O regresso à nova normalidade de Hélder Vareta

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O regresso à nova normalidade de Hélder Vareta

Tem 35 anos, é vimaranense e jogador de basquetebol em cadeira de rodas. Foi de bicicleta que há 12 anos teve o acidente que lhe provocou uma lesão motora, mas continuou a viver a vida sobre rodas e de forma intensa. Nesta fase de pandemia por covid-19, Hélder Vareta está literalmente a preparar-se para regressar a uma nova normalidade: entrou no estado de emergência a representar a APD Paredes e na fase de desconfinamento vai começar a jogar na APD Braga. A próxima época é, por isso, sinónimo de tudo o que o move: aventura, adrenalina, emoção e conquistas, muitas conquistas.

É na garagem que treina o trabalho de cadeira e na estrada faz o trabalho físico com a bicicleta de corrida. As saudades de uma tabela de basquetebol vai-as matando com umas idas esporádicas ao Parque da Cidade Desportiva, junto à Pista de Atletismo Gémeos Castro. “Mas é muito complicado, tenho que levar alguém comigo porque se a bola sai do campo com a cadeira de basquetebol não dá para a ir buscar”, explica.

Mas já sente a falta de um treino a sério, ao final do dia e ainda cheio de óleo nas mãos da oficina de carros onde trabalha. “Os pavilhões devem abrir em setembro, mas vou começar a estar em contacto com o treinador e os atletas de Braga e como há tabelas e campos ao ar livre vamos tentar jogar e fazer treinos mais puxados um bocado”, contextualiza.

Admite que encarar a fase de confinamento não foi fácil. Em janeiro foi hospitalizado com problemas num dedo do pé, porque a humidade “por causa do trabalho” e a falta de sensibilidade causaram-lhe uma ferida. “Estive 16 dias internado e depois disso continuei de baixa até março, altura em que apareceu a covid-19 e já estava a ficar um bocado massacrado por estar em casa”. Agora diz que já está mais aliviado mas falta-lhe “qualquer coisa”.

Os desportos com bola nunca lhe interessaram. É um apaixonado por carros, motas e bicicletas. Depois do acidente, graças a um feliz acaso, acabou por conhecer o basquetebol em cadeira de rodas. Foi “amor à primeira vista” por uma modalidade que à paixão pelas rodas juntou o entusiasmo da corrida e o êxtase de encestar.

Estava no Porto a apoiar a organização de uma meia-maratona e como faltou um atleta com deficiência de Alcoitão, havia uma cadeira disponível para correr. “Peguei na bicicleta pela primeira vez, fiz a corrida e acabei por dar 32 minutos de avanço ao segundo lugar. Ficaram todos surpreendidos”, lembra com orgulho Hélder Vareta.

O feito chegou às redes sociais e aos ouvidos do presidente da delegação de Paredes da Associação Portuguesa de Deficientes que o convidou a experimentar basquetebol em cadeira de rodas. Três anos depois do acidente, Hélder Vareta descobria a modalidade que o ia voltar a arrepiar, a fazer sentir a adrenalina e a vontade de vencer. “Eu sou daqueles que vibro com tudo o que faço”, garante.

Resume os nove anos enquanto atleta de basquetebol em três vitórias: A primeira foi quando jogou um jogo todo, a segunda vitória foi ganhar a uma equipa que a APD Paredes sempre teve dificuldades em vencer e a terceira foi ser convocado para a seleção nacional. “Eu pensava assim: ‘Somos quantos os convocados?’ Somos 25. ‘E quantas pessoas podem ir para um campeonato da Europa?’ 11. Ora bem, eu tenho que lutar até aos 11. E consegui”, refere.

Só a família está acima de tudo isto. É casado, tem uma filha prestes a fazer cinco anos e o desejo de ter mais filhos também o orienta nas opções de vida que tem feito. Treinar em Braga é mais aliciante, mas também é mais perto. Mudar de emprego é outro dos objetivos a cumprir para conseguir ter mais estabilidade para se dedicar mais tempo à família e ao basquetebol. “Só queria que em Portugal o basquetebol fosse como é lá fora. Se fosse assim podia viver do Basquetebol”, compara.

Namorava há cinco anos antes de ter o acidente e namorou outros cinco anos depois. Está casado há sete anos, mas houve muita gente que não acreditava no amor que unia Hélder Vareta e a esposa Selma Ribeiro. Agora o que mais encontra são “caras boas”, embora haja ainda muitas “caras de pena” mas a boa disposição com que leva a vida é a mesma que usa para enfrentar os comentários menos felizes. “Tu [Selma Ribeiro] andas com ele por pena e quando ele tiver mentalizado vais fazer a tua vida, és nova e bonita”, diziam as pessoas.

A filha também já ouve comentários acerca da lesão do pai e o facto de utilizar cadeira de rodas, mas às observações de que o pai nunca mais vai andar ela responde: “’O meu pai é altamente, o meu pai faz tudo o que o teu pai faz, ou melhor. O meu pai consegue andar de cadeira de rodas e o teu não’. Não fomos nós que dissemos”, garante Hélder Vareta.

