ACAPO de Braga dá uma resposta distrital no âmbito da cegueira e baixa visão

PorFórum

ACAPO de Braga dá uma resposta distrital no âmbito da cegueira e baixa visão

Em entrevista ao Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães, o secretário da direção da delegação de Braga da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), Filipe Azevedo, fez um apanhado dos 21 anos de existência desta delegação distrital. Com sede instalada na rua Cruz de Pedra, em Braga, esta organização existe desde 25 de abril de 1999 e é o local a que os vimaranenses com problemas de visão, quer sejam cegos ou tenham baixa visão, se devem dirigir para encontrar apoio na resolução dos potenciais problemas.

Fórum Municipal (FM) – Quais são os marcos mais importantes conquistados que tenham contribuído para o crescimento da associação?

Filipe Azevedo (FA) – A celebração de um protocolo com o Centro Distrital de Solidariedade e Segurança Social de Braga que nos ajudou a implementar um conjunto de valências no âmbito da reabilitação para pessoas cegas e com baixa visão, e também a aquisição das nossas instalações.

FM – Quais são as atividades e projetos desenvolvidos mais importantes?

FA – Os serviços no âmbito da reabilitação tais como: mobilidade, atividades da vida diária, informática, Braille, apoio psicológico, assistência social, venda de materiais de apoio à cegueira e baixa visão, serviço de guia acompanhante a compras, consultas médicas e repartições públicas. E todo o trabalho que fazemos de sensibilização junto da comunidade civil, sobretudo junto das entidades públicas e serviços privados vocacionados para o atendimento ao público.

FM – O que têm a oferecer a quem vos procura?

FA – Para além dos serviços supra mencionados, temos para oferecer uma sala de estimulação sensorial, transcrição de documentos para Braille, atividades de cultura e lazer em que realizamos várias visitas por ano a equipamentos e atividades culturais acessíveis. E aquilo que nos parece, simbolicamente, mais importante é o facto de todos os corpos dirigentes da ACAPO serem, obrigatoriamente, pessoas cegas e com baixa visão, e essa é, em nossa opinião, a grande mais valia em ser associado, ou seja, o facto de poder eleger, ser eleito e tomar parte ativa nos destinos da instituição.

FM – Que dados existem sobre as pessoas com deficiência visual do distrito de Braga?

FA – Os dados oficiais mais recentes baseiam-se nos censos de 2011. É melhor esperar pelos censos de 2021. No entanto neste momento nós delegação de Braga temos sinalizados no distrito 470 pessoas com deficiência visual.

FM – Esta próxima questão é incontornável: Guimarães é uma cidade boa para morar na perspetiva das acessibilidades para as pessoas cegas e com baixa visão?  

FA – Ao contrário de outros municípios do distrito de Braga, o município de Guimarães não tem auscultado a ACAPO no sentido de aferir das principais necessidades das pessoas cegas e com baixa visão do concelho, ao nível das acessibilidades. Tendo em conta o que os nossos associados nos relatam e a observação que fazemos no terreno, as passadeiras com pavimentos táteis e os semáforos sonoros são em número claramente insuficientes, e em vários locais os dissuasores de estacionamento não são facilmente identificados quer pela bengala das pessoas cegas porque não têm uma base uniforme, quer pelas pessoas com baixa visão porque não oferecem contraste cromático. A este respeito importa salientar que a ACAPO é, por princípio, contra todo o tipo de dissuasores de estacionamento, porque o ónus deve incidir sempre na fiscalização e não em prejudicar os peões. No entanto, a existirem, os dissuasores devem ser facilmente detetados pelas pessoas com deficiência visual. A Delegação de Braga da ACAPO já tem reportado a existência de alguns perigos na via pública que infelizmente ainda não foram corrigidos. Pensamos que haveria todo o interesse em criar um canal institucional com vocação mais técnica, entre o pelouro das acessibilidades do município de Guimarães e a delegação de Braga da ACAPO, no sentido de agilizar a identificação e posterior correção dos problemas.

FM – Até que ponto a pandemia comprometeu o desenvolvimento da atividade da delegação de Braga da ACAPO?

FA – Foram suspensas as atividades de cultura lazer, vários utentes preferiram suspender os serviços que usufruíam antes da pandemia e tivemos durante um mês e meio com os serviços de delegação encerrados. Mesmo assim nesse período mantivemos sempre os meios de contacto habituais ativos e pudemos fazer face a alguns pedidos emergentes.

FM – De uma maneira geral, como está o vosso “ânimo” (receios, cansaço etc.) neste período particularmente difícil? 

FA – Estamos todos expectantes com a possibilidade de o próximo ano nos trazer algum abrandamento nas restrições. No entanto ainda não temos dados suficientemente consistentes que confirmem esta tendência, pelo que por agora é apenas uma esperança.

FM – Enquanto secretário da direção da ACAPO este é o momento mais exigente da sua atividade dirigente?

