueses por isso são atletas muito bons. E aqui ou ali têm tido percalços e eu costumo dizer: “Eles também são mais novos e podem ter esses percalços agora porque têm tempo de ganhar medalhas” [risos].

Fórum – Talvez a maturidade lhe dê vantagem?
MM – Eu tenho muitos anos de atletismo e sei gerir talvez algumas partes que eles com aquela juventude ainda não sabem. Mas aprende-se com os erros. E eu também já cometi alguns erros na vida e havia coisas que se eu pudesse alterar na vida aqui ou ali tinha feito de forma diferente.

Fórum – Refere-se a situações da vida fora do atletismo?
MM – Sim. Mas nada que fosse alterar o rumo das coisas completamente. Pequenas coisas.

Fórum – Mesmo em relação ao que lhe aconteceu, sente-se resolvido?
MM – Agora sinto. A minha alegria não está propriamente numa vitória no atletismo, está na vitória que eu tive quando comecei a vencer os complexos. A lutar, a lutar, lutei eu alguns anos de uma forma estúpida. Quando nos acontece alguma coisa temos que seguir em frente e ficar parado ou a chorar num canto não vai resolver nada.

Fórum – Mas passou por essa fase?
MM – Passei e quando eu digo que há coisas que eu podia ter alterado, se calhar vivi anos de desconforto e nublados a troco de nada só porque tinha complexos de não ter um braço. Quando andava a estudar era capaz de deixar os amigos da turma todos tomar banho e tomava banho sozinho, equipava-me sozinho.

Fórum – E os seus colegas faziam-no sentir mal?
MM – Não, eram coisas da minha cabeça. Mas eu também não lhes dava hipótese. Eu adotava uma postura um bocado séria e como tinha uma estatura boa eu metia um bocado de medo e ninguém era capaz de falar à minha frente. O problema era eu, não era eles. Eu costumo dizer que eu se tenho medalhas agora é porque superei isso e dei esse passo em frente.

Fórum – Quando é que isso aconteceu?
MM – Eu não posso ser preciso mas aquilo foi com 18, 20 anos. Eu disse “chega”, quem gostar de mim gosta, quem quiser andar comigo anda. Eu quando tirei carta, dava boleia a um amigo que ainda hoje é meu amigo e havia familiares dele que diziam aos pais que não deviam deixá-lo andar comigo porque era perigoso conduzir com uma mão. Mas eu não faço nada para provar aos outros que sou capaz. Se eu me meter em casa debaixo da cama a chorar, sou eu que estou lá a chorar. Faço a minha vida normal.

Fórum – Mas essa mudança de atitude refletiu-se nos outros? Notou essa diferença?
MM – Sim. Simplesmente comecei a agir normalmente.

Fórum – Há certamente pessoas que se reveem naquilo que está a dizer. O que diria ao Manuel com 13 anos?
MM – Diria que perdeu cinco anos de vida, andou cinco, sete anos atormentado com uma coisa que não se justifica. Primeiro, não tive o acidente porque quis ter. Há que saber lidar com isso e saber viver. A melhor forma de ultrapassar é ser “normal”. Não quero nem ser mais que os outros nem que alguém tente inferiorizar-me de forma alguma. Isso também não permito.

Fórum – Era uma autodiscriminação e conseguiu libertar-se dela. A sociedade continua a fazê-lo?
MM – Há-de haver sempre [discriminação]. Fui tirar a carta: “O que é que vais fazer para a estrada?”

Fórum – E os seus pais como lidaram com toda a situação? Empurravam-no para a frente ou protegiam-no muito?
MM – Quando me aleijei, eu era o filho mais novo de quatro e os meus pais já tinham uma certa idade. Pessoas de Nespereira, a cinco quilómetros de Guimarães, em que o desenvolvimento não era nenhum, havia umas cinco casas perto da minha e o próprio conhecimento das pessoas não era muito. Os meus pais deram-me sempre carinho, comida na mesa dentro do que havia mas não era como é agora, de forma alguma. Eu costumo dizer à minha filha que o nosso frigorífico estava sempre cheio, de ar fresco. Eu tenho orgulho na educação que os meus pais me deram e nos valores que me transmitiram, mas como pessoas humildes que eram não havia as coisas que existem agora, nem a informação.

Fórum – Foi difícil aquela fase inicial?
MM – Com nove anos não se tem muita noção do que aconteceu. Aquilo para os meus pais foi muito grave. O meu pai com o desgosto esteve praticamente para falecer porque ele assistiu ao acidente. E eu não tinha tido a noção do que realmente tinha acontecido. E o que é que os meus pais pensaram e as pessoas da freguesia pensaram? “Olha está ali um desgraçado para o resto da vida. Quando os pais morrerem o que é que vai ser daquele rapaz?”. Era o tipo de coisa que ainda ouvi.

