Universidade do Minho aposta em design para a inclusão

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Universidade do Minho aposta em design para a inclusão

“Design Inclusivo” e “Design e Serviços para a Inclusão” são duas unidades curriculares que a Universidade do Minho (UMinho) disponibiliza na oferta formativa e que desafiam o design a responder às necessidades das pessoas com diferentes perfis.

A docente responsável por lecionar estas disciplinas, Paula Trigueiros, em entrevista ao Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães, considera que os futuros profissionais poderão encontrar “neste mundo de diversidade” a oportunidade e a motivação que, muitas vezes, lhes faltam”.

“A principal função, transversal às duas unidades curriculares, é mesmo abrir os olhos. Olhar para o mundo e ver a diversidade. E estes jovens que são criadores, que são dinâmicos, que são naturalmente inquietos encontram na diversidade de perfis, que nunca pensaram que existia, a chave para a razão de existirem”, começa por explicar a professora da Escola de Arquitetura da UMinho, Paula Trigueiros.

Esta disciplina pretende, acima de tudo, sensibilizar a comunidade académica para a inclusão, contribuindo para promover a mudança e projetar um futuro mais inclusivo e aberto à diversidade. “Acho que são disciplinas cruciais porque qualquer pessoa que tenha que desenvolver seja o que for para melhorar alguma coisa na vida das pessoas precisava de ter a abordagem inclusiva”, começa por afirmar uma das alunas que frequentou a disciplina de Design Inclusivo, Cláudia Quintela.

Esta é uma das unidades curriculares opcionais que a UMinho disponibiliza aos alunos que aceitem o desafio de abraçar a inclusão, mesmo sendo provenientes de áreas como a linguística, a sociologia, a administração pública e a gestão. “A verdadeira natureza e proposta da opção UMinho é facultar aos estudantes uma formação diferente, em áreas disciplinares e conteúdos, daquela que teriam na sua linha restrita da sua escola”, explica Paula Trigueiros.

Foi o que aconteceu neste último semestre em que a professora de design teve a oportunidade de ensinar o que tão bem conhece a estudantes de vários cursos deste estabelecimento de ensino superior.

Esta unidade curricular desenvolve-se em três horas semanais ao longo de um semestre – funciona em Azurém no 1.º semestre e em Gualtar, no 2.º – e pretende explicar os conceitos de Design e Inclusão, ao mesmo tempo que explica a oportunidade que representa e a pertinência das intervenções inclusivas.

Cláudia Quintela assume que a palavra “inclusivo” associada ao design não lhe era “familiar” e descobrir até onde é que a palavra pode ir é que “foi mesmo muito interessante”. “Até lá desenhámos os produtos a pensar na ergonomia, se está bem adaptado ao conceito e se vai resolver bem aquele problema. A abordagem que fazemos no desenho é só técnica, é tudo standard, mas depois não damos resposta aos diversos perfis. E quando entramos em design inclusivo tivemos que acrescentar a solução inclusiva que daria para toda a gente poder usufruir”, explica a estudante.

Cláudia Quintela diz que este processo de criação é mais desafiante porque há mais um critério a dar resposta: “Mas por outro lado quando a pessoa descobre bem o problema, a solução está à vista”, acrescenta. “Depois de identificar o problema, às vezes não é preciso inventar nada, basta conseguir escolher a solução certa, quer seja o produto ou a tecnologia”, completa Paula Trigueiros.

“Uma parte da equação da criatividade é encontrar as perguntas que ainda não foram feitas, encontrar um bom problema e no Design Inclusivo há muitos. Acaba por se tornar numa oportunidade para melhorar a vida das pessoas e as pessoas ficam contentes e reconhecem as suas competências e esse é o feedback que qualquer profissional quer”. Paula Trigueiros

“Design e Serviços para a Inclusão” é uma das disciplinas do mestrado em Design de Produto e Serviços, maioritariamente, frequentado por alunos de design.

Aos alunos que frequentam este mestrado acresce-lhes esta vantagem competitiva, visto que a licenciatura de design não tem nenhuma unidade curricular com este perfil. Aliás, é esta mudança de paradigma que falta nas universidades portuguesas que ainda não apostam em conteúdos que afastem o design da ideia de futilidade e superficialidade a que normalmente está associado. “Esta é uma ideia muito comum e, ao mesmo tempo, muito falsa da verdadeira natureza e motivação do design”, começa por explicar Paula Trigueiros.

