Amar e ser amado é um direito de todos

PorFórum

Amar e ser amado é um direito de todos

Numa espécie de “rescaldo” do Dia dos Namorados, celebrado anualmente a 14 de fevereiro, vamos falar sobre amor. O amor sem rótulos. Falar sobre a afetividade, o toque, os gestos, as palavras, os pensamentos, os sentimentos, as ações e as interações. Nada mais interessa.

“É simpático, carinhoso e muito meigo. Dá-me os abraços que os namorados dão e às vezes beijinhos”, resume Patrícia Oliveira. “Também é simpática e meiga, é especial para mim”, completa Carlos Martins. A seta do Cupido que acertou no coração destes dois jovens transformou a amizade, que a convivência no Centro de Atividades Ocupacionais da Cercigui tinha construído, numa paixão há algum tempo vivenciada. Conhecem-se há mais de 15 anos. Talvez. Não conseguem precisar, mas as contas exatas não interessam porque sabem que estão ali para contar a história de amor que os une e que motivou esta entrevista. “A minha sala e a dele é pegada uma da outra. E foi aí que começamos a falar. Ele disse: ‘Aceitas namorar comigo?’ E eu disse: ‘Aceito’”.

Simples, tal como o amor deve ser. Para complicar basta a sociedade que, nos tempos que correm, ainda tende a considerar que o amor e a deficiência são duas palavras que representam realidades que não se conjugam. Como se o direito a namorar estivesse associado a um padrão de funcionalidade, estética e beleza dominantes. “Isto torna esta associação como que descabida: a sexualidade e deficiência, portanto, são duas palavras que não dão as mãos, pelo contrário, parece que funcionam como um par conflituante”, explicou o psicólogo clínico e sexólogo, Jorge Cardoso, em tempos para uma reportagem da revista digital Plural&Singular que pode ler AQUI.

Mas este casal de pessoas com trissomia 21, por muitos chamado o cromossoma do amor, sem terem consciência disso, estão a provar precisamente o contrário. “O meu príncipe é lindo, quando estou em baixo apoia-me. Está sempre pronto para ajudar. Chega à minha beira abraça-me e dá-me um beijo”, conta Patrícia Oliveira.

Entrevistada pelo Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência de Guimarães a psicóloga da Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Com Incapacidades de Guimarães, Crl (Cercigui), Carla França, diz que a temática da sexualidade e dos afetos na pessoa com deficiência “tem vindo, progressivamente, a ser aceite na sociedade em geral”. “A maior divulgação dos direitos e as partilhas das pessoas com deficiência das suas vivências pessoais têm contribuído para uma maior aceitação”, destaca, acrescentando que, ainda assim, “há um caminho a percorrer”. “Aceitar não quer dizer que aquele direito da pessoa seja respeitado e apoiado para uma prática efetiva”, sublinha.

Os irmãos de ambos – Carlos tem um e Patrícia tem três – convivem bem com o namoro do casal de clientes da Cercigui. “O meu problema é a minha mãe que não aceita”, avança Patrícia Oliveira. “Eu tenho aqui [no telemóvel] fotografias e ela diz assim ‘Quem é esse?’ e eu digo ‘O que é que tem?’”, conta. A jovem não sabe porque é que a mãe reage assim, mas o sorriso que faz quando fala do assunto manifesta a naturalidade com que aceita a reação da mãe à existência desta paixão na vida de Patrícia. “Eu gosto dele, eu amo-o. Só quero aos domingos passear com ele. Os pais dele é fácil, gostam muito de mim. ‘És a minha norinha’. Já a minha mãe não é assim”, lamenta. Mas não perde a esperança que a mãe um dia aceite o relacionamento. “Até a minha sobrinha diz: ‘Ó avó, um beijo, qual é o mal? Dantes era à janelinha, agora já não é” [risos].

“Os mitos e preconceitos continuam a existir. O estigma, o comunicar sobre a intimidade, os medos da família, continuam a persistir. Há namoros assumidos na instituição e nas famílias e há outras situações em que as famílias têm maiores dificuldades em aceitar. Respeitamos e procuramos que cada jovem viva os seus afetos”. Carla França

 

Patrícia Oliveira é de Campelos. Carlos Martins é de Ronfe. Têm ambos 37 anos. “Eu faço a 30 de agosto”, diz a Patrícia. “Eu faço no dia 11 de abril”, atira o Carlos. Ela é virgem e ele carneiro, mas não sabem nada sobre signos e nem se preocuparam em procurar compatibilidades no zodíaco quando começaram a perceber que o que sentiam ultrapassava as fronteiras da amizade.