Fórum – E com o passar do tempo o que aconteceu?
MM – Começaram a ver que eu fazia a vida normal. Os meus pais, infelizmente já faleceram, mas não foi assim há tanto tempo e ainda conseguiram ver que eu tinha uma vida boa. O meu pai ainda me viu a ganhar a medalha no Brasil.

Fórum – E os seus irmãos?
MM – Já perdi um irmão há uns anos e convivo mais com a minha irmã e toda a família tem orgulho no irmão e não quero que seja para além do cidadão que era Manuel Mendes sem medalhas e que seja pela pessoa que eu sou. Eu sempre fui feliz, as medalhas vieram acrescentar um bocado de visibilidade e algum conforto financeiro, mas já era uma pessoa de bem com a vida há muito tempo atrás.

Fórum – Antes do atletismo praticava algum desporto?
MM – Eu fazia de conta que jogava à bola e fui treinador de uma equipa de futebol. Deixei essa equipa porque eu gostava de correr e eles gostavam de jogar à bola. Tenho um grupo grande de amigos de longa data e se eles gostassem de correr estávamos mais tempo juntos.

Manuel Mendes antes de se dedicar ao atletismo, treinou uma equipa de futebol do Grupo Desportivo da Valinha que, recentemente, cessou atividade por falta de alternativas para a direção do clube.

Fórum – E como consegue gerir o trabalho, o atletismo e a família?
MM – Tento gerir isso, mas os amigos é que têm “sofrido” um pouco mais desde que estou nisto a sério porque é muito exigente e tive que começar a dizer “não” porque senão certamente não tinha atingido os níveis que já atingi. Eu se estiver a fazer uma preparação a sério eu não vou jantar, nem sair. Eu costumo dizer que as pontas que puder juntar a meu favor junto, só assim fico com a consciência tranquila. Eu quando quiser sair com os amigos e não ter o compromisso sério do atletismo ponho um ponto final e abandono a alta competição, não ando a enganar nem o meu treinador, nem a enganar-me a mim.

Fórum – Depois do Campeonato do Mundo, o que se segue?
MM – Depois tenho dois meses para relaxar um bocado, a descansar. Porque eu por norma tenho que preparar o campeonato do mundo e depois uma maratona para fazer marca para continuar no projeto Paralímpico. Eu tenho optado por ir a Valência nos últimos anos e este ano felizmente correu bem.

Na Maratona de Valência Manuel Mendes concluiu a prova em 2:41.20 para garantir a marca de qualificação para o Campeonato do Mundo Maratona IPC 2019 em Londres. Em 2018 o atleta vimaranense arrecadou a medalha de prata nesta competição da capital inglesa.

Fórum – E a participação em maratonas em várias localidades portuguesas são assumidas como treino?
MM – Agora vou à meia-maratona de Viana do Castelo porque há a envolvência da prova e são treinos diferentes. E depois mais lá à frente vou a uma meia-maratona a ver em que ponto eu estou para depois ver a que nível é que eu posso correr a maratona [de Londres].

Fórum – E vai continuar a correr enquanto puder?
MM – Mesmo quando eu puser um ponto final na alta competição vou continuar a correr sempre que possa. Eu ando nisto porque tenho prazer. Há dias chatos, dias em que eu sofro, em que o treino deixa mais mossa no corpo, mas no geral eu sou uma pessoa realizada porque estou a fazer uma coisa que gosto. No dia em que eu não acordar com disponibilidade física ou mental e vontade para treinar…Mas isso não acontece, eu estou a trabalhar e penso “Quem dera que chegue a hora para ir treinar”. Porque quando isso acontecer, mais vale a pena pôr um ponto final.

Fórum – Além do seu tio que o incitou a correr, do seu patrão que lhe dá flexibilidade para treinar, os vimaranenses que o acarinham, a quem mais se sente agradecido?
MM – Quer o Vitória, quer a Câmara Municipal de Guimarães apoiam-me. Agradeço a algumas empresas de Guimarães que se associam, nomeadamente o Cachorrão, a Clínica dentária do Pedral, os Netos do Simão. Depois como é óbvio tenho que agradecer muito à minha filha e à minha mulher porque em certas alturas ela tem que ser mãe e pai. Há alturas em que eu estou ausente e as coisas têm que continuar a rolar em casa. E nunca senti da parte dela falta de apoio. E se sentisse que começava a causar desconforto familiar aí sim ponderava abandonar. Mas uma pessoa fundamental para tudo o que aconteceu é o meu treinador pela forma como eu lhe bati à porta e ele aceitou.

