É Guimarães um destino de turismo acessível?

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É Guimarães um destino de turismo acessível?

Não é fácil responder a esta questão tendo em consideração as experiências de Cândida Proença que utiliza uma cadeira de rodas e de Marta Pinheiro que é cega. Pelo que relatam, a Cidade Berço não é um paraíso da acessibilidade, mas ainda assim consegue proporcionar experiências bastante positivas em termos de turismo inclusivo. Há muito por fazer para conseguir que Guimarães, nomeadamente o centro histórico, seja um destino para TODOS, no entanto, sempre se disse que, “o caminho faz-se caminhando”.

Foi em abril que Cândida Proença visitou Guimarães acompanhada pelo pai, numa viagem tranquila de comboio com origem em Coimbra, a cidade onde vive. Ficou instalada no hotel Fundador e à chegada atestou a acessibilidade da Estação de Guimarães em jeito de comparação com a falta de condições da estação de comboios da cidade dos estudantes.

Foi nessa visita de dois dias que começou a criar o roteiro turístico que resolveu preparar para incluir na newsletter da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, a doença que a acompanha há 27 anos, desde que foi diagnosticada aos 20 anos.

Cândida Proença por causa do avanço desta doença degenerativa utiliza uma cadeira de rodas para se deslocar. “Fazer turismo com mobilidade reduzida é sempre uma aventura porque saio da minha margem de conforto e vou rumo ao desconhecido”, completou.

E é este o espírito que a acompanha em todas as viagens que se propõe a fazer, sendo Guimarães, mais um desafio que aceitou sem hesitar para conhecer os recantos e os encantos que a Cidade Berço revela a todos os que se impelem a explorar.

“Em Guimarães, aponto o Paço dos Duques como boa prática de turismo com acessibilidades. O castelo é inacessível, bem como a maior parte das igrejas. O Santuário da Penha tem vistas deslumbrantes, mas as acessibilidades são quase nulas”, descreve em jeito de resumo.

“Fazer turismo em Guimarães é uma missão impossível sem a ajuda de terceiros para manusear a cadeira de rodas”, avalia Cândida Proença que utiliza uma cadeira de rodas manual e consegue verticalizar-se, sempre que necessário, para transpor alguma barreira existente.

E foi o que fez para conseguir realizar a viagem de Teleférico rumo à montanha da Penha, em junho, por ocasião do curso de formação que frequentou no âmbito do programa Erasmus+. “De apontar que o teleférico não é adaptado logo o turista tem de ter a capacidade de se verticalizar para fazer a transferência para a cabine”, sublinhou.

E foi nesta semana, de 12 a 19 de junho, que se confirmou a coragem de Cândida Proença. A professora de francês não se deixou vencer pelo receio de arriscar, desta vez sozinha, viajar para a Cidade Berço com o intuito de participar neste intercâmbio internacional. “A cidade de Guimarães é uma cidade histórica que vale a pena visitar mas com um cadeira de rodas manual será impossível fazer um roteiro de forma autónoma”, concluiu.

Valeu-lhe o apoio de todos os restantes participantes neste curso de formação promovido pelo Núcleo de Inclusão, Comunicação e Media. E a verdade é que todos ajudaram em algum momento a ultrapassar os obstáculos existentes, os mais comuns relacionados com a acessibilidade física: falta de passeios rebaixados, pavimento irregular, inexistência de rampas em alternativa a escadas e, por várias vezes, carros a ocupar os passeios.

Mas se dúvidas existissem, esta experiência pôde comprovar também uma coisa: uma pessoa com mobilidade reduzida e que utilize uma cadeira de rodas não consegue circular de forma autónoma em Guimarães. “Guimarães é parecida com a cidade de Porto com muitas inclinações e piso irregular”, analisa.

Marta Pinheiro é natural de Guimarães e enquanto cega tem uma experiência bastante diferente dos problemas de acessibilidade que os territórios apresentam. Talvez por isso avalie que Guimarães é uma cidade boa para visitar do ponto de vista de quem tem deficiência visual. “Até pela parte humana, eu acho que as pessoas colaboram bastante e acho que é uma experiência muito positiva e recomendaria. E é uma cidade que a nível de acessibilidade acho muito boa, o centro principalmente”, considera.

Marta Pinheiro já experimentou ser turista na cidade que a viu nascer e concorda com Cândida Proença na avaliação positiva do Paço dos Duques de Bragança em termos de acessibilidade. “O ano passado fui ao Paço dos Duques com uns amigos e foi uma experiência interessante porque eles tinham uma espécie de um guia em braille que nos foi bastante útil e também tivemos sempre pessoas connosco a fazer-nos a visita guiada”, referiu.

E no fundo é essa atenção e cuidado de “alguém que explique algumas coisas e que ajude a enquadrar melhor no ambiente” que Marta Pinheiro valoriza sempre que viaja. “Fazer com que a pessoa se sinta à vontade, não pôr problemas onde eles não existem e agir de forma o mais natural possível nunca esquecendo que a pessoa não vê”, resume a vimaranense.

“Há pouco tempo estive em Sintra e a Parques de Sintra tem maquetes da maior parte dos palácios. As maquetes dão-nos uma perceção mais realista dos edifícios vistos de fora”, explica.

Marta Pinheiro viaja bastante e, embora o turismo esteja muito associado a referências visuais, a verdade é que conhecer um território não é apenas uma experiência visual. “Muitas das impressões que eu tenho dos sítios vão muito à base dos outros sentidos, dos cheiros, por exemplo. “Uma cidade que visualmente é lindíssima, que é Veneza, mas cheira muitíssimo mal. Eu estive lá no verão, pelos vistos é quando se nota mais, tem um cheiro que não é agradável”, exemplificou.

Além dos cheiros, os sons e os espaços, se são amplos, se são estreitos costumam influenciar a imagem que costuma apreender de um determinado lugar. “No meu caso, como ainda vejo alguma coisa, a luz é uma coisa que me fica quase sempre: se é uma cidade clara, se é uma cidade escura. Há sempre sensações que nós apreendemos com os outros sentidos e nos ficam inevitavelmente”, conclui.

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