A “sobrevivência” do Braille na era digital

PorFórum

A “sobrevivência” do Braille na era digital

A 04 de janeiro celebrou-se o Dia Mundial de Braille. Uma data que só agora em 2019 a Organização das Nações Unidas proclamou, em jeito de reconhecimento da importância do braille para as pessoas com deficiência visual. Mas na era digital somam-se muitas ferramentas de aprendizagem e recursos tecnológicos de apoio que criam novos desafios à “sobrevivência” deste sistema de escrita e leitura em relevo. Estará o sistema braille a morrer?


São seis pontos apenas, que combinados em duas colunas e três linhas permitem que as pessoas cegas acedam ao mundo da escrita e da leitura.

Foi há quase 200 anos que um francês criou este sistema de escrita e leitura em relevo para cegos que veio revolucionar a vida das pessoas com deficiência visual. Mas Louis Braille não imaginava que dois séculos depois de inventar este código universal, todos os anos, a 04 de janeiro, se assinalasse o Dia Mundial do Braille, finalmente reconhecido, em 2019, pela Organização das Nações Unidas.

O sistema braille é composto por 64 caracteres diferentes, que representam as letras do alfabeto, os números, os sinais de pontuação e de acentuação e símbolos importantes.

“O braille é a forma que as pessoas cegas têm de apreender mentalmente a leitura e a escrita. A imagem mental que nós temos da escrita é através do braille”, refere Marta Pinheiro, natural de Creixomil, Guimarães.

Também Eduarda Azevedo, de Santa Maria de Airão, aprendeu a ler e a escrever em braille e diz que a adaptação decorreu de uma “forma muito natural”. “Desde sempre trabalhei no infantário com o braille, sempre foi a realidade a que estive habituada, pelo que não houve grandes problemas”, garante.

A mãe da jovem vimaranense chegou a aprender braille para a poder ajudar: “Na altura até transcrevia para tinta os meus trabalhos de casa, senão os professores não saberiam o que eu fazia e ela própria também aprendia”, revela.
Também Dídia Lourenço está a aprender braille para apoiar o filho Pedro de três anos e conseguir acompanhá-lo quando ingressar na escola para começar a alfabetização. “A aprendizagem inicial é sempre feita pelo braille, começam a aprender com a Perkin [máquina de escrever]. Da mesma maneira que todas as outras crianças aprendem a fazer a escrita manuscrita, o braille é a mesma coisa. Quem não aprender a ler e a escrever braille é um analfabeto”, explica.

A mãe de Pedro, que é cego devido a um tumor cerebral, é docente em Educação Especial e colaboradora da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. Como tal, defende que “nunca se deve dar um computador a uma criança” enquanto ela não souber ler e escrever. “Não devem descurar o braille. E todo o material que for possível dar em braille, deve-se dar em braille”, aconselha.

Marta Pinheiro tem 38 anos, é técnica administrativa no Pingo Doce de Vizela e diz que por ser “praticamente cega” a aprendizagem na escola foi através do braille. “Da mesma forma que os meus colegas iam aprendendo a escrever as letras, uma a uma, eu aprendia rigorosamente da mesma forma”, recorda. A vimaranense fez o primeiro ciclo na escola primária do Salgueiral, ingressou depois na Escola D. Afonso Henriques e fez o ensino secundário na Escola Francisco de Holanda.

Só na licenciatura em Sociologia, iniciada na Universidade do Minho e terminada, por motivos pessoais, no Algarve, é que assume que nunca utilizou o braille. “Eu não usei o braille na universidade. Recorri a coisas digitalizadas e fiz a minha licenciatura baseada no computador, era muito mais rápido. Havia muita coisa em suporte áudio e usava um scanner para digitalizar a informação e depois converter para word”, descreve Marta Pinheiro. Mas Dídia Lourenço diz que não há problema a esse respeito, porque os miúdos “já aprenderam”. “Se calhar há muitos estudantes normovisuais que fazem a universidade toda sem pegarem numa caneta e escrevem no computador”, exemplifica.

LEGENDA: Louis Braille nasceu a 04 de janeiro de 1809 e esta foi a data escolhida para assinalar o dia mundial do sistema de escrita e leitura em relevo para cegos que o francês inventou, em 1825, há quase 200 anos.

O braille e as novas tecnologias
Dídia Lourenço diz que é a partir, normalmente, do 5.º ano que começa a ser mais recorrente a utilização de outras tecnologias de apoio à aprendizagem. As crianças e os jovens “continuam a utilizar o braille escrito”, mas juntam outros suportes “porque é mais fácil e rápido de aceder à informação”. Além da utilização da Perkins Brailler, semelhante a uma máquina de datilografar, utilizada para se escrever em braille, pode-se recorrer também a linhas braille que são aparelhos informáticos que se ligam a um computador, telemóvel ou tablet através de Bluetooth ou USB que permitem ler em braille aquilo que aparece no ecrã de um dispositivo informático.

“Agora até começam a aparecer algumas linhas braille, economicamente, mais acessíveis, mas é um produto de hardware um bocadinho mais caro”, admite Marta Pinheiro. E embora as linhas de braille comecem a ser cada vez mais pequenas e mais fáceis de transportar, não são os suportes de apoio à leitura mais usados.

Além dos ampliadores de ecrã, os leitores de ecrã – softwares que convertem os textos que aparecem no ecrã para um sintetizador de voz são as opções mais práticas para aceder à informação e ao conhecimento. O leitor de ecrã, por exemplo, permite que as pessoas com deficiência visual possam ir à internet, usar um computador, um telemóvel, um tablet de uma forma autónoma, igual a todas as outras pessoas que não têm problemas de visão.