Fórum – Como contactou Ricardo Ribas?
MM – Mal o conhecia. Conhecia a Dulce [Felix] porque é atleta de nome mundial e conhecia-o a ele porque é atleta e companheiro da Dulce. Conhecia-os vagamente. Troquei umas mensagens com ele a pedir conselhos e ele ligou-me e falamos sobre o assunto.

Ricardo Ribas é o treinador de Manuel Mendes desde novembro de 2014 e atleta de alta competição. Também participou nos Jogos Olímpicos Rio2016.

Fórum – Ele foi responsável por o Manuel entrar na alta competição?
MM – Surgiu por acaso. Fui fazer a Maratona do Porto e andava lá um atleta que se cruzou comigo que estava a tentar fazer marca para entrar para o projeto paralímpico. No outro dia mandou-me uma mensagem no Facebook a dizer “Sabias que fizeste marca para entrar para os paralímpicos?”. Mandei essa mensagem ao Ribas e foi quando ele disse que se ia informar. Depois explicou-me o que tinha que fazer e eu disse-lhe que precisava de alguém que me orientasse. E foi aí que ele me perguntou: “Quer que eu o treine?”. E eu disse: “Sim”.

Fórum – Quem é o atleta que o alertou para essa possibilidade?
MM – José Monteiro. Falo com ele várias vezes. Ele precisava de um suporte porque ele corre com o braço preso e eu fui a Londres ao Campeonato do Mundo e tinha lá um atleta inglês que tinha um suporte desses e ele pediu-me a ver se entrava em contacto com esse inglês para tentar saber onde é que ele comprou esse suporte. E eu falei com um médico amigo e ele arranjou-me esse suporte, até o pus em mim e fiz uma videochamada para ele ver o quanto aquilo era funcional. E ele disse-me que não tinha forma de pagar. E eu disse-lhe “Eu não quero que tu me pagues, eu quero que tu treines” e enviei-lhe para Tavira. Fico-lhe muito grato porque ele próprio é que me disse que a pessoa indicada para me ajudar era o Ricardo Ribas. E o Ricardo Ribas agora já não é só o meu treinador, é um amigo para a vida.

Cidade Berço rendida a Manuel Mendes
O Vitória de Guimarães, em jeito de homenagem pela medalha conquistada nos Jogos Rio2016 atribuiu o estatuto de sócio honorário a Manuel Mendes e a 25 de setembro de 2016, no jogo Moreirense – Vitória de Guimarães, a claque vitoriana exibiu uma tarja que refletia o orgulho do clube no atleta vimaranense.
A freguesia que viu nascer o corredor, Nespereira, colocou um painel numa das suas portas de entrada dando os parabéns ao atleta luso pela conquista do bronze nos Jogos Rio2016.
A Câmara Municipal de Guimarães e o Vitória Sport Clube promoveram ainda uma homenagem a Manuel Mendes no auditório do Centro Cultural Vila Flor. Domingos Bragança referiu que Manuel Mendes “fica na história do desporto vimaranense”, enquanto o presidente do Vitória de Guimarães, Júlio Mendes, defendeu que este atleta “demonstra que vale a pena lutar e não optar pelo que é fácil”.

Campeonato Nacional Estrada 2019: Manuel Mendes é pentacampeão

O atleta Manuel Mendes, que representa o Vitória Sport Clube, sagrou-se pentacampeão nacional de estrada de 10 quilómetros ao vencer no sábado, 11 de janeiro, em Oeiras, a Corrida “Correr com os Campeões”.
O percurso da prova, organizada pela Federação Portuguesa de Atletismo com o apoio do Município de Oeiras, colocou os participantes, pelo terceiro ano consecutivo, em contacto com o verde da Mata do Jamor e o azul do Rio Tejo. E talvez tenha sido esta paisagem a desafiar o atleta paralímpico a vencer pela quinta vez este campeonato nacional com o tempo de 38’24.
“Quando se trabalha diariamente para conseguir os objetivos e no final sair vencedor é motivo de orgulho e satisfação Quero dar os parabéns aos meus adversários e dizer que o céu é o limite temos que sonhar e acreditar”, refere o atleta vimaranense na sua página do Facebook.

A Plural&Singular, em setembro de 2016, dedicou a rubrica Perfil da 16.ª edição da revista digital a Manuel Mendes. Pode fazer download ou ler online AQUI

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