Foi a dar um salto de bicicleta que o atleta da APD de Braga, aos 23 anos, caiu e partiu a coluna. Foi um pequeno acidente que provocou uma grande lesão e que acabou por mudar a vida de Hélder Vareta. Foi em 2008 que o vimaranense deu este salto para a vida diferente, mas feliz, que tem agora. Não tem sensibilidade dos joelhos para baixo, mas graças a umas talas que utiliza para estabilizar a posição dos pés consegue, com muletas, fazer pequenas deslocações. Esta flexibilidade acaba por ser útil para contornar muitos dos obstáculos que surgem no dia-a-dia à cadeira de rodas que usa para se deslocar para todo o lado.

“Chego ao 21 de agosto e vem-me um friozinho. Esse dia não é para estar com a mulher, não é para estar com a filha, não é para estar com ninguém. Esse dia é meu. Vou fumar um cigarro ao sítio onde tive o acidente, eu vejo acidente. Eu penso assim ‘Porquê eu?? E digo logo: ‘Porque eu tive força para me levantar’”.

E o resto da família? Hélder Vareta diz que falar do pai e da mãe é uma conversa que dá para chorar e para rir. “Eu nunca tive motas e andava todos os dias de mota. Pedi uma mota ao meu pai com 13 anos e o meu pai disse: ‘Tu és maluco, ganha juízo’”. E recebeu uma bicicleta. Aos 16 anos Hélder Vareta voltou a pedir uma mota e recebeu outra bicicleta. Aos 23 anos, quando teve o acidente já tinha carta de condução, carro e duas motas que comprou com o próprio dinheiro. “No dia em que tive o acidente ia de férias com a minha namorada para Espanha. Fiz a revisão à carrinha e fui dar uma volta de mota”, lembra. Como estava bom tempo, combinou com os amigos dar uma volta de bicicleta. “Nunca mais me esqueço: fui pousar a mota e peguei na bicicleta e a minha mãe disse ‘Finalmente vais dar uso à bicicleta e vais pousar as motas’”.

Passados 45 minutos a mãe do atleta recebeu as sapatilhas do filho em casa e, tal como o pai, pensou sempre que o acidente grave que Hélder Vareta tivera tinha sido de mota. “Eu tinha um primo em França que andava de cadeira de rodas e eu sonhava comigo sentado numa cadeira de rodas. E eu estou numa cadeira de rodas e fez-me ganhar um bocado de juízo”. Mas não consegue deixar de sentir alguma ironia por ter tido o acidente de bicicleta quando toda a gente votava que a “desgraça” de Hélder Vareta fosse as motas.

Durante o período no centro de reabilitação “não havia tristezas”. “Nos corredores toda a gente sabia que eu era o primeiro a fazer barulho e o último a ir para a cama. E acho que foi assim que eu consegui levar tudo para a frente”, considera.

Além do espírito positivo que sempre teve, contou com a ajuda da mãe, do pai e do irmão e o apoio incondicional da esposa, então namorada. “Sem ela nada era possível. Tudo com ela e tudo graças a ela”, sublinha.

“Todos os dias vejo o acidente e todos os dias quando acordo ponho os pés fora da cama e caio ao chão. A minha mulher diz ‘Porque é que insistes?’. Porque eu todos os dias tenho esperança de deitar os pés fora da cama e ir à casa de banho sozinho sem cadeira, sem talas”, confessa. A frustração da nova condição física acompanhou-o nove meses depois do acidente. Já fez as pazes com o corpo e com o que lhe aconteceu e embora a possibilidade de voltar a andar seja remota, para Hélder Vareta a esperança subsiste. “Eu acredito que um dia vou sair da cama e vou andar. E no dia em que isso acontecer, a minha mulher sabe, que vou à garagem, pego no carro vou até à Mota Fundador, à Yamaha, deixou o carro e saio de mota”, confessa. “Ela já rezou para que isso não acontecesse”, acrescenta.

Hélder Vareta diz que agora percebe a preocupação do pai em relação às motas e ao perigo que representam, mas assume que adorava que a filha gostasse de andar de mota. “Mas para já não vejo jeito. Ela é cagarolas e acho que é porque pensa no meu acidente”, arrisca. Eu até hoje não lhe consegui explicar que não faz mal andar de bicicleta. Eu quero-lhe tirar as rodinhas da bicicleta dela e ela não me deixa. Sei que vai ser difícil, mas eu também não puxo”, esclarece.

O atleta consegue, apesar da lesão, andar de moto 4 “porque não precisa de equilíbrio”, consegue andar nas aceleras e nas scooters “porque são leves” e também dá “umas voltinhas” nas motas de monte. “Neste momento a coisa que eu tenho mais vontade de fazer é pegar numa mota de pista e ir dar uma volta. Aí sinto-me livre”, admite. A adrenalina desses passeios tem sido substituída pelo basquetebol e agora que vai jogar pela APD de Braga a competição vai ficar ainda mais empolgante.

“Aceitei a proposta de Braga porque são campeões há quatro anos sem derrotas. É a melhor equipa atual e eu quero ir para lá disputar o meu lugar. Vou lutar para ser titular em todos os jogos. Será para eu aprender mais e ser melhor do que o que sou”, explica. “Quero mais, eu quero títulos, eu quero taças, eu quero medalhas, eu quero nome, quero tudo o que for possível dentro da modalidade”, conclui.

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