A arte a colorir a vida

PorFórum

A arte a colorir a vida

Chama-se “Art will try to fix you” e é da autoria do artista plástico Pedro Guimarães. Trata-se de uma peça artística mas pretende ser a parte mais visível de uma iniciativa muito mais ambiciosa. O desafio partiu da Câmara Municipal de Guimarães, através do Projeto Consigo, e o resultado final está no largo do Toural para “despertar emoções” de todos os que por lá passam.


Foi no atelier em Creixomil que o artista plástico Pedro Guimarães recebeu o Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência para explicar como é que este projeto “Art will try to fix you” surgiu e onde foi buscar a inspiração para criar uma obra de arte subordinada a um contexto que, na maioria das vezes, não está associado a elevados padrões artísticos e culturais.

Mas foi isso que Pedro Guimarães se propôs a fazer quando decidiu chamar os clientes da Cercigui para o ajudarem a construir a estrutura da obra de arte que o projeto Consigo o desafiou a criar.

Enquanto embaixador das artes da Cercigui foi junto da instituição que o artista plástico encontrou a equipa de trabalho que precisava para cumprir os objetivos a que se propunha.

“Eu recebi os miúdos todas as segundas-feiras de manhã aqui no meu atelier. Eu ia à padaria, preparava-lhes o lanche. Era eu que lhes preparava as sandes. Já sabia que o Luís não gosta de queijo e que a sandes dele tinha que ser reforçada com fiambre. Termos esta proximidade, isto é o tempo real, o tempo passado com eles”, conta Pedro Guimarães.

Os jovens da carpintaria e os da serralharia da Cercigui foram chamados para trabalhar com a “sucata” de produtos de apoio, um processo criativo e de trabalho desenvolvido ao ritmo da equipa criada para o efeito. “Demorou mais de um ano. As bases são camas, foi tudo soldado por eles, ao ritmo deles, eu tive que esperar por eles”, acrescenta o artista plástico.

 

A obra de arte

Esta espera criou expetativas em todos os envolvidos no projeto, mas quando a peça foi apresentada publicamente o artista só recebeu comentários positivos.

“O tema era forte” e os materiais aplicados nesta peça, os equipamentos utilizados por pessoas com mobilidade reduzida, eram “completamente deprimentes”. “Estamos a falar de peças usadas há trinta anos, muletas obsoletas e cadeiras de rodas. Quando se deu o primário e começou a ficar tudo branquinho já tinha uma energia diferente”, começa por explicar Pedro Guimarães.

O grande desafio foi converter aquele material “cinzento”, numa peça alegre e que desperte emoções positivas. “Acho que o objetivo foi cumprido”, avalia o artista plástico.

“A peça para cumprir os objetivos a que nos propúnhamos tinha que ter alguns pré-requisitos: observamos a peça de perto não percebemos quase nada, depois pomos o telemóvel e ganha uma forma diferente, com a distância também”, completa.

A dinâmica de observação da peça no largo do Toural faz ainda uso da luz natural para lhe acrescentar significados. Ninguém lhe fica indiferente e à primeira vista não é percetível que os equipamentos adaptativos obsoletos são a base da peça “Art will try to fix you”.

Na inauguração, a 15 de junho, graças a este desafio conseguiu-se juntar dois mundos que muitas vezes não se cruzam. Misturar a área social, clientes e quem nela trabalha e o meio artístico pode parecer natural, mas não é comum. “Eu acho que as coisas só funcionam assim. Eu recebi milhares de mensagens de pessoas com deficiência e de familiares a agradecerem-me”, revela Pedro Guimarães.

O artista plástico

“Eu fui o mais beneficiado neste projeto todo”, contrapõe o artista plástico que assenta o respetivo trabalho em “três pilares +1”, sendo que o ‘+1’ enquadra esta iniciativa. Refere-se à vertente social de qualquer negócio, tendencialmente, menosprezada, mas que é, muitas vezes, para o artista plástico a que lhe dá mais significado.

Ofereceu sempre, para os leilões de angariação de fundos da Cercigui, peças artísticas, mas assume que nem sequer comparecia ao jantar. “A minha ligação com a Cercigui foi uma ligação hipócrita durante muitos anos. O darmos o dinheiro é por descargo de consciência, é apenas um alívio para a nossa consciência”.

Até que foi “forçado” a ir porque teve direito a uma homenagem. “Eu fui falar e com toda a naturalidade disse: ‘Eu não mereço isto, é uma hipocrisia da minha parte eu receber isto’. O que eu fiz sempre foi mandar coisas para não ter que vir cá, mas quero assumir aqui, publicamente, que me quero envolver”, revelou.

Este foi o momento de viragem e a partir daí a parte social materializou-se num contato direto com as pessoas. “Eu dou aquilo que de melhor tenho que é o meu tempo”, sublinha.

Os outros três pilares que completam a receita do que considera ser um negócio bem-sucedido e as razões que explicam o respetivo êxito costumam sem o mote das palestras que dá a alunos das artes. “Começo a dizer-lhes logo ‘Vocês têm todos pinta de artista, vamos ver quantos vão sair daqui’. Um artista tem que criar uma empresa, tem que faturar um quadro. Se queremos fazer disto vida temos que pensar que tem que existir a vertente comercial envolvida: Como é que posso rentabilizar o meu trabalho? Como posso vender? Que canais é que vou usar?”, esclarece Pedro Guimarães sobre o primeiro pilar.

