CRFP da Cercigui existe para “encontrar o local certo para a pessoa certa”

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CRFP da Cercigui existe para “encontrar o local certo para a pessoa certa”

José Carlos Pereira é assistente administrativo na junta de freguesia de Silvares, em Guimarães, há dois anos. Foi no Centro de Reabilitação e Formação Profissional (CRFP) que tirou o curso para exercer estas funções e é este centro de formação que muitas pessoas com deficiência ou incapacidade procuram para potenciarem a respetiva inserção socioprofissional.

José Carlos Pereira tem 22 anos e trabalha desde os 20 anos. Completou o 12.º ano na Escola Secundária Martins Sarmento e foi encaminhado por aquele estabelecimento de ensino vimaranense para o CRFP “por necessitar de um acompanhamento mais individualizado” no restante percurso de formação profissional.

José Carlos nasceu com uma doença neuromuscular e apresenta, por isso, “uma marcada incapacidade motora” e insuficiência respiratória. “Dada toda esta problemática, todo o percurso escolar foi condicionado, embora tenha concluído a escolaridade obrigatória, mas ao abrigo de um currículo específico individual”, explica a diretora-técnica da Cercigui, Ana Paula Moreira.

O jovem vimaranense foi encaminhado para as áreas de informática, onde fez experiências de orientação vocacional e optou pelo curso de Assistente Administrativo que concluiu em dezembro de 2018, depois de 2900 horas de formação, 650 das quais em contexto real de trabalho.

“Depois de concluído o estágio curricular, a Junta de Freguesia de Silvares proporcionou ao José Carlos um Contrato de Emprego Inserção +, através do apoio do IEFP [Instituto de Emprego e Formação Profissional]”, contextualiza Ana Paula Moreira que adianta ainda que José Carlos Pereira “continua a ser acompanhado pela equipa do Centro de Recursos Local da Cercigui, ao abrigo da Ação do Apoio à Colocação, estando eminente a sua contratação através da medida de Emprego Apoiado em Mercado Aberto (EAMA)”.

Além da oferta formativa, o Centro de Reabilitação e Formação Profissional (CRFP) tem vindo a desenvolver, “outras respostas para melhorar a empregabilidade das pessoas com deficiência e incapacidades (PCDI) como é o caso do Centro de Recursos Local para os Centros de Emprego de Guimarães, Braga, Santo Tirso e Felgueiras. Esta entidade de reabilitação além de fazer a avaliação e orientação profissional, também apoia a colocação em mercado de trabalho através de um processo de mediação entre as pessoas e os empregadores e está responsável pelo acompanhamento pós colocação, com o intuito de promover a manutenção no emprego e a progressão na carreira dos trabalhadores com deficiência e incapacidade.

“Efetuamos ainda avaliações da capacidade de trabalho para que se possam aferir os apoios a atribuir às entidades que se candidatam a medidas de apoio do IEFP e somos Centro Prescritor de Produtos de Apoio, produtos que permitam compensar ou atenuar as incapacidades para facilitar o acesso ao mercado de trabalho”, acrescenta a diretora técnica da Cercigui.

“Os cursos do CRFP têm especificidades, os programas de formação são adaptados, as turmas são mais pequenas e o acompanhamento mais individualizado do que num centro de formação regular e por isso somos procurados por quem tem mais dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e necessita de um atendimento mais personalizado”. Ana Paula Moreira

São já 30 anos de história a ajudar imensos formandos como o José Carlos Pereira a conseguir contrariar as baixas taxa de emprego de pessoas com deficiência ou incapacidade que se situam nos 11%. “Infelizmente, com a situação atual que vivemos relacionada com a pandemia, a empregabilidade deste público ficará ainda mais comprometida”, analisa Ana Paula Moreira.

A taxa de empregabilidade da Cercigui encontrava-se nestes últimos anos em sentido ascendente e chegou mesmo a atingir quase os 70%. “Estou um pouco apreensiva com estes próximos tempos, mas acredito que vamos conseguir encontrar a melhor solução para cada caso e continuar a contribuir para a construção de uma sociedade verdadeiramente mais inclusiva”, diz.

Mas, por outro lado, é de salientar que as empresas estão cada vez mais recetivas à contratação de pessoas com deficiência: “Em muitos casos, após o estágio, as entidades reconhecem competências e dão a oportunidade que este público tanto anseia. Obviamente que os apoios à contratação disponíveis através do IEFP são também um fator importante para o aumento desta tendência, assim como, a responsabilidade social das empresas”, assume.

Os formandos da Cercigui atualmente têm idades compreendidas entre os 17 e os 48 anos e tratam-se de pessoas com diferentes problemáticas associadas. Há os que procuram o CRFP por terem “têm mais dificuldades de aprendizagem” e outros porque não conseguem integrar-se no mercado de trabalho. “Somos procurados também por pessoas mais velhas, com incapacidades adquiridas e que necessitam de apoio para uma reintegração ou reconversão profissional”, exemplifica Ana Paula Moreira.

“É um orgulho enorme ver, por exemplo, casais que se conheceram aqui no Centro, muito jovens ainda, conseguiram formar família e ter a vida independente que tanto ansiavam. Temos muitos desses “jovens” que nos continuam a visitar após vários anos e para nós é sem dúvida muito gratificante perceber que de certa forma fazemos parte da sua história”. Ana Paula Moreira

José Carlos Pereira trabalha de segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 13h30 às 18h e tem em Helena Susana Pereira uma colega de trabalho satisfeita: “É um bom colega, muito prestável e atento às coisas”, refere a colaboradora da junta de freguesia de Silvares.

“Digitalizações, documentos, atestados, organização do arquivo”, são algumas das tarefas que José Carlos Pereira enumera em relação ao trabalho que desenvolve na junta de freguesia e que foi interrompido em meados de março devido à pandemia por covid-19. O atendimento passou a ser realizado por marcação e o jovem vimaranense teve que ficar uns tempos em casa. “Senti um pouco de ansiedade de estar em casa fechado sozinho porque os meus pais continuaram a trabalhar e o meu irmão também porque trabalha com eles numa confeção”, contextualiza.

“Sonho com um dia morar sozinho, ter a própria vida, sem depender de ninguém” revela. Do curso de formação não se esquece dos bons momentos que passou, da diversão entre colegas e das amizades que criou. “Recomendo”, termina. “Finalmente o seu projeto de vida começa a seguir o rumo que pretendia e o José Carlos é mais um dos casos com um final feliz’, acrescenta Ana Paula Moreira. “Como costumo dizer o segredo é mesmo “encontrar o local certo para a pessoa certa”, conclui a diretora-técnica da Cercigui.

 

As inscrições já estão abertas para novas turmas a iniciar em setembro dos seguintes cursos:

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