“Às vezes ele chateia-me um bocado”, refere Patrícia. Contou inclusivamente que o Carlitos, como lhe costuma chamar, chegou a namorar “uma menina lá de cima [sede da Cercigui]”. Mas Carlos deita por terra a réstia de ciúmes que Patrícia vai ainda demonstrando quando diz: “Amor, eu amo-te”. Também ele assume ter “um bocadinho” de ciúmes e “vai ao ar” com uma amiga de ambos que “se mete no meio” e faz muitos comentários. “E eu não gosto”, admite Carlos. “Fora isso ela não faz nada”, garante Patrícia.

O Centro de Atividades Ocupacionais e Lar Residencial Alecrim da Santa Casa da Misericórdia tem 17 clientes – “três deles vão dormir a casa, os restantes residem no lar” – e a maioria tem idade avançada o que explica, segundo a diretora técnica do Alecrim, Luísa Rocha, o facto de, no dia-a-dia estas questões parecerem “adormecidas” e não constituírem desafios maiores para a instituição.


“Temos o caso de um utente e de uma utente que dizem que namoram. E a verdade é que o utente quando vai a casa traz flores e presentes. Mas não passa disso. Nunca houve necessidade de lhes explicar o que era um relacionamento porque têm um relacionamento que parece de criança”, refere Luísa Rocha. Limitam-se a querer “estar mais próximos um do outro” nas atividades e assumem-se namorados. Acabam por passar despercebidos porque “de uma forma geral dão-se todos muito bem e têm todos uma relação muito próxima”. “Os mais autónomos protegem os mais dependentes”, acrescenta a diretora técnica.

Luísa Rocha diz que “a sociedade ainda precisa de abrir muito a mente, sobre este tema e de uma forma geral sobre a deficiência”. “A sensação que eu tenho é que as pessoas olham para eles como coitadinhos, outras vezes afastam-se. Deve-se lidar com a deficiência com naturalidade porque faz parte da vida, mas as pessoas não conseguem. Os clientes do Alecrim lidam tão bem com o que têm e são felizes. Eles dão-nos mais do que o que pedem”, termina.

Formação em Sexualidade&Afetos

“A sexualidade não significa o mesmo que coito e não se restringe à fase orgástica: é muito mais do que isso, é a energia que motiva a procura do amor, é o contacto e a intimidade que se expressa no modo de sentir e no modo das pessoas tocarem e serem tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações, bem como a saúde física e a saúde mental” Tese “Vivência da Sexualidade da Pessoa com Deficiência Mental Profunda: Perspetiva dos Pais e dos Profissionais” de Filipa Silva

Os familiares dos clientes do Alecrim raramente acompanham o dia-a-dia da instituição porque são poucos os clientes que têm pais, por isso, a sexualidade e os afetos nunca chegaram a ser um assunto que tivesse de ser discutido com a família. “Nunca foi um tema muito falado cá, mas a sensação que eu tenho, é que as pessoas têm sensibilidade para isso aqui dentro”, admite a diretora técnica do Alecrim.

Luísa Rocha acredita que é um tema que continua a ser tabu, não é muito falado pela sociedade, nem pelas instituições. “É importante haver formação nessa área para se refletir sobre esse assunto”, defende.

Na Cercigui, Carla França garante que “os técnicos têm formação e dão formação aos seus clientes em função das suas características”. Mas também assume que os desafios diários variam, porque “as características dos jovens são muito distintas”. Se os jovens do Centro de Formação e Reabilitação Profissional (CRFP) “têm caraterísticas mais autónomas e vivências mais independentes”, já os jovens do Centro de Atividades Ocupacionais “exigem uma formação, um apoio e uma atenção diferentes”. “Os maiores desafios surgem quando os jovens querem ter uma maior intimidade. Há um caminho a percorrer na aceitação das vivências ao nível de uma maior intimidade”, confessa.

É por isso que a psicóloga da Cercigui considera importante “continuar a assegurar e a promover a capacidade de escolha como sendo fundamental para o desenvolvimento de cada pessoa”. Quer seja ao nível daquilo que veste, a atividade que quer desenvolver, a instituição onde quer estar, em quem quer votar e com quem quer namorar. “Todos os técnicos, procuram ser um facilitador na comunicação, na partilha de dúvidas, na informação, no adotar de uma atitude de maior aceitação e de respeito pelas escolhas e decisões de cada jovem”, garante Carla França.

O Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media que tem uma secção de informação sobre este tema no site da revista digital Plural&Singular promoveu em setembro do ano passado uma ação de formação e de sensibilização sobre as especificidades da sexualidade e dos afetos vivenciados por pessoas com deficiência e seniores, dirigida a técnicos e familiares.

Vários representantes de instituições de Guimarães, incluindo da Cercigui e do Alecrim, participaram nesta ação de formação e de sensibilização.

A iniciativa aconteceu no âmbito do projeto “Nós, os cuidadores” da Plural&Singular, e por isso contou também com a participação dos cuidadores que integram as sessões de apoio psicológico orientadas pela psicóloga clínica Marta Freitas. Foi um momento em que todos os participantes tiveram a oportunidade de refletir em conjunto sobre o tema, ao mesmo tempo que se desconstruíam os estereótipos e os tabus associados às pessoas com deficiência e ao envelhecimento.

A falta de informação deu sempre azo a imensos preconceitos, quer a nível familiar, quer das pessoas sem deficiência e dos profissionais. Num preâmbulo sobre os clichés associados às pessoas com deficiência facilmente se detetam dois grupos: ou são hiperssexualizadas ou são assexuais. Por um lado, julga-se que as pessoas com deficiência, normalmente física, não são capazes de ter e de viver relações sexuais, que não têm libido e por outro, normalmente as pessoas com deficiência intelectual estão excessivamente interessadas no sexo e não são capazes de controlar o seu comportamento sexual.

Segundo o sexólogo Jorge Cardoso estes preconceitos têm séculos de raízes que se foram consolidando e remetem a deficiência para uma dimensão inferior que tende a ser alvo de desqualificação. “Então a sexualidade que nós, a matriz social, tendemos a percecionar como apanágio de quem? De pessoas saudáveis, de pessoas novas e, preferencialmente, do ponto de vista estético, bonitas, com bons atributos de corpos trabalhados no ginásio e afins, com restrições alimentares que permitam depois essa exibição pública do corpo”, descreve o sexólogo.

“Da mesma maneira que se falam de outros assuntos também se deve falar de coisas tão básicas como o corpo, as diferentes partes do corpo, as diferenças do corpo do rapaz e da rapariga, a existência de órgãos genitais e para que servem. A masturbação como qualquer coisa normal mas que tem requisitos próprios, como, por exemplo, o espaço privado, como, por exemplo, a higiene. E se tiverem aptidões cognitivas para mais, vamos explicar mais. Que a sexualidade deve ter uma base relacional que implica respeitar a vontade do outro, que implica o desenvolvimento de todo um conjunto de afetos…” Sexólogo Jorge Cardoso

 

Dia dos Namorados

São os dois cegos e ambos têm 19 anos. Eduarda Azevedo e Duarte Sousa conheceram-se nas atividades promovidas pela ACAPO a nível nacional. Ele é de Viseu e estuda Direito no Porto. Ela é de Guimarães e estuda Música em Aveiro. “Nas Olimpíadas do Braille, no nosso escalão, a luta era sempre entre mim e ele, por isso começou por ser um rival, de uma forma saudável. Já nos conhecemos há bastantes anos, sempre fomos amigos”, começa por situar Eduarda Azevedo.

Em jeito de brincadeira, a jovem vimaranense acabou por dizer que o facto de serem os dois cegos faz com que consigam ver “mais facilmente o lado humano da pessoa sem qualquer tipo de objeções físicas”. “Se calhar quando se sai, vê-se uma pessoa e diz-se: ‘Este é bonito, vou meter conversa’. No nosso caso isso não é assim. Acaba por ser mais genuína a primeira abordagem porque não é pelas características físicas”, considera.

Graças às redes sociais começaram a falar cada vez mais e a conhecerem-se melhor. “E fomo-nos aproximando e criando cada vez mais ligação”, conta.

Os que julgam que o facto de terem ambos deficiência visual torna tudo mais difícil estão enganados: “Até ajuda a criar mais ligação. Passamos os dois pelos mesmos problemas, pelos mesmos obstáculos, pelos mesmos desafios pelo que vamos enfrentá-los juntos, nas mesmas condições. Acaba por ser, no fundo, um fator de ligação, ultrapassar isso juntos”, reflete.

