A 13ª edição da Feira Afonsina, que se realizou de 20 a 24 de junho, além de celebrar marcos históricos, ao recriar um dos momentos fundadores da história de Portugal – a investidura de Afonso Henriques como cavaleiro, ocorrida em 1125, na Catedral de Zamora – continua a fazer história graças à aposta do Município de Guimarães nas medidas de acessibilidade do evento, garantindo uma verdadeira viagem ao passado para todos os públicos.
Por estes dias, todos os caminhos foram dar ao centro histórico de Guimarães, onde a Feira Afonsina transformou a cidade num autêntico cenário medieval. Se no dia a dia não é fácil circular nesta zona, durante estes quatro dias de celebração e recriação histórica, o encanto que se vive nem sempre foi acessível a todas as pessoas. Até agora.
O reforço do estacionamento com a criação de lugares provisórios reservados a pessoas com mobilidade condicionada, a colocação de casas de banho adaptadas em três locais do recinto, o transporte gratuito para pessoas com mobilidade condicionada para permitir uma circulação mais facilitada por toda a feira foram algumas das acomodações que contribuíram para a promoção deste evento como sendo inclusivo.
A organização assume que “foi com alguma dificuldade” que implementou as medidas porque foi a primeira vez que a autarquia se debruçou “sobre estas questões com maior atenção”. “Por outro lado, as caraterísticas do evento, a sua morfologia e a dimensão do espaço de implementação das várias áreas temáticas, tornaram mais difícil a implementação de algumas das medidas”, admitiu Paulo Covas, chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães. “E como acontece com quase todas as inovações, surgiram resistências internas e externas, o que tornou ainda mais difícil a tarefa de implementar as medidas”, revelou ainda o responsável.
As pessoas com deficiência, que antes enfrentavam barreiras físicas e sensoriais para desfrutar plenamente do evento, passaram a contar com um conjunto de medidas que tornaram a experiência deste evento mais inclusiva.
O sucesso desta aposta na acessibilidade contou com a colaboração fundamental da Divisão para a Coesão e Desenvolvimento Social (DCDS), através do trabalho da chefe de divisão, Mécia Vieira, e da coordenadora do grupo estratégico da deficiência da Rede Social, Daniela Fernandes. Além disso, o apoio do Centro de Recursos para a Inclusão da Cercigui, representado pela terapeuta da fala Mara Costa e pela terapeuta ocupacional Patrícia Guimarães, foi determinante para garantir uma Feira Afonsina mais inclusiva e acessível para todos.
Luciana Barbosa, enquanto representante da Divisão da Cultura no Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência, destaca ainda a importância do contributo dos membros deste órgão informal de debate, consulta e informação que funciona com o apoio da autarquia para a identificação das necessidades mais imediatas no sentido de definir as medidas a implementar. “Foi muito importante ouvir as pessoas, perceber com elas quais são as suas dificuldades e de que forma poderíamos implementar medidas, muitas delas simples, para que a experiência de visitar a Feira Afonsina se tornasse mais positiva”, começa por dizer Luciana Barbosa. “Acreditamos que foi através do diálogo e da escuta ativa que conseguimos implementar as medidas de acessibilidade concretizadas nesta edição”, reforça.
Por sua vez, Daniela Fernandes enquanto coordenadora do Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência realça a “recetividade, disponibilidade e esforço” da Divisão da Cultura “na implementação de todas as medidas propostas e no caminho que, incansavelmente, desbravou para ir de encontro às expectativas do Fórum”. “Uma vez mais, foi possível proporcionar a todas as pessoas as condições que necessitam para participarem de forma plena na vida sociocultural que Guimarães promoveu. Foi, efetivamente, um passo muito importante que marcou a evolução de Guimarães que pretende ser uma referência no que diz respeito às boas práticas em termos de inclusão cultural”.
“Importa realçar que estes contributos foram fundamentais não só para a definição da estratégia para tornar o evento mais acessível, mas também para fazer chegar a mensagem ao público-alvo destas medidas”. Paulo Covas, chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães
Ana Vieira fez uso do transporte disponibilizado para transportar as pessoas do início da Alameda São Dâmaso, junto ao Jardim do Campo da Feira até ao Castelo e assim poder desfrutar das iniciativas do programa que decorriam naquela zona mais elevada do centro histórico. “Tentei ir à casa de banho no Largo João Franco, mas com a minha cadeira de rodas elétrica não foi possível subir o passeio que, embora esteja rebaixado, tem uma pequena saliência que foi impossível transpor”, lamenta.



