Um peregrino da poesia

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Um peregrino da poesia

Manel de Alecrim é o poeta que escreve sobre a inquietação do amor e a forma como vê o mundo que o rodeia. André Ferreira é o jovem que dá corpo a este pseudónimo e que gostaria de ver publicados os poemas – são mais de cem organizados em três obras, prontos para que este sonho se transforme em realidade.

Escreve desde os 15 anos, mas graças ao serviço de assistência pessoal que passou a usufruir no âmbito dos projetos piloto do Modelo de Apoio à Vida Independente (MAVI) o jovem tem vindo a desenvolver cada vez mais a veia poética. “Eu conheci o André e a sua família em setembro. Percebi logo que são uma família unida e muito centrada numa atitude positiva”, constata o assistente pessoal, João Miranda.

André Ferreira não fala e tem baixa visão. Conta com a família e com o assistente pessoal para transpor para o papel os poemas que cria e os contos que começou a desenvolver. “Ele sempre disse umas frases interessantes, mas escrevia pouco e agora quando entrou o Fábio, o primeiro assistente pessoal, é que nos lembramos de começar a escrever as coisas”, conta Fernanda Abreu. “Já tenho três livros”, traduz a mãe. “Ele tira fotocópias porque eu não tenho poder financeiro para publicá-los”, acrescenta.

A família consegue compreendê-lo e também João Miranda arranjou uma forma de comunicar com o cliente do Centro de Apoio à Vida Independente da Póvoa de Lanhoso. Utiliza o abecedário para descobrir as palavras e transformá-las em frases que correspondam ao que o André pensa e gostaria de transmitir, tanto nos poemas como nas conversas com as pessoas. “Ele chegou a fazer rádio, ele era muito comunicativo”, sublinha a mãe.

André Ferreira tem um tumor cerebral diagnosticado a 17 de dezembro de 2007. Tinha sete anos e aos oito foi operado, foram feitas análises “para saber que tipo de tratamento o André iria fazer mas “não deu para remover o tumor”. “Os médicos pensavam que o André tinha neurofibromatose, uma deficiência no cromossoma 17 que provoca excesso de tumores que se alojam normalmente no cérebro”, começa por explicar a mãe, Fernanda Abreu. “Fez quimioterapia durante ano e meio e o tumor estabilizou”, acrescenta.

Foi um período particularmente difícil porque o André permaneceu esse tempo em casa e só regressou à escola no 5.º ano. ”Mas entretanto o tumor aos 14 anos voltou a desenvolver-se e iniciou novamente o processo de quimioterapia”, lembra a mãe.

Manel de Alecrim é apaixonado. Rendido às paixões da vida e da juventude, encontra no amor romântico a inspiração que precisa para mentalmente desenrolar os poemas que cria. “Há sempre alguém, há sempre alguém. Há sempre uma musa inspiradora”, comenta a mãe que acrescenta, traduzindo o que o filho diz, que há uma miúda que estudou com o André “do quinto ao nono que o inspirou muito”.

André Ferreira é obstinado. A obstinação que o fez, depois de um ciclo de quimioterapia, completar a pé em 11 dias o Caminho de Santiago é a mesma que o fez recusar, por diversas vezes, os ciclos semanais de tratamento por quimioterapia. “O André decidiu fazer uma coisa que eu nunca quis que ele fizesse que era radioterapia porque eu sabia que ele ia ficar com estas sequelas e aí é que piorou muito. Deixou de ver, deixou de falar, deixou de andar”, lembra Fernanda Abreu.

“Não estás arrependido?, pergunta a mãe. “Assim ele sabe como é”, ajudou a irmã Joana Ferreira a traduzir o que o André estava a tentar dizer. “Bateu com a cabeça, fez galo e agora sabe que tem ali parede”, resumiu Fernanda Abreu. “Mas ele é a extensão de nós, como mãe dói muito”, comenta. “Agora é trabalhar as sequelas”, atira.

Tinha 19 anos e conseguiu recuperar a marcha mas Fernanda Abreu tem dificuldades em avaliar o nível de comprometimento da visão do filho: “Ele às vezes não consegue ver um camião à frente dele, outras vezes consegue ver os olhos azuis de alguém”, exemplifica.

Além das massagens de relaxamento e da acupuntura, a mãe do André admite que usa canabidiol para reduzir as convulsões de epilepsia do filho, provocadas ou pelo crescimento do tumor ou pelos tratamentos. “Eu neste momento estou a dar-lhe uma coisa que não é legal, mas funciona”, assume.

Embora esta mãe não se sinta apoiada nesta prática terapêutica pela medicina convencional, que manifesta ainda muitas reservas em relação à utilização do óleo de canabidiol (CBD) para fins terapêuticos, o uso medicinal dos derivados de canábis já está regulamentado e já aparece no site do Infarmed.

Existem muitas dúvidas sobre a utilização dos derivados da canábis, mas Fernanda Abreu não tem nenhuma em relação aos benefícios visíveis no filho. “O André esteve internado em julho para fazer a avaliação das crises e não pudemos deixar o frasco durante 24 horas. Conclusão: o relatório que me deram foi que o André teve 32 crises nessas 24 horas”, descreve.