Para Eduarda Azevedo a cegueira é como outra característica qualquer, como ser alto, baixo, gordo ou magro, louro ou moreno. Mas admite que não escapam à curiosidade das pessoas: “Olha dois cegos juntos”. Mas lidam com as potenciais abordagens na rua “com tranquilidade”.

As famílias já se conhecem e “nunca houve qualquer tipo de problema” por ambos serem cegos. Do futuro da relação, pouco se falou. Estão focados nos estudos e, por isso, não se imaginam tão cedo a ter filhos. Os desafios de serem dois pais cegos de filhos normovisuais ainda não é algo que os preocupe para já. “Nós nascemos assim estamos habituados a esta realidade, este é o nosso mundo. Conheço casais cegos com filhos. Os filhos adaptam-se, não são cegos e habituam-se a essa realidade e, possivelmente, até tem esse lado bom de aprendizagem por terem os pais cegos”, constata a jovem vimaranense.

Ah, no dia 14 de fevereiro Eduarda Azevedo vai estar no hospital a preparar-se para uma operação ao ouvido para reparar uma perfuração do tímpano. “Vai ser um dia diferente”, refere divertida.

“Tenho imagem mental física, mas mais importante do que isso são as características dele e quando penso nele, só penso mesmo nessas características”. Eduarda Azevedo

Patrícia Oliveira e Carlos Martins almoçam sempre juntos no Dia de São Valentim. “O ano passado fomos ao Espaço Guimarães, quem pagou a comida foi ele. E eu paguei os gelados. Ele é chocolate, eu é morango”, lembra Patrícia Oliveira.

O dia 14 de fevereiro é um dia especial e muito importante para ambos. Patrícia está a pensar levar um vestido e quem sabe pintar-se. “Vamos comer fora. Há duas senhoras que estão a tramar alguma coisa, agora, o que é não sei”, acrescenta a jovem vimaranense.

Carlos Martins trabalha um dia por semana na empresa Guimanos a dobrar a roupa e Patrícia Oliveira na Alfa como ajudante de cozinha.

A Cercigui, todos os anos, proporciona aos respetivos casais a possibilidade de celebrarem o Dia dos Namorados a dois. É por isso que a Patrícia e o Carlos conseguem almoçar juntos fora da instituição. “Na Cercigui procura-se ter uma atitude de aceitação e respeito pelas dinâmicas de cada jovem”, revela Carla França. A psicóloga acrescenta ainda que “é preciso promover a sexualidade e os afetos enquanto parte integrante da vida de cada um” porque é um importante contributo “para o equilíbrio físico e psicológico” de todos.

A instituição procura ir de encontro às necessidades dos clientes e das famílias, embora as famílias tenham uma maior dificuldade em “comunicar” sobre este tema. “Ainda há silêncios”, resume a psicóloga da Cercigui.
Carla França descreve que as famílias continuam a revelar atitudes super protetoras face aos seus filhos. “Aceitam e exprimem atitudes de tolerância em relação aos direitos mas quando se trata do seu filho ou filha os medos voltam a surgir”, explica. “Quase todos, aceitam que os seus filhos vão almoçar no dia dos namorados, fora da instituição, num almoço a dois, mas se fosse um fim-de-semana a dois, tenho sérias duvidas que tal fosse possível para a maioria dos nossos casais”, continua.

“Agora é casar”. Refere o Carlos, um desejo que a Patrícia também partilha. “Uma noiva mais bonita, a entrar numa igreja”, refere. Imagina-se com véu e um vestido comprido. “Bege ou branco, tanto faz”, acrescenta. “Eu de fato cinzento. Já tenho as calças e tenho o casaco”. A verdade é que o Carlos já pediu a Patrícia várias vezes em casamento. “Ele chega à minha beira. ‘Ó dá-me a mão”, eu dou-lhe a mão. ‘Aceitas casar comigo?’ E eu aceito”. “Primeiro eu ajoelho-me”, completa Carlos. “Casar, ter uma casa só para nós”, continua a sonhar Patrícia. “Gostava de ter férias eu e ele”. E sabe onde gostava de ir. “Ao Brasil”, responde Patrícia. “Eu vou com ela”, atira Carlos.

Sobre o autor

Fórum editor

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

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