FA – Já temos tido outros momentos mais exigentes do que este. Felizmente tem sido possível manter a instituição a funcionar dentro das regras e continuamos a dar resposta aos nossos associados e utentes que nos têm procurado.

FM – Como têm sido vivenciados estes meses em termos profissionais? Quais são as prioridades definidas na atuação da ACAPO? Quais são as maiores dificuldades sentidas.

FA – A grande dificuldade tem sido fazer com que as pessoas venham à ACAPO. Nós precisamos que os nossos associados e utentes requisitem os nossos serviços para com isso garantirmos a taxa de execução que nos propusemos. Até ao momento temos conseguido esse objetivo, mas como é natural tem havido um decréscimo na procura.

A outra dificuldade tem sido não podermos realizar as atividades de cultura lazer. É uma das valências mais procuradas pelos nossos associados e é das que mais falta faz para combater um dos flagelos mais comuns da maioria das pessoas com deficiência visual que é o isolamento social, que naturalmente se agrava significativamente com esta pandemia.

FM – De que forma é que a ACAPO tem ajudado a ultrapassar os desafios causados pela pandemia?

FA – Temos usado as plataformas digitais de comunicação para aproximar as pessoas da instituição e dos colaboradores. Temos privilegiado ainda mais o serviço de proximidade prestado no domicílio do utente para evitar deslocações. Neste último ato eleitoral que decorreu no dia 12 de dezembro promovemos uma forte campanha de sensibilização junto dos nossos associados, para que estes privilegiassem o voto por correspondência.

FM – Olhando para trás, como avalia a atuação governativa até ao momento?

FA – Na primeira fase do combate à pandemia, houve um esforço do governo para que as IPSS [Instituições de Solidariedade Social] não saíssem prejudicadas por causa da suspensão de atividade. Neste momento essa proteção é muito menor e para instituições que dependem excessivamente do financiamento estatal não tem sido fácil manter os níveis de execução pré pandemia.

As IPSS que, como nós, têm protocolos com o Estado têm estado sujeitas a uma pressão muito grande e que está a dificultar muito a nossa ação, até pelo pânico que isso tem causado.

FM – Como é que avalia a forma como as entidades se têm organizado desde que isto começou?

FA – Não é fácil articular e concertar formas de atuação quando a informação disponibilizada é por vezes tão contraditória e inconsistente.

FM – Teme pelo futuro das organizações sociais?

FA – No caso da delegação de Braga da ACAPO seria uma tragédia se o nosso futuro estivesse em causa, porque prestamos um serviço insubstituível. Neste momento, se uma pessoa que resida no distrito de Braga e perca total ou parcialmente a visão se quiser reabilitar, o Estado por si não tem qualquer resposta.

FM – E pelo futuro das pessoas com deficiência? Considera que o momento que se vive representa um retrocesso na luta pelos direitos e igualdade de oportunidades das pessoas com deficiência?

FA – É muito cedo para avaliar. Ainda não sabemos a dimensão desta crise e o impacto que ela vai ter na economia. Neste momento eu diria que apesar de tudo os direitos que conquistamos têm sido poupados, mas acreditamos que outras questões que estavam a ser tratadas poderão estar altamente condicionadas por causa da pandemia. Diria que tem sido possível evitar de certa forma o retrocesso, mas infelizmente tem sido muito mais difícil continuar esta senda de progresso.

FM – A inclusão e a equidade até que ponto ficam comprometidas num cenário como este em que a tendência é acentuar as desigualdades sociais?

FA – Também é muito cedo para avaliar. Mas neste momento as questões mais complexas têm que ver com a taxa de empregabilidade de pessoas com deficiência que já era deplorável antes da pandemia e que já se sabe que está ainda pior.

FM – Como é feito o contrabalanço entre o risco do vírus e as interrupções nos vários serviços e rotinas que ele causa?

FA – Tivemos apenas um período de interrupção. Neste momento os utentes que deixaram de usufruir dos nossos serviços foi por opção própria. No entanto nós temos procurado incentivar as pessoas a virem às nossas instalações porque é seguro e existe um grande controlo na forma como são aplicadas as regras da Direção Geral de Saúde.

FM – Sente que esta é uma oportunidade para resolver problemas estruturais que possam existir?

FA – Problemas estruturais não diria. Creio que houve sobretudo uma maior consciencialização das vantagens reais das tecnologias de comunicação. Por exemplo, depois da pandemia pensamos realizar as assembleias-gerais e outras reuniões alargadas de forma mista, presencial e remotamente. Isso vai permitir a muitos associados nossos que residem longe da delegação, têm mobilidade reduzida e impossibilidade de usar transporte público designadamente ao fim de semana, de participarem ativamente na vida da delegação.

FM – Que mensagem gostaria de deixar a TODOS?

FA – Temos de resistir porque todos juntos fazemos muita falta para levantar o país no pós pandemia.

 

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