Terapia Assistida por Animais: Uma manhã com a Mel

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Terapia Assistida por Animais: Uma manhã com a Mel

A Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães (APCG) está a apostar em sessões de Terapia Assistida por Animais. Nesse sentido, a Mel e o Lord, dois patudos labradores já fazem parte, por assim dizer, da equipa técnica desta instituição. Os protagonistas do projeto Dr. Cão fazem as delícias dos clientes da APCG sempre que interagem com eles e o Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência assistiu a uma sessão para comprovar o entusiasmo vivenciado por todos.

À chegada, a Mel sossegada aguarda os comandos da dona, presa com a trela à volta da árvore que dá sombra à realização da sessão. O sol também ajudou com um compasso de espera, fazendo com que o calor desse tréguas e tornasse a manhã mais fresca para esta terapia assistida por animais ao ar livre.

“Temos que ter sempre em consideração o bem-estar de todos os presentes na sessão. O cão, que é aquele que mais dificilmente manifesta desconforto, tem que ser o meu principal alvo de atenção nesse sentido, até porque se, em qualquer momento, eu sentir que a cadela está desconfortável a sessão termina”, explica a mentora do projeto Dr. Cão, a enfermeira especialista em reabilitação, Rita Pereira.

A Alice não quis descalçar-se. É o Olivério quem tem a honra de abrir a sessão e, de pés descalços, faz festinhas à Mel, uma das protagonistas deste projeto em atividade desde 2016. Mais serena que o Lord, o outro Dr. Cão labrador, é a indicada para o objetivo desta sessão: estar calminha enquanto os participantes a acariciavam com os pés. “O Lord é muito mais efusivo e mais ativo do que ela. E quando eu quero uma sessão mais dinâmica em que é necessário trabalhar outras coisas, posso optar pelo outro cão, depende sempre daquilo que queremos trabalhar”, elucida a enfermeira de reabilitação.

As atividades ou terapias assistidas por animais podem se realizar de inúmeras formas e com inúmeros formatos. Já se realizaram sete sessões desde que a terapeuta Rita Pereira integrou a equipa técnica da APCG, em setembro. “Entretanto com a Covid-19 as coisas complicaram-se um bocadinho, depois começamos a tentar retomar porque de facto é uma mais-valia para eles, para a intervenção porque, normalmente, o psicólogo também está cá, a nutrição também está cá, a terapia ocupacional também”, contextualiza a diretora-técnica da APCG, Cláudia Esteves.

Esta intervenção – quer seja na modalidade de atividade, terapia ou educação – engloba todas as vertentes terapêuticas, tanto física, como emocional, cognitiva e social. E as atividades desenvolvidas contam também, por exemplo, com sessões de leitura assistida com animais. “A Vânia leu uma história à Mel e acabou por ler aos colegas também”, começa por explicar Rita Pereira. A intenção desta abordagem é fazer com que os participantes “ganhem mais confiança na leitura porque eles ao ler para o animal não estão tão preocupados com quem está ouvir”.  “Porque ele não julga, está só a ouvir. Ela não faz nada, só está presente”, acrescenta Cláudia Esteves. “Foi super engraçada. Eles adoraram, a Vânia, também”, avalia a diretora-técnica da APCG.

No fundo, a presença do animal funciona como catalisador. É introduzida uma terapia normal e “o cão vai funcionar como facilitador porque às vezes nem sequer precisa de fazer nada”.

Tanto os cães como a terapeuta são certificados para a realização deste tipo de intervenção pela Associação Animas, a única entidade em Portugal autenticada para o fazer. É um processo demorado que começa pelo treino do animal, a formação da terapeuta, culminando na posterior certificação de ambos.

O cão mal nasce é selecionado e começa logo a ser preparado. Tanto o treino do Lord como o da Mel realizou-se em parceria com a associação vimaranense Super Cães e o treinador canino Marco Silva. “Sempre que é necessário eles aprenderem uma habilidade nova para introduzir porque é benéfico para algum utente, conto sempre com o apoio dele porque é muito importante para ter os cães aptos”, considera a enfermeira de reabilitação.

Depois foi a vez do Quim que não achou o pelo áspero. “É bom”, disse. Calmamente a Mel vai ao encontro de todos. Eis que chega a vez do Luís que gosta de imitar a cadela a ladrar. “O Luís reage a pouca coisa e, por isso, é que insisti com ele, de pôr a cadela a ladrar porque o estímulo auditivo da cadela para ele é uma coisa fantástica. Começa logo a rir-se e começa a imitar a cadela. Ele faz mesmo o ‘uau, uau’ e por isso é que insisti”, contextualiza Rita Pereira.

O Nuno tem medo da Mel. A APCG já soma cerca de sete sessões de terapia assistida com animais e em nenhuma o jovem deixou sequer que a cadela chegasse perto dele. Mas, talvez motivado pela serenidade com que a sessão foi evoluindo, o Nuno ultrapassou o receio e deixou que a cadela se aproximasse. Tocou-lhe. Quem assistiu confirmou ter sido a primeira vez. “Foi ótimo ele conseguir tocar nela. Ele nunca tinha tocado nela”, referiu Rita Pereira. “Já posso dar-lhe biscoitos?”, questiona o Nuno. “Depois vou lavar a mão, cheira a cão”, analisa.

Mas a pandemia por covid-19 limita, por precaução, a interação realizada nas sessões de terapia. “Normalmente as sessões que fazia eram muito baseadas em toque, acho que isso é o fundamental, neste tipo de população e na demência avançada acho que funciona muito pelo toque e pelas emoções e pelas memórias afetivas”, começa por explicar a mentora do Dr. Cão. Mas neste momento o toque com as mãos é sempre aquilo que se tenta evitar. “Na última sessão trouxemos uns arcos que eles tiveram que montar, não houve tanto contacto direto com o cão, agora fizemos mais as festinhas com os pés por causa disso. Como temos pouca informação acerca do vírus temos que ter cuidado”, acrescenta.

Este momento acabou em paródia com o Olivério a fingir que a Mel ainda estava junto aos pés do Nuno. “Olivério deixa o Nuno, ele já não tem medo agora, já sabe que és tu”, diz uma colaboradora da APCG. “Não, não”, diz o Nuno em jeito de quem não está convencido que o medo se tenha dissipado.

“Que tal Zé? Tens que tirar as meias também Alice, está quase a chegar a tua vez”, insiste a enfermeira de reabilitação. O Zé gostou, o Vítor reagiu com pequenos gemidos. “É quente”, diz o Manel. Cada um reage “à sua maneira”. “Porque são todos muito diferentes”, diz Rita Pereira. “Tudo isto é um processo, as próprias sessões com a equipa técnica, vai-se ganhando alguma empatia. Os utentes vão permitindo e abrindo mais as portas e as janelas e nós vamos conseguindo conquistar e eles ganhar competências”, acrescenta Cláudia Esteves.

A Mel começa a acusar o cansaço e o reforço dos biscoitos é introduzido na reta final da sessão. É, por isso, que as sessões, tanto em grupo como individuais, têm sempre a duração máxima de 45 minutos.

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