Trata-se no fundo de uma tecnologia que, por assim dizer, substitui o braille e, como tal, a leitura de revistas, jornais e livros em papel ou recorrendo a linhas braille. “Os computadores e os meios informáticos substituem essa leitura do papel. Nós fazemos a mesma evolução, o mesmo caminho das pessoas que veem, que cada vez menos usam livros e jornais em papel”, refere Marta Pinheiro.

Mas, segundo Dídia Lourenço, há um risco associado à diminuição do contacto com o braille: “a destreza e a velocidade de leitura acabam comprometidas”. “Porque não temos tanto contacto com a palavra escrita, ou seja, não a lemos, ouvimos, é diferente a forma de a aprendermos”, completa Marta Pinheiro.

“Há pessoas que acham que o braille está a morrer, há outras que não. Eu sou da opinião que o braille está adormecido para aquelas pessoas que já não o utilizam porque utilizam a tecnologia. O mesmo acontece com as pessoas que veem, quantas pessoas que a partir do momento que saem na escola não pegam mais numa caneta?”, compara Dídia Lourenço que ainda assim admite que essa é uma preocupação da Associação Bengala Mágica – a associação de pais, familiares e amigos de crianças e jovens com cegueira e com baixa visão que preside.

“Quase todas as pessoas que eu conheço que começaram a fazer o seu percurso através do braille tem essa preocupação de nunca perder o contacto, mas há alturas na nossa vida em que nós nos deslumbramos um bocadinho com o imediatismo da parte informática, das tecnologias e em que abandonámos o braille para o resgatarmos outra vez e termos essa preocupação. Se bem que depende muito de pessoa para pessoa”.

Marta Pinheiro

É verdade que a crescente utilização de leitores de ecrã não implica nenhuma atividade de leitura, no entanto Eduarda Azevedo considera que as tecnologias não devem ser utilizadas “em detrimento do braille”. “O braille deve ser sempre uma ferramenta de uso e deve-se praticar”, defende. “Posso dizer que prefiro mil vezes ler um livro e estudar em braille do que através de um leitor de tela. Acho que é diferente nós termos um livro e sentir a folha e o papel e o braille, poder voltar atrás, é diferente do que termos um robot que lê por nós digamos assim”, compara Eduarda Azevedo.

A jovem vimaranense estudou em Guimarães até ao 4.º ano – andou na Creche e Jardim de Infância Somelos, em Ronfe, a seguir no Centro Social de Brito e fez o primeiro ciclo na escola primária de Santa Maria de Airão. Depois frequentou uma escola de referência para cegos em Braga e completou o secundário numa escola em Fafe em articulação com a Academia de Música. Agora está no 2.º ano da licenciatura em Música na Universidade de Aveiro. “A tecnologia é indispensável, mas se eu puder escolher em determinada situação, escolho o braille”, refere.

As pautas de música são em braille e não usa audiolivros, mas mais uma vez, há aspetos práticos que fazemos dos audiolivros uma opção mais leve em relação aos livros em braille que, por sua vez, pesam muito, logo não são práticos para transportar e ler em viagem, por exemplo.

Marta Pinheiro preocupa-se sempre em ler algumas coisas em braille. “É por isso que recebo os jornais e revistas e tento sempre ler em braille precisamente para ter esse contacto com a palavra escrita que nos faz, realmente, muita falta”, sublinha. Não acredita que o braille se possa tornar obsoleto, pelo contrário, diz que “ele está sempre em transformação”. “As linhas braille são a prova disso, são a prova mais recente da adaptabilidade deste sistema”, acrescenta.

Marta Pinheiro é, atualmente, secretária da direção nacional da ACAPO, tendo como responsabilidade os pelouros da juventude, cultura, educação e boletins informativos. E diz que há muitos esforços que são feitos em relação à aposta em manter vivo o sistema braille. “Mas que não são muito visíveis”, adianta. Por exemplo a ACAPO teve a coordenação do conselho ibero-americano dos últimos dois anos, em 2017 e em 2018. “E fez-se muito trabalho em comissões científicas, coisas que até não são muito visíveis no imediato mas que a seu tempo darão frutos. É uma espécie trabalho de formiguinha que depois vai fazer muita diferença na vida das pessoas”, garante a dirigente associativa.

A introdução do voto em Braille vai ser utilizado pela primeira vez em Portugal aquando das Eleições Europeias, a realizar no dia 26 maio de 2019.

“A melhor maneira de se estimular a utilização de braille, é estimular o prazer pela leitura. Dar-lhes desde muito cedo o contacto com a escrita e com a leitura para depois isto acontecer de forma muito natural”, recomenda Dídia Lourenço. Além do mais, a professora de educação especial refere ainda que as pessoas, que ficam cegas mais tarde, têm muita resistência em aprender braille. “Conseguem sempre desenrascar-se, mas há sempre uma diferença em termos de oportunidades. O braille é sempre mais um suporte”, frisa. As pessoas cegas que não sabem braille ficam sempre a perder na hora de identificar medicamentos e outros produtos, quando têm que andar de elevador e sempre que a informação esteja apenas em braille.

“O braille nunca pode ser excluído da vida das pessoas cegas isso é um ponto que tem que ficar bem claro tanto para os utilizadores como para quem projeta material acessível. O braille tem que estar sempre presente”, conclui Marta Pinheiro.

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O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

1 comentário

Gorete BarrosPublicado em11:33 am - Jan 17, 2019

Sou professora de educação especial na área da deficiência visual e estou colocada na escola de referência para a baixa visão e cegueira Romeu Correia em Almada.

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