Alecrim, a flor de Guimarães

PorFórum

Alecrim, a flor de Guimarães

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães foi visitar o Centro de Atividades Ocupacionais e Lar Residencial Alecrim que fica nas instalações do antigo Hospital dos Capuchos, mais conhecido por hospital velho. É lá que os 17 clientes desta valência da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães se juntam todos os dias para, num ambiente familiar, se ocuparem em diversas atividades lúdicas e de estimulação, mas também para receberem, calorosamente, as visitas que por lá passam.

À chegada, um sinal imediato: a porta fechada por dentro para “os meninos não fugirem”. É uma preocupação permanente, encarada com a serenidade que a rotina e os procedimentos de segurança permitem. Os meninos de que se fala são 17 adultos, todos, à exceção do Tiago que tem 28 anos e da Mafalda que tem 34, têm mais de 40 anos. O envelhecimento dos clientes é um desafio que o Centro de Atividades Ocupacionais e Lar Residencial Alecrim encara atualmente. A mais velha, a Lurdes, tem 72 anos mas mais parece ter seis. “Muitas colaboradoras não conseguem perceber que eles estão a envelhecer, parece que pensam sempre que são crianças. A terapeuta ocupacional é a única pessoa que sabe adequar os termos e os trata por ‘você’, de resto são sempre vistos como os ‘meninos do Alecrim’ e isto é muito difícil de modificar”, constata a diretora técnica da instituição.

Mas dada a, vamos chamar-lhe, “imaturidade” cognitiva mistura-se esta soma de anos e de rugas num rosto ancião com a maneira de estar de uma criança. “A Conceição é um exemplo muito claro, deve ter praí uns três anos”, exemplifica a diretora técnica, Luísa Rocha. “De todos é a mais infantil”, completa a animadora Cátia Sofia. E foi, precisamente, Conceição a primeira a abordar a visitante: “Sofia, eu queria escrever-te uma carta. E agora?”, diz em jeito de “não dá porque já acabou a sessão de terapia da fala”. Deixou de matutar na questão e assumiu-se cicerone até à sala de convívio. O acolhimento afetuoso indicava que todos sabiam que iam receber uma visita. E estavam contentes. Tanto melhor.

É segunda-feira, um dos dias em que se realiza a terapia da fala. Assistimos à “troca” de clientes realizada pela terapeuta Cláudia Costa, já habituada à resistência que alguns manifestam para se sentarem na mesa redonda destinada à sessão de 20 minutos, duas vezes por semana. Parece pouco, mas eles não suportariam mais. “Fazemos estimulação cognitiva, trabalhamos a parte da compreensão que tem graves lacunas, depois há utentes com quem trabalhamos a parte da funcionalidade do dia-a-dia, com alguns conseguimos trabalhar a leitura e escrita, com outros os números, datas importantes, as idades, os meses”, enumera a terapeuta da fala que acompanha os clientes do Alecrim há cerca de um ano e considera que são “os pequenos ganhos” que lhe dão motivação. Como quando contam até 10 ou dizem as cores.

É uma tarde em que os clientes do Alecrim vão revezando a terapia da fala com uma atividade lúdica de estimulação artística. “Memoriarte é uma neuróbica de estimulação cognitiva e à parte disso quando há temáticas também exploro os trabalhos manuais”, contextualiza a animadora Daniela Magalhães que, quando se licenciou em ensino, não lhe passava pela cabeça que um dia ia trabalhar numa instituição com este perfil. “Dei aulas 11 anos e depois não tive colocação e fiquei um ano desempregada. Vim para a Misericórdia e estive o primeiro ano como auxiliar. Depois repescaram-me para a animação e deixei de concorrer”, revela. Assume que “não voltava a dar aulas” e faz questão de frisar que ganha “três vezes menos”. “Mas sou três vezes mais feliz: Estar perto das minhas filhas, trabalhar na minha terra e amar aquilo que faço”, enumera as razões de tamanhã satisfação. “Tem que se gostar, são populações muito específicas, com personalidades diferentes. Foi aqui que eu estagiei. Eu também não os trocava por nada e adoro estar aqui”, acrescenta Cátia Sofia.

Estão neste momento ocupados com atividades associadas ao inverno e a aprender quais são as características desta estação e os acessórios relacionados. “Vá, Tiago o que é que temos aqui? O gorro…o que é que temos no pescoço?”, questiona Daniela Magalhães. “O Cachecol”, responde o Rafael. “Como é que se chama Tiaguinho? O que é que o Rafael disse?”, insiste novamente a animadora. “O cachecol e as…”, estimula a professora. “Luvas”, completa Tiago.

Eis que chega o Francisco. Carinhosamente tratado por Chico. É surdo-mudo mas as colaboradoras do Alecrim dizem que compreende tudo. Comunica recorrendo a desenhos e à imitação e os colegas interagem com ele sem cerimónias.

“Conceição isto é a tua cara?”. “É os olhos e a boca”, responde a cliente do Alecrim. “Conceição”, insiste a professora, “o que é que a tua cara tem?”. “É branquinha”, responde. “E o que tem aqui?”, aponta Daniela Magalhães para as sobrancelhas. Conceição confirma: “Sobrancelhas”. “E por baixo?”, continua a professora. “Os olhos”, responde Conceição. “Adorei os teus olhos Rosa. Conceição, o resto até pode ser, mas a boca não é uma rodinha. Vamos lá Tiago, pinta isso, é o cachecol”.

