Covid-19: O regresso às instituições

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Covid-19: O regresso às instituições

Depois de três períodos de estado de emergência para travar o contágio por covid-19, o país está desde 03 de maio em estado de calamidade pública e o plano de desconfinamento está em marcha. O Governo prevê que os equipamentos sociais de apoio na área da deficiência reabram a partir da próxima segunda-feira, 18 de maio. A apreensão é geral e tanto os representantes das instituições como os familiares dos clientes destas valências sentem que esta é uma decisão precipitada.

As instituições de apoio às pessoas com deficiência têm até ao dia 01 de junho para retomar a atividade encerrada desde 16 de março. “A abertura dos equipamentos sociais parece-nos precipitada, grande parte das pessoas com deficiência são muito afetuosas pelo que manter distanciamento social com esta população é praticamente impossível”, avalia a diretora técnica do Alecrim – Lar Residencial e Centro de Atividades Ocupacionais da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, Cláudia Leite. Também o presidente da Cercigui, Rui Leite considera prematura a retoma de atividade dos CAOs mas “entende a urgência de começar a abrir algumas respostas sociais de apoio às famílias”

“Eu sinto que é precipitada a reabertura e estou com muito receio, embora a Mafalda esteja mais protegida porque são menos utentes que vão do exterior”, refere Raquel Pereira, a irmã de Mafalda Pereira que frequenta o CAO do Alecrim da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. 

Também os familiares dos clientes da Cercigui estão a reagir de forma cautelosa e algumas famílias preferem esperar um pouco mais e “ir retomando o regresso paulatinamente”. Mas os familiares dos clientes do CAO do Alecrim “já acusam algum cansaço de estarem com os utentes em casa”. “Em alguns casos os familiares cuidadores já tem idades avançadas e os cuidados exigem acima de tudo esforço físico”, explica Cláudia Leite.

São três os clientes que recomeçam a frequentar as atividades ocupacionais e se vão juntar aos 14 colegas que estão no lar residencial. “O ideal era ter espaços para separar os utentes de lar residencial e os utentes de CAO. Mas os equipamentos não nos dão essa possibilidade”, analisa a diretora técnica. Cláudia Leite diz também que ainda não há data prevista para a reabertura do CAO do Alecrim e que “estão a ser estudadas um conjunto de medidas” que permitam a instituição “seguir este caminho com o mesmo êxito alcançado até à data”.

“O que me preocupa mais não é como a instituição procede. Se todas as famílias tiverem os devidos cuidados não acredito que seja um problema ir para o Alecrim”, admite a irmã de Mafalda Pereira.

A Cercigui reabre na próxima segunda-feira o CAO da sede, no centro da cidade, com cerca de 11 jovens, enquanto que o CAO de S. João de Ponte mantém-se em funcionamento apenas com os clientes do lar residencial.

A instituição tem vindo a adaptar sucessivamente o plano de contingência e uma nova reavaliação será realizada para verificar medidas que possam ser necessárias para reforço do plano. “A Cercigui está a tomar as devidas medidas de segurança para assegurar que tudo corra dentro da normalidade que se impõe”, acrescenta Rui Leite.

Foram realizados testes de rastreio à covid-19 a todos os colaboradores e clientes das instituições de apoio às pessoas com deficiência de Guimarães. Cláudia Leite diz que este momento foi vivenciado “com alguma tensão”, porque a respetiva realização “não é um procedimento fácil” e devido à ansiedade pela chegada dos resultados que “felizmente foram todos negativos”. Também Rui Leite revela que foi “com agrado” que receberam o resultado negativos da mais de centena de testes realizados aos colaboradores e clientes da Cercigui. Até ao momento não foi possível confirmar o resultado dos testes realizados pela Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães.

A reabertura das valências encerradas vai trazer novos desafios às instituições e Raquel Pereira considera que “ninguém está livre” de transportar o vírus para o interior das instituições e “ninguém é culpado” se o fizer. “Eles são miúdos muito afetuosos, precisam de afeto. Como é que as instituições vão conseguir lidar com isto tudo? Com os meninos que vão do exterior? É muito complicado e muito sinceramente está-me a fazer muita confusão”, desabafa.

Embora as saudades que Mafalda Pereira tem dos amigos sejam cada vez mais difíceis de gerir no interior de quatro paredes, a irmã pondera adiar por mais algum tempo o regresso da jovem à instituição. A janela temporal é o final do ano letivo do filho de oito anos, altura em que Raquel Pereira terá que regressar ao trabalho porque deixará de receber o apoio excecional à família no âmbito da crise epidémica do COVID19. “Precisámos todos de dinheiro para comer”, atira.

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