“Estamos conscientes dos constrangimentos que a geografia da cidade, principalmente do núcleo histórico, coloca à implementação de medidas de acessibilidade”, começa por explicar Paulo Covas. “No entanto, não deixámos que isso fosse um fator impeditivo para avançar com as ações previstas”, sublinha. “Do nosso ponto de vista, as medidas implementadas foram positivas, apesar de terem existido alguns aspetos que deverão de ser melhorados e aperfeiçoados numa próxima edição do evento”, concluiu em jeito de balanço.
Tiago Almeida foi no sábado de manhã, dia 21, à Feira Afonsina juntamente com os colegas que frequentam o Centro e Lar Inclusivos do Polo do Paraíso (CLIPP), do Centro Social de Brito e teve oportunidade de desfrutar dos jogos que se encontravam na feira. “Eu acho que estava tudo fixe. Mas achei que havia uma zona difícil com terra. Nós levamos um colega em cadeira de rodas manual e aquilo foi complicado”, avalia.

Uma das sugestões de acessibilidade foi proposta por Armindo Rodrigues que costuma ter dificuldades em aceder às bancas da feira por se encontrarem a meio do passeio. “Eu fui à Feira Afonsina no sábado, mas não tive oportunidade de fazer o circuito todo. Mas vi a carrinha de transporte à espera que o pessoal chegasse. Do que vi pareceu-me tudo bem”, refere o jovem vimaranense. Armindo Rodrigues está confiante que esta será uma medida considerada nas próximas edições, conjuntamente com a utilização de estruturas com balcões rebaixados.
“Queremos melhorar e aperfeiçoar o que não correu tão bem nesta edição, assim como acrescentar novas medidas que, por diversos motivos, não foram possíveis de implementar este ano, mas que queremos garantir em edições futuras”, garante Luciana Barbosa, enquanto representante da Divisão da Cultura no Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência.
“É, sem dúvida, um compromisso que pretendemos manter e fazer crescer nas futuras edições. É fundamental que a Feira Afonsina seja e se mantenha um evento acessível e inclusivo, ano após ano. Tornar o evento mais igualitário deve ser um desígnio do município”. Luciana Barbosa, representante da Divisão da Cultura no Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência
Mas a acessibilidade não se mede apenas em rampas ou lugares de estacionamento: a comunicação inclusiva e o acesso à informação tornaram-se elementos centrais para garantir uma experiência verdadeiramente aberta a todos.
O programa do evento tinha informação de todas as medidas de acessibilidade implementadas, nomeadamente, indicação das entradas e acessos mais acessíveis à Feira Afonsina, da localização dos serviços de assistência médica e das casas de banho adaptadas, dos horários de menor estimulação sensorial e, no recinto utilizou-se placas de sinalização com pictogramas para permitir a orientação no espaço de pessoas que, por exemplo, não saibam ler.
“O facto de termos apresentado o espetáculo principal com intérprete de Língua Gestual Portuguesa foi bastante valorizado por algumas associações de surdos, como a Associação de Surdos de Guimarães e Vale do Ave”, destacou Luciana Barbosa.
Célia Fernandes integra os órgãos sociais desta entidade e fez questão de partilhar com o Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência o balanço da experiência da visita à Feira Afonsina. Contou que passeou entre ruas animadas e encenações históricas e que, sendo Surda profunda, revelou que nestas ocasiões o olhar ganha protagonismo. “Andei a passear pela Feira Afonsina, trouxe a minha irmã comigo, viemos com tempo, estivemos a ver todas as representações na rua, para nós tudo é muito visual”, refere.
Pela primeira vez, o espetáculo principal contou com interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP) — uma medida há muito aguardada pela comunidade Surda e que marcou um avanço decisivo rumo à inclusão. Para Célia Teixeira, dinamizadora da participação da comunidade na Feira, a mudança foi significativa: “A parte visual é muito importante e nós tivemos espaço para poder ver o espetáculo, foi muito bonito”, avalia.
Apesar dos rasgados elogios à organização da Feira Afonsina, o feedback de Célia Fernandes aponta para novas melhorias: a iluminação deve ser reforçada do local onde se encontra o intérprete de Língua Gestual porque, este ano, num dos espetáculos, estava “um bocadinho escuro, na parte onde o intérprete estava a traduzir”. “Era no Largo da Misericórdia, ali em frente à igreja, achei aquela parte um bocadinho escura para nós. No que esteve a Fernanda [outra intérprete], era mais iluminado”, compara.