Já fazem reiki há 11 anos e fica contente por saber que os hospitais têm vindo a autorizar a utilização desta terapia nos doentes oncológicos. “É menos uma batalha que tenho que travar porque no início era conotado como bruxarias, o oculto e as pessoas não percebem que somos um todo e estamos todos conectados por várias ligações. E que às vezes dói-nos o braço porque há certas e determinadas coisas que o nosso coração e a nossa alma não quer que façamos e continuamos a fazer”, explica. “Reiki é amor, mas ele não quer que eu lhe faça”, lamenta Fernanda Abreu. André interrompe: diz que gosta de fumar e assume que às vezes se sente mais calmo quando fuma. Mas a mãe corrige: “Sabes que isso é o que tu pensas, não é o que acontece. Porque quando fazes reiki ficas muito mais calmo”.

O André e a mãe chocam muito. A proximidade e o convívio permanente assim o ditam. “É a nossa quarentena há 12 anos. Nós chocámos com quem nós amámos mais”, confirma Fernanda Abreu. “Neste momento, que acabou a quimioterapia e por causa da pandemia, tem que ficar mais recolhido, mas o André é um miúdo e precisava de sair, estar com os amigos e fazer atividades adaptadas a ele. Porque o contacto com outras pessoas era importante para o crescimento pessoal dele”, considera a mãe.

“Agradeço muito ao CAVI da Póvoa de Lanhoso porque é a única ligação que tem à sociedade, se não era 100% nós e assim pelo menos uma tarde por semana nós conseguimos descansar um bocadinho e isso é importante”, explica a mãe.

O pai de André Ferreira também tem problemas de saúde. Depois de um transplante dos rins mal sucedido é com a hemodiálise que encara a “batalha” com estes órgãos que teimam em não funcionar.

Fernanda Abreu diz que a família se distancia quando alguém fica doente. “As pessoas não sabem lidar com os problemas dos outros e então é melhor afastar-se. Se eu vejo-te a ti com a doença, eu não quero estar ao pé de ti porque não quero ver tristeza”, contextualiza. A convivência com os outros pais nos corredores dos hospitais é fundamental para compreender que este afastamento é comum e que a noção de empatia muda. “Passamos a ser mais solidários com aqueles que nos querem bem”, diz.

Estes anos de partilha de dores, desesperanças mas também de muitas esperanças com tantos jovens que, como o André, têm graves problemas de saúde ensinaram esta família a ver “o copo meio cheio” e a agradecer por se conseguir manter unida. Mas esta união implicou também muitos sacrifícios, nomeadamente financeiros, motivados pelas constantes idas para o hospital e por as terapias realizadas no privado. Chegaram a passar natais “apertados” mas a mãe do André acredita que “quando se faz as coisas de coração as coisas vão fluindo”.

Joana Ferreira tinha dois anos quando o irmão foi diagnosticado. “Ela precisava de nós e na altura fiquei eu a trabalhar e o pai a tomar conta do André, o que não é o normal”, comenta. Foi uma decisão que teve em consideração a pesada carga horária laboral do pai, enquanto eletricista. “O elo familiar com a Joana não ia estar tão ligado porque o infantário não abre às 07h, nem fecha às 21h e ia andar de lado para lado e então decidimos sacrificar a parte financeira em prol da família”, explica Fernanda Abreu que é auxiliar da ação educativa numa escola. “O meu marido ficava a tomar conta do André, nós funcionários públicos trabalhámos menos horas, então levava a Joana para o infantário e à noite recolhia e estávamos todos em casa”, explica.

A camaradagem entre irmãos começou cedo: “O André ia fazer os tratamentos e a irmã punha logo a máscara como quem ‘Eu estou solidária contigo’. Eu dava a medicação ao André e porque ela também tinha dores de cabeça eu dava-lhe um M&M para lhe aliviar as dores de cabeça [risos]”, lembra a mãe. “Ela é o nosso braço direito desde pequena”, elogia a mãe.

André Ferreira já foi uma vez a pé a Fátima e três vezes a Santiago de Compostela. “Dei-lhe a mão na Igreja da Oliveira e só paramos em Santiago de Compostela e foi maravilhoso”. Os pés do jovem ficaram “numa lástima” mas nunca desistiu. “O André é, assim como a família, uma pessoa com uma resiliência inabalável”, confirma João Miranda.

O companheirismo e amizade por parte deste assistente pessoal acalenta a convicção de que a publicação dos livros de poesia é possível: “Percebi que a poesia para ele é muito importante e desta forma tento ajudá-lo a trilhar esse caminho, o caminho do sentido da vida. É uma forma de o ajudar a incluir na sociedade, de mostrar que apesar das limitações físicas é uma pessoa com muito valor e potencial pessoal”, acrescenta.

A televisão está ligada, mas não atrapalhou a conversa que fluiu com a mesma naturalidade com que os três cães adotados acolhem quem entra nesta casa.

Na cozinha, a irmã do André pede indicações à mãe para cortar o tecido com que farão os sacos das prendas de natal: “Nós aqui em casa é que fazemos as prendas para oferecer e os saquinhos para as pôr e evitar o plástico”, contextualiza Fernanda Abreu. Estão a “embrulhar” uma boneca, a Alice no País das Maravilhas, feita em crochet. É para oferecer à Alice, a afilhada de Joana Ferreira. “Eu perguntei ao André se queria que lhe fizesse o Principezinho para lhe oferecer no natal”, disse que não queria. Nunca leu, prefere Fernando Pessoa.

É tudo feito com muito amor e se o amor tem cheiro, naquela casa de artesãos e peregrinos o amor cheira a incenso.

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