A docente esclarece que os alunos quando vão estudar design acabam por perceber que há uma série de vertentes de resposta à sociedade que são verdadeiramente aquelas que os motivam. “Ainda assim quando querem mudar alguma coisa num projeto fazem-no a pensar em pessoas como eles. Mudar um telemóvel ou um puxador de uma porta a pensar em pessoas que usam e veem as coisas como eles usam e veem. Se calhar não lhes dá grande motivação mas quando começam a pensar, que alguém que não consegue fechar uma mão também tem que abrir uma porta, começam a ficar mais críticos e a perceber melhor o impacto que podem ter nas pessoas”, explica a docente.

A acrescer à componente de sensibilização que a disciplina acaba por ter, existem as técnicas pedagógicas e científicas utilizadas para dar competências aos alunos na abordagem aos problemas e ao processo de criação de soluções inclusivas. Além disso, estas unidades curriculares propõem-se a apresentar e discutir estudos de casos, dar a conhecer as normais e a legislação associadas, assim como os princípios éticos a respeitar.

Uma abordagem às oportunidades de negócio, considerando o potencial de mercado, e à explicação da inovação associada ao processo de Design Thinking são outras componentes da unidade curricular do mestrado e da opção UMinho.

Paula Trigueiros assume a responsabilidade social de conseguir moldar os alunos, ou pelo menos motivá-los a acreditarem que podem mudar o mundo porque tem a convicção que “mais cedo ou mais tarde” o design tenha sempre que dar uma resposta inclusiva.

Quando afirma que a aposta no design para a inclusão deve ser encarada com seriedade, mune-se com a Diretiva Europeia sobre os requisitos de acessibilidade a bens e serviços. “O que significa que todos estes jovens, que tenham um mínimo de competências e um máximo de sensibilidade para ir buscar a informação que precisam, têm trabalho para fazer porque esta legislação obrigada todos os interfaces a serem acessíveis, sejam os telemóveis, sejam as máquinas multibanco”, explica.

Imagme de Banda Desenhada - exemplo de trabalho realizado no âmbito do exercício “Design Antivirus” realizado na unidade curricular “Design e Serviços para a Inclusão” do mestrado em Design de Produto e Serviços

Exemplo de trabalho realizado no âmbito do exercício “Design Antivirus” realizado na unidade curricular “Design e Serviços para a Inclusão” do mestrado em Design de Produto e Serviços

Mas a energia que tenta passar aos alunos não chega para tirar os projetos que eles elaboram da gaveta e tem noção que muitas boas ideias acabam por ficar apenas no papel. “As mais variadas que se podem imaginar”, avalia. Os trabalhos podem ser consultados no mural dos alunos que, segundo, Cláudia Quintela começaram todos a observar e a desenhar as coisas de uma maneira diferente. “Já partem do princípio que vão desenhar uma ficha elétrica de modo a que se possa colocar um dedo para ser mais fácil retirar da tomada, já não vão desenhar uma ficha apenas extremamente bonita com um design inovador,”, exemplifica.

“A arte está em conseguir conciliar essas frentes que não são sempre convergentes. Um designer famoso dizia: ‘Um designer conhece e cumpre todas as regras e subverte-as todas uma, a uma’. Cumpre-as e consegue-as ultrapassar. Deus nos livre dos que só sabem cumprir as regras e fiquem satisfeitos com elas”. Paula Trigueiros

“Para encontrar soluções de forma metódica tem que se fazer a análise, a pesquisa e tem que envolver e falar com as pessoas”, frisa a docente. Cláudia Quintela aponta esta abordagem como essencial e foi assim que descobriu que as pessoas que têm alguma incapacidade arranjam soluções para resolver os problemas no dia-a-dia. “Desenvolvem uma maneira diferente de fazer a mesma coisa”, sublinha. “É importante falar com as pessoas para se identificar os problemas”, concorda a estudante.

Mais informações sobre os trabalhos da unidade curricular da última edição do mestrado: https://padlet.com/ptrigueiros2016/8al8qhony4xiqouh

Mais informações sobre os trabalhos da unidade curricular do último 2.º semestre (2019-2020) da UC, “Design Inclusivo” – Opção UMINHO: https://padlet.com/ptrigueiros2016/goy3lf73n7a8r3pl

Mais informações sobre os trabalhos apresentados na RiseWiseJam 2020 em “Inclusive minute”: https://risewisejam2020.wixsite.com/risewisejam2020/inclusive-minute?pgid=k9wji2jv-18a2d8fd-b506-4df2-92ad-7a7008988901

Mais informações sobre as opções UMinho em: https://alunos.uminho.pt/PT/estudantes/Paginas/InfoUteisOpcaoUMinho.aspx

Mais informações sobre o Mestrado em Design de Produtos e Serviços https://www.arquitectura.uminho.pt/pt/Ensino/Mestrados/Mestrado-emDesign-de-Produto

Sobre o autor

Fórum editor

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

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