Os progressos futuros incluem também um vídeo explicativo do programa em LGP teria sido essencial para garantir uma verdadeira autonomia de informação. “Fui eu que fiz a divulgação através do Instagram e do Facebook junto da comunidade surda”, adianta. “Portanto, filmei-me, convidei, disse o horário, disse as acessibilidades, porque o facto de ter intérprete, move logo a comunidade surda a participar, não é?”, referiu a vimaranense.

E foi precisamente o que aconteceu, pelo menos três dezenas de pessoas da comunidade Surda estiveram presentes nos quatro dias de espetáculo. “Estou a pensar para o ano, voltar a chamar os Surdos, porque temos de participar novamente. Quero divulgar e quero voltar a fazer isto e convidar as pessoas surdas para virem ver a Feira”, garante Célia Fernandes.
Algumas pessoas contestaram o espaço reservado à comunidade Surda junto ao palco. Foi preciso explicar que não se tratava de privilégio, mas de necessidade. “Porque aquele espaço era para nós podermos ver o intérprete. E eu tive que explicar que eu era surda. Tínhamos lá pessoas mais idosas a dizer ‘’Também me quero sentar nesse lugar’. Nós não estávamos lá pela idade, estávamos lá por uma questão de acessibilidade à Língua Gestual. Se ela me passasse à frente, ia-me tapar, porque é mais alta do que eu e eu não ia conseguir ver. Não vendo, não ouvindo, não ia perceber o espetáculo”, lamenta.
O tradutor e intérprete de Língua Gestual Portuguesa, Pedro Freitas, por sua vez, considerou que estas primeiras medidas foram espetaculares. “Permitir a participação ativa dos surdos é uma vantagem, primeiro porque a cidade é composta por todos e excluí-los não é positivo para a cidade”, analisa. “Guimarães tem investido muito nesse trabalho de inclusão e acredito que, se calhar para o ano, e juntamente com o Fórum, vamos conquistando cada vez mais território. Mas acho que é um primeiro passo. E foi um primeiro passo muito importante e merecido e participado por eles no Fórum”, avalia.
Do ponto de vista pessoal e profissional também considera ser uma mais-valia a participação em eventos com estes contornos mais desafiantes. “E termos público também é gratificante. E termos o feedback deles: ‘Vimos bem, não se via. Vai mais para ali, vai mais para cá’, exemplifica. “Porque isto faz parte da nossa aprendizagem também”, termina.
Para a população que esteja no espetro do autismo houve o cuidado de assinalar no programa o horário de menor estimulação sensorial. Além disso, considerando outros desafios sensoriais, deu-se também nota de que o Quelho das Desgraças, pela forte componente cénica associada, poderia ser uma zona a evitar porque poderia funcionar como um “gatilho” e desencadear, por exemplo, crises em pessoas com epilepsia fotossensível ou com sensibilidade a estímulos sensoriais.
“A acessibilidade e a inclusão devem deixar de ser encaradas como uma aposta pontual e passar a ser uma prática transversal na organização de qualquer evento do Município. Na Divisão de Cultura temos tentado trilhar esse caminho, com passos pequenos, mas firmes e convictos de que só assim conseguiremos transformar esta realidade. Para isso, é fundamental contar com os nossos parceiros e assumir a necessidade de adaptação contínua”. Paulo Covas, chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães
A edição de 2025 provou que a história vimaranense e portuguesa pode ser contada para todas as pessoas — e por todas as pessoas. Com ajustes e melhorias em curso, Guimarães prepara o caminho para que a Feira Afonsina continue a ser uma celebração da identidade nacional e, agora também, da verdadeira inclusão.
Agora é tempo de reunir para o balanço final porque a Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Guimarães não se contenta “com ações pontuais” e quer “garantir que a acessibilidade e a inclusão sejam pensadas em todos os eventos” que realiza. “É igualmente importante trabalhar a mudança de consciências e mentalidades, pois muitas vezes são essas barreiras invisíveis que dificultam a implementação efetiva de medidas de inclusão”, deixa Luciana Barbosa como nota final, em jeito de quem aponta a dificuldade mais latente sempre que se quer trabalhar a inclusão: a resistência à mudança e à aposta nas acomodações necessárias para permitir o acesso de todas as pessoas à cultura e à participação social.
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