Manel de Alecrim é um peregrino da poesia que se refugia nos versos para descrever tudo o que sente. O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães conheceu-o em 2020 e, desde essa altura, tem vindo a acompanhar o percurso deste jovem vimaranense enquanto poeta. Em junho, André Ferreira decidiu caminhar até Fátima, por etapas.
André Ferreira terminou esta peregrinação a Fátima a 30 de agosto. Fê-lo com a mãe, Fernanda Abreu, mas para as últimas etapas decidiram pedir o apoio da irmã e do pai que ficaram encarregues de agilizar as questões logísticas associadas à estadia.
Depois de quase 300 quilómetros de suor e de algumas lágrimas de emoção fica a lembrança dos momentos mais duros, mas também de todas as pessoas com que se cruzaram no caminho e que levaram no pensamento.
Até a um escaldão André Ferreira teve direito: “Dei a minha camisola a uma rapariga, uma forma de engate”, brinca André Ferreira. A jovem de 20 anos foi uma das “boas samaritanas” que encontraram pelo caminho que, depois de os ver tão desgastados fisicamente na praia decidiu ajudá-los, inclusivamente a carregar a mochila.
Até a água chegaram a racionar quando atravessaram o extenso areal da praia da Costinha entre a Tocha e Quiaios. “Começou a escurecer, estava desesperada sem água”, começa por contar Fernanda Abreu. “O André deitou-se e adormeceu ali. Eu pousei a mochila, deitei a cabeça nela e uma borboleta branca pousou-me no ombro”, lembra. A mãe do André encarou esse momento como um sinal de que tudo ia correr bem. Foram salvos por naturistas que se refugiam nestes locais mais isolados das praias e por duas malgas de sopa que decidiram oferecer-lhes.
Fernanda Abreu e André Ferreira não vão esquecer o Zé que ajudou a carregar a mochila, os Bombeiros de Estarreja que os acolheram e todas os telefonemas e mensagens de apoio que receberam.
Os últimos quilómetros foram intensos. Perderam-se e foram dar a um penhasco mas conseguiram retomar o caminho. André Ferreira caiu, magoou-se na barriga e nas costelas mas nunca quis desistir. O GPS dava quatro quilómetros para chegar a Fátima mas a placa da estrada mostrou-lhe que apenas um quilómetro os separava do destino final.
“O André ganhou força”, lembra a mãe que só chorava. Fernanda Abreu fez os últimos quilómetros desta peregrinação assoberbada com as emoções e à chegada, ao encarar o marido e a filha sentiu a felicidade e a força de uma família unida. Estavam os quatro em Fátima. André Ferreira esteve em silêncio, com o olhar sem destino, a desfrutar do omento: “Foi muito enriquecedor”, remata.
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