A construção de uma carreira é o segundo pilar do sucesso: “As pessoas só conseguem vender se forem expondo aqui, ali, se forem criando uma consistência que dê confiança às pessoas para comprarem uma peça”, garante.

E por último, o desenvolvimento do conceito. “Eu crio peças absolutamente estranhas que, a maioria das vezes, nem são para vender, onde eu exploro a parte técnica. A parte conceitual é importante, mostrar coisas diferentes, ou seja, é não pararmos”, explica.

Pedro Guimarães explica ainda que associado ao conceito está a criação de uma identidade, um desafio que o artista plástico considera que é cada vez mais difícil de alcançar. “Eu criei uma linguagem que as pessoas identificam. Pode estar pintado sobre madeira, sobre alumínio, sobre cadeiras de rodas, elas identificam como sendo meu. ‘A peça do Toural é tua? Eu passei de carro, não tive oportunidade de parar, mas aquilo parece-me teu?’. E isto é muito difícil de conseguir, é cada vez mais difícil criarmos uma identidade”, considera.

O pilar “+1”, a vertente social, coloca o trabalho artístico focado no que realmente interessa: na contemplação e na mensagem. A peça que está no Toural é uma peça para apreciar e para despertar emoções. “A parte social faz-nos chegar a um público que os outros três pilares não conseguem. É uma forma descomprometida de chegar às pessoas porque as pessoas não pensam sequer na vertente comercial”, acrescenta.

Pedro tem Guimarães no nome e na naturalidade. Estudou desenho criativo para a indústria têxtil, mas as artes plásticas tomaram conta de todo o seu tempo enquanto criador. Não encaixa em estereótipos artísticos, mas a paixão, o trabalho árduo e a liberdade criativa de que goza falaram mais alto e fizeram ouvir-se um pouco por todo o mundo. É a partir de Guimarães que se sente bem a trabalhar e entende que enquanto artista tem mais qualidade de vida na Cidade Berço do que teria em Nova Iorque, mesmo que mais perto da conceituada Georges Bergès Gallery no Soho onde algumas das suas peças estão expostas. Não interessa avaliar se esta cidade minhota compromete o alcance do seu trabalho, porque na verdade ele chega a todo o lado. Os trabalhos de Pedro Guimarães fazem parte de coleções privadas um pouco por todo o mundo: Nigéria, Suécia, Holanda, EUA, Nova Zelândia, Arábia Saudita, França, Espanha, Angola, Porto Rico e Líbano.

Para Pedro Guimarães “a arte é comunicação” e este artista plástico emergente apresenta uma linguagem multidisciplinar que parte do desenho e da pintura para algo verdadeiramente arrojado e trendy que comunica, cada vez mais, com todos.

 

O projeto

O Projeto “Consigo” é um serviço instalado na antiga Escola Primária de Infantas que faz um atendimento e acompanhamento de proximidade a pessoas em situação de vulnerabilidade social e/ou dependência permanente ou temporária residentes na área terroitorial da Comissão Social Interfreguesias Sudoeste Montanha da Penha. Esta resposta social contempla ainda o apoio psicológico e psicoeducativo dos clientes e familiares a quem dá resposta. Além disso, este projeto tem um banco de empréstimo de equipamentos adaptativos como por exemplo, camas articuladas, cadeiras de rodas, cadeiras de banho e outros equipamentos que funciona ao nível de todo o concelho vimaranense.

O Projeto Consigo tem como entidade promotora o Município de Guimarães e como entidade executora a Freguesia de Infantas, funcionando de segunda a sexta-feira entre as 9h30 e as 17h00.

Pedro Guimarães aceitou envolver-se com o projeto Consigo porque sabe que está no terreno e percebe as necessidades das pessoas. “E o que será desenvolvido no projeto ainda vai para além disso, vamos transportar a arte para as cadeiras de rodas”.

A ideia é apostar na personalização de produtos de apoio que as pessoas efetivamente utilizam e para o efeito pretendem envolver empresas que trabalhem na área. “Este projeto tem potencial para ser internacional e também outros artistas se podem envolver para inspirarem as cadeiras e as camas”, refere Pedro Guimarães em jeito de convite.

Esta obra “Art will try to fix you”, é no entender do artista plástico, apenas o “pontapé de saída” que vai agregar tudo isto. “Espero eu que não enfrie por aqui”, conclui.

Sobre o autor

Fórum editor

O Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência é um órgão informal de debate, de consulta e informação que funciona com o apoio da Divisão da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães e que, em 2018, completa 15 anos de existência. Composto por representantes de associações e instituições públicas e privadas, pessoas com deficiência e respetivos representantes o Fórum assume como principais funções a promoção e organização de debates temáticos e de ações e projetos de interesse para as pessoas com deficiência, assim como a apresentação de propostas e sugestões dirigidas a este público. Podem fazer parte do Fórum associações e instituições públicas e privadas, com personalidade jurídica, pessoas com deficiência e seus representantes. Os membros devem ser registados.

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