A televisão está ligada, mas ninguém está a ver. O mais comum é ligarem o rádio porque o Daniel gosta muito de música. Também o Tiago é fã de Toni Carreira e depois da animadora Cátia Sofia começar a cantar uma música ele lá perdeu a timidez e cantarolou, entre dentes, também a “Sonhos de menino”. O entusiasmo foi visível, o sorriso rasgado atestou-o.

Ao longe ecoam alguns sons, a evidenciar que há mais gente “em casa”. É o caso de António e Alice. O António, mas conhecido por Toni, é muito afetuoso e passou a tarde a acirandar de um lado para o outro. Gosta de estar de braço dado com as pessoas, de ver os carros lá fora e do barulho das buzinas. A Alice é viciada em café e, embora a toma esteja contraindicada pelos médicos, a verdade é que não fala noutra coisa.

São pessoas que não tiveram intervenção precoce na infância e que não foram estimuladas o suficiente quer em termos educativos, terapêuticos e sociais para minimizar os efeitos do atraso de desenvolvimento associado a cada uma das incapacidades intelectuais que têm. “O que faziam não os estimulava o suficiente e agora com esta idade não podemos esperar tanto e recuperar o tempo perdido”, reforça a diretora técnica e recorre a um exemplo concreto para elucidar melhor. “O Francisco é surdo e tem uma deficiência intelectual mas eu acho que tem muitas capacidades, mas estagnou. Ele não sabe Língua Gestual e acho que seria capaz de aprender”, considera.

Embora os problemas que originaram a incapacidade intelectual sejam variados, há, de uma maneira geral, dois traços característicos em todos os clientes: as dificuldades de concentração e de retenção da informação. “Todos os dias fazemos um quadro de orientação espaciotemporal e não conseguem dizer em que dia da semana é que estamos, nem a estação do ano”, explica Luísa Rocha.

Mas aqui ninguém desiste e os ganhos, embora muitas vezes pequenos a quem tenha vista grossa, são conquistas enormes que alimentam a motivação de todos os que cá trabalham. “Nós temos um plano individual e nesse plano criámos os objetivos para cada utente e a equipa multidisciplinar trabalha com eles. Por exemplo a animação faz uma atividade geral mas tentando ir ao encontro das capacidades de cada um”, explica Luísa Rocha. “Apostámos muito nas atividades da vida diária e foi, por exemplo, uma conquista muito importante o Dani comer pela própria mão. Foi a terapeuta ocupacional que lutou por isso”, diz a diretora técnica. Cátia Sofia acrescenta que estas conquistas também são mérito do Daniel: “Ele é um lutador. Percebe tudo, só lhe falta falar”, elogia.

Este centro de apoio ocupacional com um lar residencial, localizado nas instalações do antigo Hospital de Santo António dos Capuchos, foi inaugurado em 1993. O Alecrim da Santa Casa da Misericórdia tem 17 clientes – “três deles vão dormir a casa, os restantes residem no lar”. A proximidade às famílias dos 14 clientes do lar residencial não é a ideal quer por os pais já terem falecido, quer por os irmãos e restantes familiares fazerem visitas mais esporádicas. “Eu gostava que houvesse uma proximidade maior, gostava muito”, confessa a diretora técnica. “É a nós que eles perguntam ‘Quando é que vou a casa?’”, acrescenta a animadora. “Chega o Natal e é uma agitação, eles ficam mesmo alterados, aquela ansiedade”, completa Luísa Rocha.

De uma maneira geral, a diretora técnica considera que além das terapias os clientes do Alecrim são estimulados a fazerem as coisas que gostam e que a aposta na socialização é confirmada pelas atividades culturais em que participam. Além disso, têm ginástica, hidroginástica, fazem terapia snoezelen e todas as tardes têm atividades de animação em que fazem trabalhos manuais, têm aulas de música, de teatro e fazem experiências culinárias que costumam agradar a todos os participantes.

No verão as idas à piscina, passeios à praia, piqueniques, visitas a parques de diversões são intercalados com outras atividades culturais que sejam promovidas na época estival, como é o caso de sessões de cinema, de teatro ou dança. É uma altura em que se assume como período de férias e, por isso, as atividades afastam-se da rotina e do dia-a-dia da instituição. Mas é a colónia de férias realizada em abril ou em maio no Centro Social João Paulo II, na Apúlia, que não sai da memória da maioria dos clientes do Alecrim. “Há utentes que não vão a casa no verão e vêm-nos a ir de férias e faz sentido eles desfrutarem também”, diz Luísa Rocha.

“Faço anos a 10 de maio. Ó Cátia no dia dos meus anos podíamos fazer outro concerto”, lança Conceição que não se esquece do concerto solidário que a Orquestra Juvenil de Pevidém realizou o ano passado no auditório da Universidade do Minho. “Não sei se é possível”, responde a animadora. “Então o que é que vamos fazer Cátia?”, questiona Conceição que se apressou a arranjar uma folha de papel. A finalidade era convidar a visitante para a festa de aniversário deste ano: “Sofia, quero-te convidar para a minha festa de anos!”. São felizes, é certo.

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Fórum editor

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

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